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  1. #181
    Senior Member jmartins's Avatar
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    Por Defeito Saga de um Pensador

    C a p í t u l o 18

    O Dr. Mário acompanhou a brilhante actuação de Marco Polo com Isaac e ficou deslumbrado.
    Teceu um carinho especial pelo jovem profissional. Os demais psiquiatras começaram também a
    respeitá-lo e a serem mais criativos. Cada cabeça é um planeta e cada planeta tem uma rota
    peculiar e exige um plano de voo distinto para ser atingido.
    Psiquiatras e psicólogos perderam o medo de tocar, de se relacionar e de brincar
    saudavelmente com seus pacientes. Expandiu-se assim o grau de confiabilidade e de empatia entre
    eles.
    Tornaram-se mais bem-humorados, sociáveis, sensíveis. Naquele ambiente, a psiquiatria e a
    psicologia deram um salto qualitativo. Romperam o modelo superficial e doentio extraído das
    relações empresariais, onde chefes e funcionários não podem aproximar-se, onde a hierarquia tem
    de ser mantida para o bem da ordem e do progresso. Tal modelo servia para disciplinar um
    exército, mas não para formar pensadores, pessoas livres e criativas.
    Apesar do clima do Hospital Atlântico ter melhorado, Marco Polo ainda não estava satisfeito.
    Achava que os pacientes ficavam muito tempo mergulhados em suas ideias negativistas e
    pensamentos mórbidos. Faltava alguma coisa.
    Através de sua observação clínica, descobriu que as crianças hiperativas, com transtorno de
    deficitde atenção, em quem as mães desenvolveram o prazer pela música clássica na infância,
    desaceleraram a agitação, expandiram a concentração, diminuíram a ansiedade e tornaram-se mais
    produtivas.
    Passado um mês, trouxe um aparelho de som e pediu que fosse instalado no pátio central.
    Comprou CDs de Mozart, Chopin, Bach e pediu que os colocassem durante a recreação dos
    pacientes. Quinze dias depois, os pacientes estavam mais serenos, motivados, alegres e menos
    pensativos. Até as crises diminuíram.
    Marco Polo e outros psiquiatras desconfiaram que a música gerava uma abstracção sublime que
    exaltava o universo dos afectos, que rompia o ciclo da construção ansiosa e exacerbada dos
    pensamentos, que liberava endorfinas e potencializava o efeito da medicação no metabolismo
    cerebral. Mas esta era apenas uma hipótese que precisava ser comprovada. Do pátio, a música
    ambiente começou a ser usada nos quartos e enfermarias do hospital.
    Cláudia, uma paciente que andava frequentemente desanimada e com as costas curvadas,
    animou-se com a música. Tinha sessenta anos, mas aparentava oitenta. O som musical a
    revigorou. Ninguém sabia, porém ela havia sido uma exímia dançarina e professora de dança na
    juventude. Era uma especialista em valsa. Motivada, Cláudia encontrou Marco Polo e contou-lhe
    seu passado.
    - Eu já brilhei nas pistas de dança, Dr. Marco Polo!
    O jovem psiquiatra ficou encantado com sua história.
    - Você ainda pode brilhar, Cláudia.
    - Não sei. Quando um vendaval passa por nossas mentes, a arte se dissipa.
    - Nem tanto. Muitos artistas produziram suas obras-primas nos piores momentos de dor e
    frustração. O sofrimento lapidou a arte.
    Cláudia saiu reflexiva. Marco Polo guardou seu relato. Certo dia, quando muitos pacientes
    estavam aglomerados no pátio, ele apareceu e tirou o CD de música clássica. Alguns pacientes
    fizeram um burburinho manifestando sua desaprovação. Em seguida, colocou uma belíssima
    valsa.
    Cláudia, ao ouvi-la, ficou excitada. Estava na lateral do pátio. Marco Polo dirigiu-se até ela e, na
    frente de todos, tirou-a para dançar. Ela quedou extasiada e, ao mesmo tempo, indecisa. Ele
    pegou suas mãos e a levou para o centro do pátio. Há 25 anos não dançava, pelo menos em
    Público. Seus amigos fizeram uma grande roda e clamaram:
    - Dança! Dança!
    Ela não resistiu. Marco Polo colocou erradamente suas mãos sobre as costas dela.
    Delicadamente, ela o corrigiu. Ele não era um bom dançarino, e Claudia estava com a
    musculatura rígida. Nos primeiros trinta segundos, ela não acertava o passo e ele falhava mais
    ainda.
    Em seguida, ela se soltou e começou a corrigir seus movimentos. Os pacientes ficaram
    encantados. Aplaudiram calorosamente. Desconheciam a artista que vivia com eles. Cláudia
    sentiu-se uma princesa. Sua mente trouxe doces imagens do glorioso passado.
    Aos poucos, os pacientes começaram a formar pares e começaram também a dançar. Como
    não havia par para todos, alguns pacientes formaram par com outros do mesmo sexo. Dora
    entrou no pátio com cara amarrada. "Desta vez Marco Polo foi longe demais", pensou.
    Ao ver sua irritação, o jovem pediu que Cláudia fizesse par com o Dr. Vidigal, que se isolara
    num canto. O Dr. Vidigal estava prestes a receber alta e nunca havia dançado uma valsa, mas
    ficou animado em aprender.
    Marco Polo foi até Dora e convidou-a para dançar. Ela recusou-se. De repente, as pessoas
    começaram a se aquietar e a prestar atenção no clima entre os dois. Ele insistiu:
    - A vida é tão efémera, passa tão rápida, permita-se relaxar.
    Ela deu-lhe as costas, preparando-se para retirar-se. Contudo, a plateia gritou novamente:
    - Dança! Dança!
    Ela respirou e subitamente voltou-se para Marco Polo. Todos se espantaram. Pensaram que ela
    ia dar-lhe uma bofetada. Com incrível segurança, pegou a mão do rapaz, colocou-a fortemente
    sobre suas costas e começou a dançar com incrível agilidade.
    Dora havia feito balé clássico durante toda a adolescência e sabia dançar música de salão com
    destreza ímpar, porém perdera a habilidade de dançar a valsa da vida. Assombrado, Marco Polo
    deixou-se conduzir por ela. Após os aplausos, todos novamente começaram a dançar.
    O Dr. Mário e outros psiquiatras ficaram sabendo da confusão no pátio. Ao entrar no
    ambiente, ficou perplexo. "Até Cláudia, que é tão recatada, foi contagiada", pensou.
    Embora gostasse de Marco Polo, o clima era insuportável para ele. Afinal de contas, sabia que
    em nenhum hospital psiquiátrico do mundo havia música ambiente. Uma roda de valsa era
    demais para sua cabeça.
    Estava para desligar o aparelho quando sentiu uma mão tocando-lhe o ombro. Era Dora.
    Delicadamente o impediu. Os pacientes novamente se aquietaram.
    - Dora, você sempre foi tão dosada, comedida. O que está acontecendo aqui? Vocês ficaram
    malucos?
    Sorrindo, Dora disse:
    - Agora, um pouco menos.
    Em seguida, Cláudia tomou a frente e disse:
    - Dr. Mário, por favor, dance comigo!
    Ele resistiu, coçou a cabeça e achou um absurdo o convite. Entretanto, num lampejo, ficou
    reflexivo e ansioso. Ele já havia atendido Cláudia num surto psicótico e agora ela queria levá-lo
    para o centro do palco. Ela estava segura e ele, inseguro. Os papéis se inverteram. "O que está
    acontecendo, meu Deus!", pensou.
    As crateras do seu inconsciente rapidamente se abriram e perturbaram-no mais ainda. Percebeu
    que, embora fosse o psiquiatra mais respeitado da grandiosa instituição, ele também estava
    doente. Tinha medo de ir para o palco, ser observado, falhar, passar por ridículo, ser debochado -
    os mesmos sintomas de muitos de seus pacientes.
    Naqueles poucos segundos de intensa reflexão, o Dr. Mário passou os olhos pela multidão de
    pacientes e descobriu que eles possuíam algo valiosíssimo que ele perdera: a espontaneidade. A
    espontaneidade, uma característica da personalidade fundamental para a saúde psíquica,
    escasseara nas sociedades modernas. Naquele momento o Dr. Mário percebeu que ela não fazia
    mais parte do dicionário de sua vida.
    A plateia, eufórica, clamou mais uma vez em coro, porém agora citando seu nome:
    - Dr. Mário, dança! Dr. Mário, dança!
    Sob a mira daquelas pessoas mutiladas pela vida, ele despiu-se da sua inatingível posição.
    Resolveu também entrar na dança. Aparentemente sem jeito, pegou em uma das mãos de Cláudia
    e colocou a outra mão sobre suas costas. Ela não fez nenhuma correcção.
    Logo no início, o Dr. Mário tropeçou. Porém, para surpresa de todos, transformou seu
    tropeço num passe de dança. A plateia gostou. Rapidamente se soltou, fez bonito na roda. Sabia
    dançar muito bem o doutor, mas havia se tornado uma máquina de trabalhar. Como Cláudia, há
    mais de vinte anos não dançava.
    Tratava de grandes empresários e de celebridades em sua clínica particular, era um especialista
    em resolver problemas, mas desaprendera a arte de viver, não seguia as suas próprias orientações.
    Nos primeiros anos após sua formação médica era solto, leve, feliz. Com o passar do tempo,
    tornara-se circunspecto, fechado, perdera a singeleza. Nem ele se suportava.
    Marco Polo, observando a habilidade e graça do seu director, pensou: "Quem dera não
    escondêssemos nossas identidades atrás de nossos títulos! Quem dera a psiquiatria, sem perder
    sua base científica, tivesse mais romantismo e generosidade!"
    O Dr. Mário e Cláudia formaram um par maravilhoso. Não era um psiquiatra e uma paciente
    dançando, mas dois seres humanos que precisavam resgatar o prazer das pequenas coisas. Após
    Cláudia se cansar, ele pegou Dora nos braços e começaram a dançar. Dois psiquiatras saíram do
    ambiente meneando a cabeça com indignação. Comentaram um com o outro:
    - O Dr. Mário enlouqueceu!

    98

  2. #182
    Senior Member jmartins's Avatar
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    Por Defeito

    Outros psiquiatras, no entanto, inclusive alguns seguranças, aproveitaram a oportunidade e se
    soltaram na pista improvisada. Dora se aproximou de Marco Polo e lhe pediu desculpas pela
    arrogância como o tratava. Complacente, ele simplesmente disse:
    - Eu a entendo.
    - Nós trabalhamos num dos ambientes mais tristes do mundo. Precisamos ser mais
    descontraídos - acrescentou Dora.
    - Esse é um grande desafio. O maior paradoxo da psiquiatria moderna é que ela usa
    antidepressivos para tratar o humor triste, mas não sabe como produzir a alegria. Mas veja o que
    conseguimos. Com tão pouco, as pessoas estão muito felizes.
    - Eu preciso mudar meu estilo de vida - ela reflectiu.
    - Todos precisamos. Creio que o ambiente tenso e entristecido do Hospital Atlântico é apenas
    um reflexo da sociedade que estamos construindo.
    Sem que eles percebessem, o Dr. Mário ouvia atentamente a conversa. Interrompendo-a,
    expressou:
    - Infelizmente, parece que desaprendemos e não sabemos mais como viver. A sociedade lá
    fora não é menos doente do que esse ambiente.
    Aliviado, colocou as mãos nos ombros do jovem amigo e expressou:
    - Muito obrigado, Marco Polo! Obrigado por me ensinar que é sempre possível recomeçar.
    Sorrindo, o Dr. Mário fez um comentário que jamais havia feito:
    - Precisamos agradecer a nossos pacientes por nos ensinarem o caminho das coisas simples.
    Despediu-se e saiu. Enquanto saía, o director abraçava vários pacientes que encontrava pelo
    caminho. Deu mais abraços em poucos minutos do que em trinta anos de profissão.
    Depois desses acontecimentos, o Hospital Atlântico mudou para sempre. Havia brilho nos
    olhos das pessoas. As habilidades dos pacientes foram aproveitadas.
    Cláudia abriu uma "escola de dança" no hospital. Brilhou como nunca. Sua escola gratuita
    tornou-se sua obra-prima. Quem sabia pintar, encenar, escrever e fazer trabalhos manuais
    ensinava os que queriam aprender. O índice de melhora e o tempo de internação diminuíram
    significativamente.
    Alguns pacientes sentiram-se tão úteis que, após receberem alta, retornavam como voluntários.
    A arte do prazer irrigou suas vidas. Foi a primeira vez que se teve notícia de que os pacientes
    amaram um hospital psiquiátrico.

    C a p í t u l o 19

    Marco Polo terminou sua especialização em psiquiatria. De vez em quando, visitava seus
    amigos no Hospital Atlântico. Ao mesmo tempo que se destacava como profissional, escrevia
    suas ideias sobre o mundo intangível da mente humana. Sua inquietação por novas descobertas e
    sua incapacidade de aceitar passivamente o que contrariava sua consciência não se abrandaram
    quando formado, ao contrário, intensificaram-se.
    Ele concordava com o pensamento de Aristóteles: "O homem é um animal político." Para ele, o
    ser humano era um actor social. Os psiquiatras e psicólogos deveriam sair do microcosmo dos seus
    consultórios, para actuar socialmente. Deveriam contribuir para prevenir os transtornos psíquicos
    e não viver às expensas de um sistema que produz pessoas doentes.
    Marco Polo pouco a pouco se tornou um psiquiatra influente na sua cidade e região. Devido à
    ousadia das suas ideias, com frequência o convidavam para dar conferências em faculdades.
    Certa ocasião foi convidado para dar uma palestra para duas turmas de alunos do último ano de
    faculdade de psicologia. A plateia era composta de mais de cem pessoas. O tema era "Depressão, a
    doença do século". Após sua exposição, Marco Polo comoveu os alunos. Terminou com estas
    palavras a sua prelecção:
    - Futuros psicólogos e psicólogas, a depressão é a experiência mais dramática do sofrimento
    humano. Só sabe a dimensão dessa dor quem já atravessou seus vales. As palavras são pobres para
    descrevê-la. Devemos aprender a respeitar esses pacientes, ouvi-los abertamente e fazê-los deixar
    de ser espectadores passivos de seu caos emocional. Precisamos levar os pacientes a gerenciarem
    seus pensamentos, protegerem suas emoções e reeditarem o filme de suas histórias. Esta é a
    grande tarefa da psicologia. Os que exercem a psicologia devem ser pessoas apaixonadas pela
    vida e, acima de tudo, devem desenvolver habilidades para descobrir os tesouros soterrados nos
    escombros dos que sofrem. O mapa desse tesouro não está em nossas teorias, mas nos
    comportamentos expressos subtilmente pelos próprios pacientes. Deixem-se ser ensinados por
    eles. Jamais se esqueçam de que nós não tratamos de doentes por não sermos doentes, mas
    porque sabemos que somos...
    Marco Polo foi ovacionado entusiasticamente pelos alunos. Eles ficaram reflexivos e até
    chocados positivamente com suas ideias. Diante do entusiasmo da plateia, ele comunicou que no
    mês seguinte haveria um congresso internacional de psiquiatria cujo tema principal era justamente
    a depressão. Se eles quisessem saber mais sobre o assunto, poderiam participar.
    Em seguida, abriu a palestra para o debate. Como o assunto era de interesse geral, vários
    alunos de direito, engenharia, pedagogia, que passavam pelos corredores do anfiteatro e ouviram
    as eloquentes palavras finais de Marco Polo, pediram licença para ouvir o debate. Sentaram-se no
    corredor. Logo de início, uma aluna tocou com ousadia num assunto sério:
    - Professor, alguns psiquiatras não enviam seus pacientes para os psicólogos. Eles confiam no
    poder da medicação e dão pouca importância à acção psicoterapêutica. Alguns acham até mesmo
    que a psicoterapia é uma perda de tempo. Por que a psiquiatria se considera superior à
    psicologia?
    O assunto era polémico, mas real e grave. Embora a psiquiatria e a psicologia devessem
    caminhar juntas, não poucas vezes andavam separadas, disputando pacientes e prejudicando a
    evolução deles. Faltava ética e conhecimento nesse delicado terreno. Recordando e concordando
    com as sábias palavras de Falcão, Marco Polo disse:
    - Os psiquiatras têm um poder que ditadores e Reis jamais tiveram. Através dos
    antidepressivos e tranquilizantes, eles penetram no mundo onde nascem os pensamentos, onde
    brotam as emoções. Este poder pode ser muito útil, mas, se mal usado, é capaz de controlar e
    não libertar os pacientes. Em tese, os medicamentos produzem efeitos mais imediatos, enquanto
    a psicoterapia, mais duradouros. Entretanto nem por isso a psiquiatria é superior à psicologia. As
    duas ciências são complementares.
    - E por que são separadas? - indagou uma intrépida estudante.
    Essa pergunta era curta, mas suas implicações eram grandiosas. Ela tocava na evolução da
    ciência, na formação de dezenas de milhares de profissionais (psiquiatras e psicólogos) e afectava a
    vida de milhões de seres humanos que anualmente adoecem psiquicamente. Como Marco Polo
    não tinha medo de opinar, disse taxativamente o que pensava:
    - Para mim a psiquiatria e a psicologia estão separadas porque a ciência está doente. A
    psiquiatria e a psicologia se desenvolveram separadamente no século XX. A psicologia tornou-se
    uma faculdade separada e a psiquiatria, uma especialidade médica. Elas deveriam unir-se, pois a
    mente humana não está dividida, o ser humano é indivisível. Em minha opinião, a psiquiatria
    deveria ser uma especialidade da psicologia e não da medicina.
    Os alunos deliraram. Irromperam em aplausos pela elevação do status da psicologia diante da
    poderosíssima psiquiatria. Jamais imaginaram que ouviriam esse parecer de um psiquiatra. Marco
    Polo completou:
    - Os psiquiatras saem bem-formados na compreensão do metabolismo cerebral e na acção dos
    medicamentos, mas mal-formados na compreensão da personalidade. Os psicólogos, ao contrário,
    saem bem-formados na compreensão da personalidade, mas mal-formados na compreensão do
    cérebro e na acção dos psicotrópicos. Os psiquiatras podem atuar como psicoterapeutas, mas os
    psicoterapeutas não podem actuar como psiquiatras, jamais podem prescrever medicamentos. Esta
    é uma injustiça científica.
    - Há prejuízos para os pacientes pelo fato de a psiquiatria ser separada da psicologia? - bradou
    curioso um jovem estudante de direito, sentado no meio do corredor.
    Marco Polo ficou feliz por seu interesse.
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  3. #183
    Senior Member jmartins's Avatar
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    Por Defeito

    - Em certos casos há, e muito. Quando um psicólogo atende um caso grave que necessita de
    intervenção rápida de medicação e encaminha para um psiquiatra, pode haver um intervalo de
    tempo perigoso até que o atendimento psiquiátrico seja feito. Por exemplo, nesse intervalo,
    os pacientes podem cometer suicídios, ter surtos psicóticos ou ataques de pânico. Se os
    psicólogos tivessem mais dois anos de especialização em psiquiatria, poderiam estudar melhor o
    corpo humano, a biologia do cérebro, a ação dos medicamentos e, assim, seriam capazes de prescrevê-los. Mas infelizmente existe uma disputa de mercado nos bastidores da ciência. Nem
    sempre o ser humano está em primeiro lugar.
    Em seguida, uma aluna tocou em outro assunto importante e frequentemente mal entendido.
    - Às vezes, os psicólogos, por falta de conhecimento ou por medo de perder seus pacientes,
    também não os enviam aos psiquiatras. Quando deveríamos enviá-los para serem medicados?
    - Não há regras rígidas, mas darei alguns princípios. Toda vez que há um quadro de confusão
    mental, risco de suicídio, humor intensamente depressivo, ansiedade grave ou insónia, o paciente
    deve ser medicado. Por favor, não esqueçam que vocês estão mexendo com vidas. Cada paciente
    é mais importante do que todo o ouro do mundo. Usem sempre o bom senso.
    Os alunos ficaram pensativos. Há anos estudavam psicologia, mas não tinham esses
    parâmetros claros em suas mentes. Alguns psicólogos colocavam em risco a saúde dos pacientes
    por não encaminhá-los aos psiquiatras. Tinham receio de trabalhar juntos.
    - Por que a insónia deve ser medicada, professor?
    - Porque o sono é o motor da vida. Ele repara toda a energia que gastamos. A sua falta
    desencadeia ou intensifica muitas doenças psíquicas e psicossomáticas. Você pode tentar
    remover ou trabalhar as causas de uma insónia, mas não tente por muitos dias. Encaminhe seu
    paciente para um psiquiatra ou até a um neurologista, se o caso for simples. E não se esqueça de
    que você pode brigar com o mundo e sobreviver, mas, se brigar com sua cama, vai perder. Ah! E
    não leve seus inimigos Para a cama. Perdoe-os, fica mais barato.
    O grupo sorriu.
    - Qual a frequência de pacientes deprimidos na população?
    - Existem diferentes estatísticas. No passado dizia-se que era 10% da população. Actualmente
    estamos nos aproximando de 20% das pessoas. O que indica que mais de um bilião de seres
    humanos, mais cedo ou mais tarde, terão um episódio depressivo. E, infelizmente, por
    preconceito ou falta de política de saúde pública, a maioria das pessoas não se tratará, trazendo
    sérias consequências psíquicas, sociais e profissionais.
    A plateia agitou-se. A situação era gravíssima. Pela projecção, de dez a vinte alunos do anfiteatro
    desenvolveriam depressão. Na realidade, alguns já estavam deprimidos. Como nessa faculdade
    70% dos alunos eram mulheres, uma aluna na lateral da classe indagou:
    - Quem tem mais transtornos emocionais, as mulheres ou os homens?
    - As mulheres têm uma incidência maior.
    Houve um tumulto na classe. Os alunos zombaram das suas colegas. Marco Polo fitou-os e
    disse:
    - As mulheres não adoecem mais facilmente no território da emoção por serem mais frágeis do
    que os homens, como sempre acreditou o machismo que reinou por milénios. Exceptuando as
    causas metabólicas, elas adoecem mais porque amam, se doam, se entregam e se preocupam mais
    com os outros do que os homens. Além disso, frequentemente são mais éticas, sensíveis e
    solidárias do que eles. Elas estão na vanguarda da batalha da vida, por isso acham-se mais
    desprotegidas. Os soldados no frente da batalha têm mais chances de ser alvejados.
    Marco Polo suspirou e pediu:
    - Por favor, aplaudam as mulheres desta plateia. Sem elas nossas manhãs não teriam orvalho,
    nossos céus não teriam andorinhas!
    Os futuros psicólogos ficaram rubros, as futuras psicólogas foram às nuvens. Marco Polo, em
    seguida, deu uma pequena, mas preciosa orientação terapêutica para elas. Disse-lhes:
    - Queridas mulheres, vocês podem viver com milhares de animais e não se frustrarem, mas, se
    viverem com um ser humano, por melhor que seja a relação, haverá decepções. Doem-se, mas
    não esperem muito retorno dos outros. Esta é uma das mais excelentes ferramentas para proteger
    suas emoções.
    A partir daí, por usarem essa ferramenta, algumas mulheres evitaram transtornos psíquicos.
    Passaram também a aplicar esse princípio com seus futuros pacientes.
    Uma aluna da área das ciências exactas, que estava recostada em pé na lateral direita da classe,
    não se aguentou:
    - Professor, eu estou aqui de curiosa. Sou estudante de engenharia, mas estou tão
    impressionada com o nível das ideias que penso que os alunos de todas as faculdades deveriam
    ouvir essas palavras. Nós aprendemos a lidar com números e dados, mas saímos completamente
    despreparadas para a vida. Por que existe esse vazio nas universidades.
    Marco Polo agradeceu e disse:
    - O sistema académico não precisa de conserto, mas de uma revolução. Ele gera gigantes na
    lógica, mas meninos na emoção. Os alunos não aprendem a libertar a criatividade, a ser
    empreendedores, a lidar com riscos e desafios. As faculdades ensinam a amar o pódio, mas não
    ensinam a usar as derrotas. - E, recordando as histórias dos debilitados do Hospital Atlântico,
    adicionou: - Por mais que sejam cuidadosos, vocês poderão sofrer algumas derrotas, às vezes
    difíceis de suportar. Mas lembrem-se desta frase: ninguém é digno do palco se não usar suas
    derrotas para conquistá-lo.
    Os alunos o aplaudiram com entusiasmo. Em seguida, outra aluna indagou, um pouco tremula:
    - Qual a frequência das pessoas stressadas na sociedade?
    Como muitos, ela era uma pessoa tímida. Toda vez que falava em público, suava frio, tinha
    taquicardia, enfim, sofria um desgaste enorme. Aliás, a maioria das pessoas na plateia tinha algum
    nível de timidez. Elas não estavam acostumadas a debater, mas Marco Polo criara um clima tão
    instigante que não conseguiram ficar caladas.
    Como crítico do sistema social, Marco Polo passou os olhos pela plateia e falou
    convictamente:
    - O sistema nos transformou em máquinas de consumir, uma conta bancária a ser explorada.
    Temos sido escravos, vivendo em sociedades democráticas. Vocês são livres para pensar e sentir
    o que desejam? Quantas vezes vocês se atormentam por coisas que ainda não aconteceram, ou
    por pseudonecessidades?
    Os alunos sentiram um nó na garganta. Em seguida, Marco Polo abrandou seu tom de voz.
    - Embora exista um stress saudável que nos estimula a sonhar, a planear, a enfrentar
    desafios, as sociedades modernas se tornaram fábricas de stress doentio, que bloqueia a
    inteligência, obstruí o prazer, gera ansiedade, dores musculares, dores de cabeça, fadiga excessiva. De
    acordo com algumas estatísticas, mais de dois terços das pessoas estão stressadas nas sociedades
    actuais.
    Um estudante brincalhão apontou um amigo agitado da classe e disse:
    - Professor, aqui está um "stressadão"!
    Marco Polo também brincou com a plateia.
    - Actualmente, o normal é ser stressado e o anormal é ser saudável. Se vocês estiverem
    stressados, são normais.
    A turma, aliviada, sorriu. Uma outra aluna perguntou:
    - Mas quem pode ficar livre do stresse nesse mundo maluco e agitado?
    Marco Polo fez um passeio em seu passado.
    - Quem abraça as árvores, conversa com as flores e vê o mundo com olhos de falcão.
    Os alunos assobiaram. Deram gargalhadas, pensando que ele contara uma piada.
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  4. #184
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    Por Defeito

    A leitura sempre foi e continuará a ser, uma forma de cultura que se saúda sempre pela qualidade.

  5. #185
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    Por Defeito Saga de um Pensador

    Havia uma jovem chamada Anna, sentada na primeira fileira no canto esquerdo da classe. Era a
    única que não demonstrava reacções enquanto Marco Polo respondia as perguntas. Ele havia
    notado seu ar de tristeza. Somente quando ele falou sobre abraçar árvores e conversar com as flores
    ela abriu um sorriso. Marco Polo acrescentou:
    - Isso não é loucura. Não estou brincando. Abracem árvores, contemplem a anatomia das
    nuvens, abracem o porteiro do prédio, cumprimentem o segurança da escola, não escondam seus
    sentimentos de quem amam, falem dos seus sonhos. Deixem-me filosofar: a existência é um
    belíssimo livro. Ninguém pode fazer uma excelente leitura desse livro se não aprender a ler as
    pequenas palavras...
    Dizendo isso, Marco Polo encerrou o debate. Os alunos estavam impressionados com o que
    ouviram. Ele falara com poesia numa palestra sobre depressão. Jamais tinham visto a psique
    humana sob essa perspectiva. Vislumbraram a psicologia namorando a filosofia.
    Marco Polo saiu debaixo de aplausos. No corredor, tentou aproximar-se de Anna e cumprimentá-la.
    Tímida, ela estendeu friamente a mão e pediu licença. Em seguida, saiu conversando com uma
    amiga. Ele achou estranha a sua atitude, mas, como os alunos o envolveram, não conseguiu abordá-la.
    Quando a roda se desfez, foi ao pátio procurá-la.
    Viu-a novamente. Aproximou-se e perguntou:
    - Desculpe-me, mas qual é o seu nome?
    - Anna. Mas, por favor, dê-me licença que tenho compromisso.
    Marco Polo ficou inconformado. Somente Anna não o aplaudira. Não era a falta de aplausos
    que o incomodava, mas a emoção contraída da moça. Daí a alguns meses ela seria uma psicóloga.
    "Que condições teria para exercer sua profissão?", pensou ele. Por isso insistiu:
    - Posso conversar outra hora com você?
    - Não!
    - Não existe um "não" sem uma explicação. Você tem namorado?
    - Não! Desculpe-me, mas não quero falar.
    - Então minha palestra foi péssima para você - argumentou.
    - O problema não é você, o problema sou eu - disse Anna com dificuldade, devido à sua
    insegurança.
    - Você tem medo de conversar comigo?
    Ela o fitou e, sem titubear, disse-lhe:
    - Você é que terá medo de conversar comigo! - E saiu sem se despedir.
    Marco Polo perturbou-se com as reacções dela. Mais uma vez confirmava que cada ser humano é
    uma caixa de segredos. Atendera tantas Pessoas, conhecia tantos tipos de personalidade, mas
    Anna o intrigara.

    C a p í t u l o 20

    O incansável apetite para explorar os solos da alma humana levou Marco Polo a ansiar
    conhecer os mistérios que envolviam as reacções de Anna. Entretanto, algo subtil e inesperado o
    fisgou. Anna era uma jovem alta, morena, cabelos longos e encaracolados. Ela o atraiu.
    Fez outra tentativa de ir à faculdade para encontrá-la. Avistando-o, os alunos novamente o
    envolveram. Ele agradecia, mas seus olhos procuravam outra personagem. Anna, ao vê-lo de
    longe, se dissipou na multidão de estudantes.
    A atitude dela o incomodava. Ao mesmo tempo que procurava um distanciamento para
    interpretar suas reacções, os comportamentos da jovem tocavam seu orgulho. Não era apenas o
    psiquiatra que fora alvejado, mas também o homem Marco Polo. Um sentimento ambíguo o
    envolveu.
    Queria saber ao menos as causas da sua resistência. Preferia que ela o criticasse, o considerasse
    um tolo, mas não o rejeitasse. Ele havia aprendido a se proteger das frustrações, mas como a
    emoção não segue a regras da matemática, nesse momento, sentiu-se frágil.
    Na semana seguinte fez uma última tentativa de encontrar-se com Anna, mas ela não estava
    presente. Ao indagar a uma de suas amigas, ela apenas disse:
    - Anna é uma pessoa espectacular, mas seus comportamentos de vez em quando são estranhos.
    Ela se isola de todos. Fica dias sem assistir às aulas. Parece que tem medo de enfrentar alguma
    coisa.
    Marco Polo ficou pensando se sua insistência teria provocado ou agravado seu isolamento.
    Achou que ultrapassara os limites. Criticou sua atitude tola de querer respostas para tudo. Foi
    atingido por um sentimento de culpa. "Deveria ter lhe dado o direito de não conversar comigo,
    ainda que sem explicações. Afinal de contas ninguém é obrigado a gostar de mim", reflectiu.
    Na realidade, Anna tinha um passado mutilado, não revelado nem para suas amigas.
    Dissimulava suas reações. Sorria por fora, chorava por dentro. Era portadora de uma depressão
    crónicaque se arrastava desde a infância. As amigas tentavam conhecê-la, mas Anna era uma
    pedra de granito, difícil de se penetrar. Embora fosse fechada, era afectiva, sensível, fiel aos amigos.
    Amava ler. Goethe era seu escritor preferido e Fausto, a sua obra predilecta.
    Apesar de seus períodos de ausência, era considerada uma aluna exemplar, pelo menos nas
    provas. Tirava as melhores notas da turma. Procurava esconder nas notas altas a sua baixa auto-estima.
    Como muitos alunos, escolhera conscientemente o curso de psicologia para ser uma
    psicoterapeuta, mas inconscientemente para compreender-se e superar seus próprios conflitos.
    Entretanto, frustrara-se, pois sua doença emocional resistia, perpetuara-se durante os anos de
    faculdade. Percebeu que seria mais fácil ajudar os outros do que a si mesma.
    Anna era prisioneira no único lugar em que deveria ser livre: dentro de si mesma. Belíssima por
    fora, triste por dentro, não suportava críticas, ofensas, desafios. Era tolerante com os outros, mas
    auto-punitiva. Cobrava-se demais. Seu perfeccionismo roubava-lhe o encanto pela vida e
    imprimia-lhe uma grave ansiedade.
    Seus antigos namorados não conseguiram entender suas crises e seus isolamentos. Ela não se
    entregava na relação por medo de perder quem amava. Quando o relacionamento exigia
    cumplicidade, ela recuava e rompia a relação.
    Tratou-se com vários psiquiatras e psicólogos desde a infância. Os resultados não foram
    consistentes. Alternava períodos de melhora com crises. Sua emoção era um navio sem âncora,
    incapaz de navegar com segurança no belo e tumultuado oceano das emoções.
    Alguns psiquiatras de renome fizeram um diagnóstico sombrio e inadequado de sua doença
    psíquica. Disseram que ela teria de conviver com sua depressão para o resto da vida, pois tinha
    deficiência de serotonina no cérebro.
    Para uma futura psicóloga que sonhara em ajudar as pessoas a serem saudáveis era difícil
    aceitar a depressão como hóspede ad aeternum da sua personalidade. O sonho da liberdade que
    inspirou seres humanos a escrever poesias, escalar montanhas, romper grades de ferro quase não
    existia em Anna, pois se diluíra no calor das suas crises.
    Marco Polo amava o desafio. Anna amava a rotina. Ele resolveu respeitar o espaço dela. Não a
    procurou mais.
    No mês seguinte, ele foi ao famoso Congresso Internacional de Psiquiatria. Milhares de
    psiquiatras do mundo todo participavam do magno evento. Lampejos de esperança seriam
    anunciados para o tratamento das doenças psíquicas, em especial a depressão.
    Marco Polo discorrera na faculdade de psicologia sobre os tesouros ocultos nos destroços dos
    que sofrem. Sua forma sensível de falar sobre a psique levou dezenas de futuros psicólogos a
    participar do evento. Estavam entusiasmados. Não sabiam que suas expectativas se tornariam um
    pesadelo.
    Anna ousou também participar. Evitava Marco Polo, mas suas ideias a atraíram. Os alunos
    esperavam enriquecer sua formação. Afinal de contas, logo conquistariam um diploma e teriam
    de tratar das mais complexas doenças, as que atingem o mundo invisível da psique. Pensavam:
    "Logo, a vida de um ser humano estará em nossas mãos." Alguns sentiam calafrios diante dessa
    gigantesca responsabilidade.
    A maioria das conferências desse congresso era sobre farmacologia (estudo dos
    medicamentos), lançamento de antidepressivos de última geração e causas metabólicas das
    doenças psíquicas. O poder dos remédios seria exaltado. O poder da interacção social, o de
    técnicas para proteger a emoção e o da expansão da sabedoria para sobreviver nas stressantes
    sociedades modernas seriam pouco valorizados.
    Marco Polo alegrou-se ao encontrar os estudantes no imenso saguão do hotel onde o
    congresso se realizava. Abraçou-os. Viu Anna, ficou feliz, mas cumprimentou-a discretamente.
    Passada a descontracção, ele ficou apreensivo. Olhou ao redor e observou, constrangido, os
    laboratórios farmacêuticos instalados em luxuosos boxes seduzindo os presentes. Ele havia
    estimulado os alunos a virem ao templo da psiquiatria, mas começou a ficar preocupado com os
    fatos imprevisíveis que poderiam ocorrer.
    As indústrias farmacêuticas - principalmente as indústrias que estavam lançando uma nova
    droga medicamentosa -, patrocinavam o evento, os pró-labores de alguns conferencistas e os
    coquetéis. Além disso, pagavam a inscrição, as passagens e a hospedagem de alguns destacados
    psiquiatras para participarem do conclave.
    Até a década de 1970, nos EUA, a maior parte das pesquisas clínicas para produzir novas
    drogas era financiada com verba pública. Com o declínio da economia norte-americana na
    década de 1980, os recursos escassearam e os pesquisadores académicos começaram a receber
    patrocínio das empresas.
    Na década de 1990 a situação se agravou. Cerca de 70% das pesquisas eram agora financiadas
    pelas indústrias farmacêuticas, mas a situação ainda era positiva, pois grande parte delas
    realizava-se no santuário das universidades, onde a averiguação de dados era mais detalhada,
    mais comprometida com a saúde do ser humano e menos com os lucros.
    Marco Polo tinha consciência dessas mudanças na produção científica, coisa rara entre
    psiquiatras e cientistas. Analisando dados, percebeu que essas mudanças se intensificaram no
    século XXI. A maioria das pesquisas, além de ser financiada pelas indústrias farmacêuticas,
    passou a ser realizada dentro das suas próprias dependências e não mais nas universidades. Os
    objectivos serem cortar gastos, reduzir a burocracia e melhorar a rapidez dos resultados.
    107

  6. #186
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    Tal mudança não foi em si mesma um processo anti-ético, até porque essas indústrias
    contribuíram muito para a saúde mundial. Marco Polo sabia disso. Entretanto, para ele, assim
    como os tribunais e o aparelho Policial são úteis para a sociedade, mas às vezes cometem graves
    erros, as indústrias farmacêuticas não estavam isentas de cometê-los, principalmente porque
    lidavam com quantias inimagináveis de dinheiro.
    As pesquisas de novas drogas nas dependências das indústrias farmacêuticas eram objecto de
    sua inquietação. Ele se preocupava com três tipos de controle, que, feitos inadequadamente,
    poderiam prejudicar a saúde de uma parte significativa da humanidade: do processo de pesquisa,
    dos resultados da pesquisa e manipulação desses resultados e sua divulgação para a classe
    médica.
    O terceiro tipo de controle era o que mais o incomodava. No campo da psiquiatria, bem como
    em outras especialidades médicas, era muito fácil manipular de forma inadequada os resultados
    das pesquisas e propagá-los de forma prejudicial.
    Todo remédio tem efeitos colaterais. Omitir tais efeitos era uma forma perniciosa de divulgar
    uma nova droga. Mas a forma que mais preocupava Marco Polo era a maneira com que os
    materiais gráficos eram produzidos pelas indústrias farmacêuticas e distribuídos entre os médicos
    do globo. Nesses riquíssimos materiais, confeccionados com papéis caríssimos, os efeitos
    positivos das drogas eram super-destacados e os efeitos colaterais colocados no rodapé, às vezes
    quase imperceptíveis.
    Como os médicos trabalham excessivamente para sobreviver, vivem stressados e não têm
    tempo de assimilar o universo de informações transmitido nos congressos e nas revistas
    científicas, acabavam confiando nas sintéticas informações divulgadas nos materiais didácticos
    produzidos pelas indústrias farmacêuticas.
    Baseados nessas informações, alguns médicos prescreviam medicamentos sem necessidade,
    sem uma eficácia adequada ou, então, com efeitos colaterais que comprometiam a saúde dos
    pacientes. Na medicina, os dados são fundamentais; a manipulação deles, ainda que pequena,
    dilacera a ética e maximiza os riscos.
    A poderosa indústria dos medicamentos tornou-se um negócio qualquer, onde o lucro tinha
    um destaque primordial. A vida de milhões de pessoas estava em jogo numa disputa onde o juiz
    nem sempre era imparcial.
    Marco Polo era particularmente preocupado com os grandes laboratórios que sintetizavam
    remédios que actuam no delicado e indecifrável cérebro humano, como os tranquilizantes,
    indutores do sono e antidepressivos. Desde seu estreito contacto com Falcão, começou a
    questionar a pressão e a sedução dessas indústrias para que os médicos prescrevessem seus
    medicamentos.
    Somava-se a essa pressão a permissão de propaganda na média de medicamentos que exigiam
    prescrição médica. Apenas nos EUA e no pequeno e belo país da Nova Zelândia ocorria esta
    permissão. Comerciais de antidepressivos eram divulgados nas TVs por actores profissionais que
    simulavam ser pacientes depressivos, mas que depois de tomar o tal remédio davam um salto
    emocional e faziam um brinde à felicidade.
    As imagens desses comerciais penetravam no inconsciente colectivo da população, gerando a
    crença nos poderes miraculosos dessas drogas, não levando em consideração a necessidade de
    aprender a navegar nas turbulentas águas da emoção, a reavaliar o estilo de vida, a trabalhar
    conflitos psíquicos e a superar decepções.
    Muitos pacientes chegavam diante dos seus psiquiatras ditando os medicamentos que
    gostariam de tomar. O paciente queria controlar o médico, e o clima ficava péssimo. Com a
    recusa dos médicos, os pacientes trocavam de profissional e sempre encontravam algum que
    prescrevesse os remédios de sua preferência.
    Desse modo, a medicina e em particular a psiquiatria, que deveria ser o exercício pleno de um
    espírito livre e de um intelecto consciente, acabaram sendo pressionadas pelo poder do
    marketing. A medicina foi contagiada pelas leis do mercado.
    Além disso, outro problema surgiu no horizonte. O acesso pela Internet das informações
    sobre doenças e tratamentos levou muitos pacientes a serem seus próprios médicos - médicos
    virtuais. A democratização das informações também gerou efeitos colaterais.
    Alguns internautas realizavam seus diagnósticos, faziam suas prescrições e se auto-medicavam.
    Esqueciam-se das particularidades de cada organismo, de cada doença e de cada medicamento,
    análises que somente os verdadeiros médicos foram treinados para fazer.
    O mundo moderno estava em conflito, vivia em franco processo de transformação. Médicos
    virtuais, manipulação de dados dos medicamentos, pressões do mercado, tudo isso gerava uma
    inquietação em Marco Polo. Ele deveria se preocupar apenas em ganhar seu dinheiro cuidar do
    seu futuro, desfrutar das suas férias, como qualquer outro profissional. Entretanto não conseguia
    escapar de sua paixão pela humanidade.
    Alguns dos seus amigos não entendiam esse sentimento pelo ser humano, queriam sentir um
    pouco do que Marco Polo experimentava mas tinham dificuldade. Essa paixão fora iniciada pelas
    histórias que seu pai lhe contava e expandida ao se deparar com os corpos sem história na sala de
    anatomia.
    Depois, ela foi forjada na relação com Falcão e esculpida quando começou a descobrir o
    fascinante universo dos "miseráveis" da sociedade. Portanto, sua paixão pela humanidade não era
    movida por um messianismo. Desde que desenvolvera o princípio da co-responsabilidade
    inevitável não conseguia ser individualista, viver somente para si.
    Para ele, nenhum doente mental tinha menos grandeza do que qualquer celebridade política ou
    artística. Uns são artistas por encenar dramas em Hollywood, outros o são ao produzir seus
    próprios dramas no palco de suas mentes. Achava que a fama era uma estupidez intelectual e
    criticava a propagação de gurus pela média, pois acreditava que todos deveriam construir sua
    própria história. Pensava convictamente que cada ser humano merecia toda a dignidade, mesmo
    os anónimos ou as crianças especiais.
    Por ser exímio observador, analisava alguns paradoxos das sociedades modernas que o
    perturbavam. Para ele, nunca a indústria do lazer - a TV, os videojogos, a Internet, o desporto, a
    música, o cinema - foi tão expandida e, no entanto, o ser humano nunca teve um humor tão triste
    e ansioso. Nunca as pessoas viveram tão adensadas nos escritórios, nos elevadores, nas salas de
    aula, e nunca foram tão solitárias e caladas sobre si mesmas. Nunca o conhecimento se
    multiplicou tanto em sua época, mas nunca se destruiu de tal maneira a formação de pensadores.
    Jamais a tecnologia deu saltos tão grandes e, contraditoriamente, jamais o Homo sapiens
    desenvolveu tantos transtornos psíquicos e teve tanta dificuldade de se tornar autor de sua
    própria história.
    O drama desses paradoxos levou Marco Polo a pensar que, se a ciência não mudasse seu foco e
    vultosas quantias de dinheiro público e privado não fossem gastos em pesquisas que evitassem o
    adoecimento do ser humano, a humanidade implodiria.
    Achava completamente injusto e até um crime social esperar as pessoas desenvolverem
    ansiedade, doenças psicossomáticas, depressão, para depois tratá-las. Considerava que isso feria
    frontalmente seu princípio psicossocial.
    O que mais sufocava a sua alma era este pensamento: "Se as poderosíssimas indústrias
    farmacêuticas dependem da existência de doentes para vender seus produtos, qual o interesse
    que elas têm no desaparecimento deles?"
    No congresso em que Marco Polo e o grupo de formandos em psicologia estavam presentes
    via-se um batalhão de funcionários e profissionais vestidos a carácter, contratados pelos
    laboratórios para abordar os psiquiatras e médicos de outras especialidades. Vários psiquiatras
    seguiam sua consciência e não se deixavam seduzir, mas era uma tarefa árdua escapar a qualquer
    envolvimento.
    Para encantá-los, sorteavam viagens, davam riquíssimos brindes e distribuíam riquíssimos
    folders. Os futuros psicólogos não estavam acostumados com tanto luxo. Eles não sabiam que
    por trás dessa intensa propaganda de medicamentos estavam em jogo biliões de dólares. Os
    congressos de psicologia eram bem humildes, sem alardes e pompa. As ideias sobrepunham a
    estética.
    Havia várias conferências simultâneas no evento. Sentindo-se desconfortável pelos olhares
    tensos dos estudantes, Marco Polo recomendou que eles assistissem no auditório principal à
    palestra de um renomado professor de psiquiatria, um conceituado pesquisador em
    neurociências, o Dr. Paulo Mello. Ele iria discorrer sobre causas e tratamentos da mais insidiosa
    e angustiante doença psíquica.
    Após sua conferência haveria uma mesa-redonda, composta de ilustres psiquiatras, e um
    debate aberto aos participantes. Entre os membros da mesa estava o Dr. Mário Gutenberg,
    director-geral do Hospital Atlântico.
    Anna, ansiosa para saber mais sobre os vales de sua dor, aceitou a sugestão de Marco Polo. Ele
    não sabia, mas fizera uma péssima escolha para os futuros psicólogos. Pois na conferência o
    complexo funcionamento da mente seria tratado como fruto de um computador cerebral O
    intangível ser humano seria confinado dentro dos limites da lógica. As abordagens causariam
    náuseas nos jovens que alimentaram belos sonhos com a psicologia.
    Todavia, Marco Polo estava presente e sua presença, como em muitos lugares que frequentava,
    era um convite para estilhaçar os paradigmas e agitar o ambiente. Um tumulto ocorreu naqueles
    ares.
    110

  7. #187
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    C a p í t u l o 21

    O Dr. Paulo Mello não era apenas um cientista de renome internacional, mas também um
    eloquenteconferencista. Não tinha medo de colocar suas ideias. Durante sua exposição,
    comentou sobre as bases biológicas dos transtornos mentais. Disse que a deficiência de
    neurotransmissores, em especial a serotonina, era a causa fundamental da depressão e de outras
    doenças psíquicas.
    Abordou que os neurotransmissores eram como carteiros do cérebro que transmitem as
    mensagens nas sinapses nervosas, ou seja, no espaço de comunicação entre os neurónios ou
    células cerebrais. A sua deficiência gerava falta de comunicação na rede de neurónios, diminuindo
    as respostas emocionais e causando crises depressivas. O papel dos antidepressivos, disse ele, era
    preservar esses carteiros em doses aceitáveis no metabolismo cerebral.
    A plateia de psiquiatras estava atenta às suas ideias, mas os alunos de psicologia não gostaram.
    Ele não falou nada sobre os conflitos na relação pais-filhos, o stress social, as crises familiares e
    a má-formação do eu como causas das doenças psíquicas.
    Sentiram que estavam em um mundo diferente do que viveram nesses árduos anos de
    formação psicológica. Parecia que o ilustre professor falava de uma outra espécie, um outro ser
    humano que eles não estudaram na faculdade. Perceberam o que já desconfiavam: em algumas
    áreas a psiquiatria estava tão distante da psicologia como o Sol da Terra. Sentiram-se frustrados
    com o convite de Marco Polo.
    Incomodado, Marco Polo fez um gesto com as duas mãos, querendo expressar: "Paciência!
    Acalmem-se, a conferência ainda não terminou." Melhor que tivesse terminado.
    Passados alguns momentos, a decepção foi às alturas. O Dr. Paulo Mello radicalizou seu
    discurso, afirmando:
    - A alma ou psique é química, fruto do metabolismo cerebral Portanto, toda doença psíquica
    provém de um erro químico e, consequentemente, precisa de correcção química para ser
    resolvida, ou seja necessita de medicamentos.
    Os futuros psicólogos viram o mundo desabar sobre suas cabeças. Sentiram-se feridos e
    humilhados. "Se a psique é química e os transtornos psíquicos são erros químicos, que espaço
    sobra para a psicologia? Qual é o papel, nessa situação, das técnicas psicoterapêuticas?"
    pensaram. Alguns tiveram vontade de sair. Não suportavam a afronta.
    Marco Polo nunca tinha assistido a uma conferência do Dr. Paulo, apenas conhecia sua fama.
    Sabia que muitos neuro-cientistas tinham uma visão estritamente biológica e química da psique.
    Também sabia que a portentosa indústria farmacêutica dos psicotrópicos era condescendente
    com esta visão, utilizava-se dela e ajudava a disseminá-la na imprensa leiga mundial: jornais,
    revistas e TV.
    Vários jornalistas, desconhecendo os fundamentos da ciência, noticiavam com segurança que o
    deficitde serotonina e outros neurotransmissores eram causadores de doenças psíquicas, e que
    este deficit precisava ser corrigido através dos medicamentos. Não sabiam que essas informações
    eram apenas suposições e não verdades científicas irrefutáveis. Sem perceber, divulgavam a séria
    e restrita tese de que a psique era química e, sem ter consciência, contribuíam para os ganhos elevadíssimos
    da indústria farmacêutica.
    Marco Polo sentiu que tinha sido o maior ingénuo do mundo ao convidar os estudantes de
    psicologia para esse evento. Eles poderiam sentir-se frágeis para iniciar sua profissão. Sequelas
    inconscientes poderiam ocorrer. Visivelmente preocupado, pediu mais uma vez com gestos que
    eles não saíssem.
    Para arrematar, o renomado conferencista deu o golpe fatal na psicologia. Ele não sabia que
    havia uma plateia de formandos nesta área, pensara que seu público fosse constituído de médicos,
    em especial de psiquiatras.
    - Precisamos de medicamentos cada vez mais eficientes, como os que apresentei em minha
    palestra. Os psicólogos serão substituídos por drogas de última geração. As neuro-ciências
    triunfarão sobre a psicologia. Ninguém pode contrapor-se a seus avanços. O progresso das
    neuro-ciências anuncia um futuro saudável para a humanidade.
    Os alunos quedaram paralisados, incrédulos diante do que ouviram. Eles, bem como a maioria
    dos presentes, não sabiam que por trás desse cenário estava em pauta muito mais do que a
    opinião de um cientista num congresso de psiquiatria. A palestra do Dr. Paulo era o reflexo do
    perigoso caminho que a ciência moderna estava trilhando.
    Nos bastidores da ciência estava em jogo uma disputa intelectual seríssima sobre a natureza
    do Homo sapiens. Muitos dos actores que participavam desse jogo, incluindo cientistas e
    profissionais, por saberem cada vez mais do cada vez menos, ou seja, por serem especialistas em
    suas áreas, não tinham consciência do próprio jogo e muito menos das suas consequências para a
    humanidade. Marco Polo há alguns anos pensava e se preocupava muitíssimo com essas
    consequências.
    O que estava em questão era se a psique humana seria ou não meramente um computador
    biológico, um aparelho químico. Se pensar, produzir ideias, sentir medo, amar, odiar, sonhar,
    ousar, recuar eram ou não apenas frutos do metabolismo cerebral. Se o ser humano possuía ou
    não um espírito, um mundo psicológico que ultrapassava os limites da lógica e das reacções
    bioquímicas. Estava em jogo o eterno debate sobre quem somos e o que somos. Estava em
    pauta a última fronteira da ciência.
    A julgar pela visão da indústria dos psicotrópicos e pelo pensamento de muitos neuro-cientistas,
    esse jogo já estava ganho. Se as neuro-ciências realmente vencessem nessa queda-de-braço, como
    já estava ocorrendo, as consequências para o futuro da humanidade poderiam ser chocantes. A
    psicologia desapareceria, ou pelo menos perderia sua importância. Medicamentos seriam usados
    em massa. Psicotrópicos poderiam ser colocados na água para tratar colectivamente de certas
    doenças psíquicas. Vidas seriam controladas.
    Além disso, se a mente humana fosse meramente um complexo computador biológico, ela
    poderia ser alimentada pelos computadores electrónicos. Os professores desapareceriam, seriam
    substituídos por sofisticados programas mais baratos, e não reclamariam. A Internet se tornaria
    uma babá electrónica, como já estava ocorrendo nos tempos de Marco Polo.
    Os jogos electrónicos, os programas multimédia e os programas de TV poderiam se tornar a fonte
    mais excelente de prazer e formação da personalidade. Não haveria necessidade de contemplar o
    belo, abraçar árvores, cultivar flores, nem extrair alegria das coisas singelas. Marco Polo sentia
    calafrios ao pensar nisso.
    Ele pressentia que a juventude estava entristecendo-se mundialmente. Em sua época, os jovens
    já haviam perdido a capacidade de contestar as loucuras dos adultos, como no período da
    contra-cultura. Não criticavam mais o veneno do capitalismo selvagem, ao contrário, brigavam
    para bebê-lo em doses cada vez maiores. Exploravam seus pais. Eram ávidos consumidores,
    vítimas de uma insatisfação cronica e insaciável.
    Além disso, o triunfo das neuro-ciências poderia anunciar também o triunfo dos
    transumanistas, o grupo cada vez maior de pessoas que enfatizava a melhoria da espécie humana
    através da manipulação genética e do uso da clonagem. Alguns transumanistas congelavam seus
    corpos após a morte para serem revividos no futuro, quando as ciências estivessem mais
    avançadas. Eles sonhavam em acelerar o processo de evolução humana. Neste afã científico, os que
    não aderissem a esse processo evolutivo ou não se encaixassem no seu padrão de qualidade
    poderiam ser excluídos. Os riscos seriam gravíssimos.
    As religiões também desapareceriam caso prevalecesse a ideia de que a alma humana é apenas
    uma fantástica máquina biológica, pois o vazio existencial, as inquietações do espírito, a procura
    pelo Criador e pela transcendência da morte seriam meros desarranjos bioquímicos. Uma vez
    corrigidos esses desarranjos, os conflitos existenciais se dissipariam, pondo um fim na
    religiosidade humana.
    As religiões tentaram durante milénios compreender a natureza intrínseca do ser humano e
    perceberam que ela é indecifrável. Agora chegara a vez da ciência fazer esta fascinante tentativa,
    porém havia um risco no ar. A ciência poderia tornar-se a mais fechada e perigosa das religiões se
    vendesse seus postulados e hipóteses como verdades inquestionáveis.
    Ao analisar todos esses factores, Marco Polo pressentia que o mundo científico estava dentro
    de um imenso Coliseu. Embora houvesse diversas interconexões entre as partes, de um lado se
    encontravam as neuro-ciências, da qual participava a medicina biológica, a farmacologia, a neurologia,
    uma parte da psiquiatria clássica e as ciências da computação. Elas discursavam sobre
    neurotransmissores, sistema límbico, amígdalas, corpo caloso, lobo frontal, enfim estruturas
    anatómicase metabólicas cerebrais como a grandiosa fonte da indecifrável personalidade.
    De outro lado, estavam as ciências humanistas, que incluíam outra parte da psiquiatria, a
    antropologia, a sociologia, o direito, a filosofia e em especial uma parte significativa da
    psicologia.
    Embora não formulassem um pensamento claro sobre a natureza humana, as ciências
    humanistas enxergavam os fenómenos da psique de maneira mais complexa, capaz de ultrapassar
    os limites das leis físico-químicas. Para elas, a solidariedade e a tolerância não poderiam ser
    conquistadas com programas de computador, o espírito humano precisaria ser educado, a
    sabedoria deveria ser lapidada, a sensibilidade necessitaria das experiências existenciais, o papel
    dos mestres seria insubstituível no desenvolvimento das funções mais importantes da
    inteligência, como pensar antes de reagir e se colocar no lugar dos outros.
    Após discursar sobre o domínio das neuro-ciências, o Dr. Paulo Mello encerrou sua
    conferência. Foi ovacionado, alguns o aplaudiram de pé. Em seguida, sentou-se satisfeito com a
    acolhida.
    112


  8. #188
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    Por Defeito Saga de um Pensador

    Havia mais de quinhentos participantes na plateia. Além dos 42 formandos em psicologia,
    estavam presentes professores de psiquiatria de diversas universidades internacionais, psiquiatras
    particulares, neurologistas, farmacologistas e directores de laboratórios farmacêuticos.
    Os estudantes perceberam também a apreensão de Marco Polo diante do pensamento radical
    do conferencista, mas pensavam que ele não podia fazer nada, pois era um "peixe pequeno"
    diante do "tubarão" que se movimentava no palco. Não o conheciam.
    O debate se iniciou. Alguns membros da mesa teceram rápidas considerações e elogios ao
    conferencista. Em seguida, abriram o debate para a plateia participar. Houve um silêncio gélido.
    De repente, Marco Polo levantou-se, saiu do centro do anfiteatro e dirigiu-se apressadamente
    para o microfone que estava no lado direito do palco, a mais ou menos oito metros da mesa.
    Audácia era sua característica principal. Agradeceu rapidamente a oportunidade de falar e sem
    rodeios, partiu para o confronto com o conferencista, olhando-o fixamente.
    - Estimado Dr. Paulo. O senhor sabe o que é a ditadura da hipótese?
    Ninguém entendeu o termo. Este termo não existia na literatura científica. Fora cunhado pela
    habilidade de Marco Polo em sintetizar ideias. Tentando mostrar segurança, o Dr. Paulo
    respondeu:
    - Não, meu jovem, nunca ouvi falar dessa ditadura. Explique-se.
    - Não preciso explicá-la. O senhor acabou de cometê-la em sua conferência.
    A plateia de psiquiatras fez um burburinho. "Será que esse jovem está questionando o ilustre
    conferencista? Não é possível!", murmuravam. Os estudantes também não tinham a menor idéia
    de aonde Marco Polo chegaria, mas começaram a se animar. O Dr. Mário, que estava recostado à
    mesa, colocou as mãos na cabeça, pois sabia que vinham chuvas e trovoadas pela frente.
    Constrangido e irritado, o Dr. Paulo indagou:
    - O que você quer dizer com isso?
    Marco Polo ensinava perguntando. Não transmitia conhecimento pronto. Levava seus
    opositores a pensarem e a tirarem suas próprias conclusões, mesmo num momento em que
    parecia gladiar num Coliseu. Aprendera a técnica com o mestre das ruas. Em vez de responder,
    fez outro questionamento:
    - O que é uma hipótese e qual a distância dela para uma verdade científica?
    O Dr. Paulo começou a ficar preocupado com a ousadia do jovem. Respondeu:
    - Uma hipótese é algo em que se acredita, que se supõe, enquanto uma verdade científica é um
    fato de aceitação unânime pela comunidade científica. A distância entre elas pode ser pequena ou
    grande, dependendo da qualidade da hipótese.
    Então, Marco Polo deu-lhe o primeiro golpe intelectual:
    - A deficiência da serotonina como causadora de doenças psíquicas é uma hipótese ou uma
    verdade científica?
    - Uma hipótese.
    - Parabéns, doutor! Então, o senhor acaba de confirmar que cometeu a ditadura da hipótese,
    pois vendeu para a plateia sua hipótese pelo preço de uma verdade científica.
    Os alunos de psicologia se entre-olharam e o aplaudiram. Perturbado com os aplausos, o
    conferencista retrucou agressivamente:
    - Isso é uma afronta! Apenas expus meu pensamento.
    - Não, doutor. O senhor impôs seu pensamento. Deveria ter dito que a deficiência de
    serotonina era uma hipótese. Além disso, o senhor teve a coragem de sentenciar a psicologia ao
    desaparecimento. O senhor super-valorizou o metabolismo cerebral e a acção de fármacos (remédios)
    e desprezou o complexo mundo emocional e intelectual que nos tornam uma espécie
    inteligente.
    - Rapaz, deixe de argumentos vazios e apresente suas ideias para realizar um verdadeiro debate!
    - rebateu agressivamente o professor, tentando esconder seu erro.
    Marco Polo não se intimidou. Respirava desafios.
    - Diga-me, ilustre professor, é possível entrar na cidade de Nova York de olhos vendados e
    achar a residência de uma pessoa sem saber seu bairro, sua rua, seu número?
    Achando que Marco Polo estava perdido em suas ideias, o Dr. Paulo disse-lhe com ar de
    desdém:
    - Não, a não ser que demore décadas por tentativa e erro.
    - Então, como é que o senhor encontra de olhos vendados e em milésimos de segundos o
    endereço dos verbos e substantivos em sua memória, que é milhares de vezes mais complexa do
    que Nova York, e os insere nas cadeias de pensamento?
    Constrangido, ele falou:
    - Não sei. Mas quem sabe como isso ocorre?
    - Mais duas perguntas, mestre. O senhor sabe como é construída nossa consciência existencial,
    que nos faz perceber que somos seres únicos no palco da vida? O senhor sabe como essa
    consciência reconstrói o passado ou antecipa os fatos sobre o futuro, sendo que o passado é
    irretornável e o futuro é inexistente?
    A plateia ficou perturbada. A mente do Dr. Paulo ficou confusa com as perguntas, mas ele disse
    honestamente:
    - A actual fase da ciência está apenas arranhando os fenómenos que constroem os pensamentos
    e desenvolvem a consciência.
    Subitamente, mudando o assunto, Marco Polo perguntou:
    - Parabéns, mestre! Mais uma pergunta: o senhor acredita em Deus?
    - Essa pergunta é de foro íntimo. Estamos numa arena científica. Não quero falar sobre essas
    bobagens.
    Levantando o tom de voz e abrindo os braços, Marco Polo bradou para a plateia:
    - Deus está aqui, gente! Ele está presente em carne e osso. Apresento-lhes Deus - e apontou as
    duas mãos na direcção do Dr. Paulo, como Falcão fizera com ele.
    - Você está tendo um delírio religioso, um surto psicótico! - disse o conferencista com
    deboche, tentando descontrair o público.
    A plateia riu de Marco Polo.
    - Não é um delírio! Se o senhor desconhece os insondáveis segredos que tecem a inteligência
    humana, se não sabe como pensa e se desenvolve a consciência existencial, mas tem a ousadia de
    afirmar que a psique é o cérebro, que a alma é química, então o senhor é Deus. Pois só Deus é
    capaz de ter tamanha convicção. Milhões de pessoas tentaram descobrir este segredo e desceram
    para seus túmulos com suas dúvidas, mas o senhor conseguiu. O senhor tem de ser Deus.
    A platéia gargalhou, e até os neuro-cientistas presentes se soltaram. Mas o Dr. Paulo tentou
    esquivar-se:
    - Você está me ofendendo.
    - Desculpe-me. Eu aceito que o senhor expresse sua opinião, mas não concordo que o senhor
    imponha seu pensamento. A minha crítica é que muitos profissionais, confiando nas teses de
    ilustres cientistas como o senhor, as tomam como verdades absolutas e, assim, cometem erros
    crassos. Se o senhor e os demais neuro-cientistas expusessem essas teses com status de hipóteses,
    a democracia das idéias poderia ser exercida. Os que lessem ou ouvissem suas ideias poderiam
    criticá-las e filtrá-las.
    A plateia emudeceu. Os futuros psicólogos apertaram as mãos uns dos outros em sinal de
    aprovação. E Marco Polo parafraseou Shakespeare:
    - Há mais mistérios entre o cérebro e a alma humana do que imagina nossa vã ciência!
    A plateia novamente sorriu.
    - Tenho pós-doutorado em psiquiatria e psicofarmacologia. E o senhor, que tese defendeu? -
    perguntou o Dr. Paulo com altivez. Um membro da mesa, querendo ajudar, acrescentou:
    - O Dr. Paulo publicou mais de cinquenta artigos em revistas científicas em todo o mundo.
    O conferencista corrigiu:
    - Não, são cento e cinquenta artigos.
    - Isso, cento e cinquenta artigos. Quantos artigos você já publicou? Quais as suas credenciais
    como cientista?
    Alguns psiquiatras da plateia assobiaram. Pensaram que o jovem colega perderia a voz.
    - Sou Marco Polo, um explorador de mundos - respondeu sem titubear.
    A plateia desta vez deu gargalhadas. Os estudantes aplaudiram.
    - Vamos, rapaz, revele-se.
    Diante da insistência, Marco Polo adicionou:
    - Tenho explorado os desfiladeiros onde surgem as ideias perturbadoras e os arquipélagos onde
    se levantam as defesas emocionais, até mesmo as defesas aqui presentes, mas não defendi ainda
    nenhuma tese nem publiquei nenhum artigo. Reconheço que sou um jovem psiquiatra
    comparado ao seu currículo. Mas reconheço também que a ciência mais lúcida debate as ideias de
    um pensador pelo seu conteúdo e não pelos títulos que o autor apresenta. Creio que os
    verdadeiros cientistas amam o debate e não a submissão.
    A plateia ficou alvoroçada e caiu em aplausos, solidária com Marco Polo. As universidades
    haviam sido seduzidas pelos títulos e pela fama do apresentador. Deixaram de ser um templo de
    debates em busca da isenção de preconceitos, como na Grécia Antiga.
    Os congressos de psiquiatria e mesmo de psicologia eram frequentemente tediosos. Há muito
    tempo os presentes não viam uma discussão tão rica, com tantas implicações científicas. Vários
    professores universitários de psiquiatria vibravam com esse caldeirão de idéias. Faziam anotações
    com ânimo.
    - Está me dizendo que não sou um verdadeiro cientista? O clima aqui está insuportável - disse
    o Dr. Paulo, suando frio e ameaçando deixar a mesa.
    O Dr. Mário não permitiu que o conferencista saísse do palco. Pegou o microfone e
    comentou:
    - Muito interessantes suas ideias, Dr. Marco Polo. Se tem mais alguma coisa para acrescentar,
    por favor, continue.
    O Dr. Paulo suou frio e sentou-se. Não sabia que os dois se conheciam. Marco Polo procurou
    ser mais brando, elogiou o conferencista, buscando abrir as janelas da sua inteligência. Tinha de
    declarar para ele e a plateia as coisas entaladas em sua garganta.
    - Sei que o senhor é um dos mais renomados psiquiatras do mundo. Eu tenho muito a
    aprender com seu ilibado conhecimento.
    O Dr. Paulo sentiu-se lisonjeado.
    - Mas, para mim, a medicação, quando necessária, é o actor coadjuvante, e a psicoterapia é o
    actor principal de um tratamento psíquico.
    - Que ingenuidade! Você ama a poesia e eu, a ciência. Em pleno século XXI você desconhece
    os espectaculares avanços das neuro-ciências? Nunca usou tranquilizantes e antidepressivos nas
    doenças psíquicas? O senhor deve ser um psicólogo para ter esse tipo de pensamento.
    115

  9. #189
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    Por Defeito

    Alguns psiquiatras acharam a piada maldosa.
    - Sou psiquiatra, doutor, e uso com certa frequência esses medicamentos. Sei, embora não completamente, das suas vantagens e dos seus limites. Mas minha tese é de que se não nutrirmos
    o eu dos pacientes, que representa sua capacidade de decidir, para serem os atores principais do
    teatro de suas mentes, não geraremos pessoas livres, capazes de administrar seus pensamentos,
    fazer suas escolhas e construir sua própria história.
    Os futuros psicólogos ficaram excitados com essa abordagem. Anna, numa atitude inusitada,
    se levantou e o aplaudiu. Marco Polo observou-a, admirado. O Dr. Paulo ficou profundamente
    irritado.
    - O senhor está usando uma filosofia barata.
    - Eu respeito sua posição, mas faço questão de defender o que penso.
    Um outro membro da mesa, o Dr. Antony, um psiquiatra de 65 anos, sereno, de voz pausada,
    um ícone no meio académico, estava deliciando-se com o calor do debate. Mostrando-se
    extremamente interessado, perguntou a Marco Polo:
    - Você discorda da hipótese dos neurotransmissores na produção de doenças psíquicas,
    doutor?
    - Dr. Antony, para mim essa tese é pobre se considerada isoladamente. Há outras hipóteses
    tão ou mais importantes, tais como os conflitos na infância, o estresse social, as perdas
    existenciais, as frustrações interpessoais, a incapacidade de libertar a criatividade, de preservar a
    emoção. Todavia, para mim, a verdade é um fim inatingível. O que deve ocorrer é uma
    conjunção das hipóteses das neuro-ciências com as da psicologia.
    - O que é a alma para você, meu jovem? - perguntou o Dr. Antony.
    Marco Polo respirou pausadamente. Teria de entrar num delicado assunto, um assunto que a
    ciência se sentia quase proibida de discutir. Mas não teve medo de expressar seu pensamento.
    Usou a poesia.
    - Quando vejo uma mãe perdoar um filho apesar de ele não merecer, quando vejo alguém
    apostar num amigo quando ninguém mais acredita nele, quando vejo um paciente com câncer
    acreditar na vida apesar de estar morrendo, ou quando contemplo um mendigo dividir seu pão
    apesar de não ter qualquer valor para a sociedade, fico encantado, embevecido. Eu penso comigo.
    "Que mundo maravilhado é a mente humana."
    Nesse momento comoveu-se com as recordações. Mas continuou:
    - Percebo que amar, cantar, tolerar, recuar são reacções que ultrapassam os limites lineares das leis
    físico-químicas do cérebro. Nossa alma é mais do que uma máquina cerebral lógica. Os
    computadores jamais terão tais reações, nunca terão consciência de si mesmos, serão sempre
    escravos de estímulos programados.
    A plateia ficou alvoroçada.
    - Suas ideias chocam a ciência. Se formos mais do que um cérebro organizado, então o que
    somos e quem somos? - perguntou o Dr. Antony.
    - Não sei quem somos, mas posso dizer um pouco sobre o que somos. Para mim, a psique é
    um complexo e indecifrável campo de energia que coabita, coexiste e co-interfere com o cérebro,
    ultrapassando seus limites.
    Agora, a plateia ficou perplexa. Nunca viram um postulado com essa dimensão. O Dr. Antony,
    introspectivo, comentou:
    - Parabéns pelas suas ideias inovadoras. Você tocou na última fronteira da ciência. Se nossa
    espécie comprovar sua tese, ela dará um salto sem precedentes no futuro. No entanto, apesar da
    profundidade desta tese, não há como prová-la. O único argumento de que dispomos é a fé. E a fé
    é uma incerteza científica.
    - Tenho alguns argumentos que podem fundamentar essa tese, mas ainda estão sendo
    elaborados.
    - Estão vendo? Eu disse que suas ideias eram filosofias baratas! - exclamou com entusiasmo o Dr.
    Paulo. O Dr. Antony o corrigiu rapidamente:
    - As ideias do debatedor são de grande alcance, trata-se da tese das teses da ciência. Nossos
    congressos de neuro-ciências têm sido secos, mórbidos, unifocais. Não discutimos os ditames do
    espírito humano. Temos medo de entrar num terreno que não conhecemos, mas que é essencial
    à vida. Temos receio de penetrar na delicada fronteira entre a psiquiatria e a filosofia, entre a ciência
    e a religião. Às vezes, penso que essa fronteira não existe, nós a criamos. Seria muito bom que em
    nossos áridos congressos falássemos mais sobre as emoções, educação, espiritualidade, crises
    existenciais, conflito social, e menos sobre o metabolismo cerebral.
    Vários psiquiatras se levantaram e aplaudiram o Dr. Antony, concordando com o seu
    pensamento. A discussão se encerraria ali se o Dr. Paulo não se mostrasse desrespeitoso com o
    sereno Dr. Antony.
    - Desculpe-me, Dr. Antony, mas estamos no terceiro milénio, e misturar fé com ciência e
    psiquiatria com filosofia é uma ingenuidade científica, um atraso cultural. É retroceder mil anos
    no tempo. O senhor já deixou de produzir ciência. Hoje é apenas um professor aposentado,
    está afastado das grandes pesquisas. As neuro-ciências estão cada vez mais perto de provar que a
    alma é um aparelho químico.
    Para Marco Polo não havia vencedores nesse embate, mas teses distintas, que deveriam ser
    discutidas com respeito para o bem da humanidade, e não para benefícios de grupos. Diante da
    arrogância do Dr. Paulo, ele tomou a frente e elevou o nível do debate. Colocou em pauta alguns
    questionamentos que desde os tempos da sua amizade com Falcão começaram a ser elaborados.
    Poucos entenderam de início seu raciocínio.
    - Dr. Paulo, sabemos que um grupo de pacientes tem novas crises depressivas após a
    interrupção dos antidepressivos, ainda que usados por um bom tempo, como seis meses ou um
    ano. Mas outro grupo, após a interrupção dessas drogas, deixa de ter essas crises. Esta informação
    está correta ou não?
    O professor fez um sinal com as mãos para ele continuar.
    - Pois eu lhe pergunto. Por que, então, o último grupo de pacientes não teve mais crises?
    Sem titubear, o professor imediatamente respondeu:
    - Os pacientes se superaram. Venceram suas dificuldades, reorganizaram seus conflitos,
    aprenderam a enfrentar seus estímulos stressantes.
    - O deficit de serotonina ou erro químico permaneceu nesse grupo de pacientes que teve
    pleno sucesso no tratamento?
    O professor sentiu um nó na garganta, Marco Polo o pegara em seus próprios argumentos.
    Alguns professores de psiquiatria perceberam a armadilha em que o Dr. Paulo caíra. Pensaram:
    "Que argumento fatal" No entanto outros psiquiatras não entenderam aonde Marco Polo queria
    chegar. Um tanto temeroso, o Dr. Paulo respondeu:
    - Sim, provavelmente o deficit continuou.
    - Parabéns, professor! O senhor acabou de questionar o futuro das neuro-ciências. Após a
    suspensão do antidepressivos, o deficit de serotonina continuou, pois o defeito metabólico que
    produz o deficit não foi solucionado pela medicação. Se o defeito continuou, e o paciente não
    teve mais crises, isso indica que superar dificuldades, reorganizar-se, resolver conflitos são
    processos psicológicos, cognitivos, que estão muito além da tese importante, mas simplista da
    serotonina.
    Alguns psiquiatras coçaram suas cabeças. Nunca tinham pensado nesse assunto. O Dr. Antony
    e o Dr. Mário saíram do formalismo e aplaudiram Marco Polo.
    O Dr. Paulo ficou sem saída. Ele sempre fora um exímio pesquisador, mas infelizmente
    deixara-se seduzir pelo dinheiro. Durante a sua conferência, ele havia divulgado um novo
    medicamento antidepressivo, cujo nome comercial era Venthax. Comentou que participara de
    pesquisas clínicas para averiguar sua eficiência e estava muitíssimo animado com os resultados.
    Ninguém sabia, mas o ilustre professor recebera secretamente um milhão de dólares do
    poderoso laboratório que tinha sintetizado a droga para divulgá-la nesse congresso, bem como
    em seus respeitados artigos científicos veiculados nas principais revistas especializadas.
    Na indústria farmacêutica, quando aceita pela comunidade médica, uma única droga é capaz de
    dar lucros altíssimos, mais do que a grande maioria dos produtos do mundo capitalista.
    O Venthax realmente tinha eficiência terapêutica, mas seus importantes efeitos colaterais
    foram minimizados pelo Dr. Paulo. Poderia afectar o fígado, expandir os riscos de enfarto e, em
    alguns pacientes, induzir agressividade e aumentar os riscos de suicídio.
    Na plateia estava presente o director comercial do laboratório desse novo antidepressivo, o Dr.
    Wilson. Ele estava odiando as ideias de Marco Polo. O debate desviou a atenção dos ouvintes da
    nova droga. O Dr. Wilson esperava, a partir desse congresso, alavancar o lançamento
    internacional do Venthax. Ele poderia vender mais de cinco biliões de dólares anuais. Mas
    estava decepcionado com os rumos da conferência.
    Vendo o Dr. Wilson completamente insatisfeito na primeira fileira do evento, o Dr. Paulo
    disse:
    -Vamos encerrar este debate.
    Mas Marco Polo precisava dizer mais algumas coisas:
    - Somos meninos brincando de ciência no teatro da existência. Eu também sou uma pessoa
    orgulhosa, por vezes estúpida, mas estou aprendendo que, nesse teatro, o orgulho é a força dos
    fracos e a humildade, a dos fortes.
    O Dr. Paulo ficou paralisado e a plateia, emudecida. Perceberam que todos são capazes de
    errar nesse delicado campo. Marco Polo não impunha as ideias. Ele as apresentava.
    - Eu não sou orgulhoso. Sou realista! - afirmou o Dr. Paulo.
    - Diga-me, então, professor, a nova droga sobre a qual o senhor discorreu, o Venthax, teve a
    sua eficácia clínica comparada com placebos, que são falsos remédios ou mentiras químicas?
    O Dr. Paulo tremulou a voz. Não queria entrar nesse campo.
    - Claro! Fizemos estudo duplo-cego. Pegamos dois grupos de pacientes deprimidos. Para um
    ministramos a nova droga, e para o outro o placebo. Nenhum dos dois sabia que tipo de
    substância estavam tomando. Mas já falei de tudo isso em minha palestra.
    - Mas não nos forneceu alguns dados. Qual é a percentagem de eficácia de um e de outro?
    - O Venthax teve 62% de eficácia, e o placebo, 46%.
    Os estudantes de psicologia se entre-olharam. Não sabiam que uma mentira química, o placebo,
    tivera uma eficácia não muito distante da droga psicoativa. Nunca discutiram esse fundamental
    assunto na faculdade.

    118

  10. #190
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    Por Defeito Saga de um Pensador

    Diante disso, Marco Polo deu o golpe fatal no absolutismo e arrogância do grande mestre:
    - Por que os placebos tiveram a incrível eficácia de melhorar 46% dos pacientes deprimidos?
    Novamente caindo em si e intuindo aonde Marco Polo queria chegar, Dr. Paulo assinou sua
    matrícula como pequeno aluno na escola da existência. Com um nó na garganta, foi obrigado a
    responder para não passar vergonha maior:
    - Porque eles acreditaram no tratamento, sentiram-se amparados confiaram nos médicos que
    os assistiram.
    - Muito bem, Dr. Paulo, o efeito fabuloso dos placebos é o efeito espectacular da mente
    humana, que tem uma incrível capacidade de sonhar, transcender seu caos, enfrentar suas perdas,
    recolher seus pedaços, reconstruir sua história, reeditar o filme do inconsciente. As drogas
    medicamentosas podem ajudar muito, mas todos esses processos são conquistados pelo diálogo,
    pela intervenção do eu, pelo auto-conhecimento, pela troca, pela interacção social. Portanto,
    obrigado por concluir que a psicologia jamais morrerá!
    Os futuros psicólogos levantaram-se e ovacionaram com euforia seu amigo. Alguns verteram
    lágrimas. A esperança de encontrar tesouro nos escombros dos que sofrem reacendeu.
    Marco Polo olhou fixamente para a plateia e terminou com essas palavras o debate:
    - As indústrias farmacêuticas investem bilhões de dólares em pesquisas de novas drogas que
    actuamno cérebro humano para tratar de doenças psíquicas, mas não investem nada em medidas
    preventivas, em melhorar a educação, desenvolver a arte de pensar das crianças,
    educar a auto-estima, diminuir o stress social e combater a miséria física e psíquica. A sociedade
    precisa saber que na esteira do adoecimento psíquico da humanidade, a indústria farmacêutica
    prepara-se silenciosamente para se tornar a mais poderosa do mundo, mais robusta do que a
    indústria das armas e do petróleo. Essa indústria precisa de uma sociedade doente para continuar
    vendendo seus produtos. Aliás, nunca se venderam tantos tranquilizantes e antidepressivos.
    Precisamos repensar o futuro da ciência e refletir para onde caminha a humanidade.
    Marco Polo olhou para o relógio e calculou que ficaram quase uma hora debatendo. À vista
    disso, completou:
    - De acordo com as estatísticas, durante o curto período em que estamos discutindo nossas
    ideias, mais de mil pessoas em todo o mundo tiveram crises depressivas, ataques de pânico,
    surtos psicóticos e doenças psicossomáticas. Mais de vinte pessoas cometeram suicídios. Pessoas
    maravilhosas desistiram de viver e deixaram um rastro de dor nos membros de suas famílias, que
    se perpetuará por décadas. Estamos construindo uma sociedade de miseráveis. Isso não os
    atormenta, senhores?
    - Sonhador! - foi a última palavra do renomado conferencista.
    Marco Polo, com os olhos húmidos, também disse a última frase:
    - Se deixar de sonhar, morrerei! - Nisso veio-lhe à mente imagens de crianças com depressão e
    com anorexia nervosa de que ele tratava, doenças raras de se ver antigamente. As crianças com
    anorexia estavam caquécticas, em pele e ossos. As lágrimas de Marco Polo ganharam visibilidade.
    O Dr. Mário e o Dr. Antony saíram de suas cadeiras e foram cumprimentá-lo. Vários
    psiquiatras ficaram entusiasmados com o pensamento de Marco Polo. Eles eram profundos e
    afectivos. Concordavam plenamente que a psiquiatria não podia ser estritamente curativa, deveria
    ser redireccionara para a prevenção. Enquanto o jovem psiquiatra percorria o auditório, muitos o
    cumprimentaram.
    Anna o aguardava do lado de fora. Tinha um sentimento dúbio de alegria e angústia. Alegria,
    porque as ideias de Marco Polo arejaram os becos de sua emoção, levando-a a perceber que não
    estava programada para ser depressiva. Angústia, porque suas últimas palavras a levaram a um
    mergulho na sua infância, nos segredos que fizeram dela uma jovem cronicamente triste.
    Ao encontrá-lo, deu-lhe um delicado beijo no rosto. Surpreso, ele não entendeu sua reacção
    nem se esforçou para entendê-la. O psiquiatra debatedor recuou e o ser humano emergiu.
    Desejava apenas sentir aquele momento. Deixou a emoção sobrepor-se à razão.
    Saíram juntos do anfiteatro. Caminharam sem direção. Procuravam um ao outro.
    C a p í t u l o 22
    Anna e Marco Polo encontraram um lugar aprazível para cruzar seus mundos: uma bela,
    espaçosa e florida praça. As folhas bailavam sob a orquestra do vento. Os cabelos de Anna
    moviam-se suavemente e vendavam seus olhos.
    Marco Polo conhecia bem aquele lugar. Nessa praça, repensara sua vida, fizera discursos,
    construíra poesias com Falcão e dera os primeiros passos para ser um pensador. Recordou-se de
    uma árvore que gostava de abraçar.
    Anna, sem meias palavras, surpreendeu-o dizendo:
    - Eu sou depressiva!
    Marco Polo não sabia desse fato.
    - Anna! Você não é depressiva. Você é um ser humano que está passando por uma depressão.
    - Ser humano? Quantas vezes me senti a escória da sociedade!
    Marco Polo ficou impressionado. "Que causas levaram uma pessoa tão bela e, além disso, futura
    psicóloga, a sentir-se tão ínfima?", pensou. Sua doença devastara sua história.
    Sob o clima das palavras que ouvira de Marco Polo no borbulhante debate, Anna completou:
    - Acho que vou parar de tomar meu antidepressivo.
    Serenamente ele lhe disse:
    - Não, Anna. Não deixe de tomar seu remédio até que aprenda a trafegar sem medo no belo e
    turbulento oceano das emoções!
    - Mas eu preciso assumir uma atitude. Suas ideias e sua coragem no debate me deram
    motivação para isso.
    - Óptimo. Tome atitudes, mas saiba que no território da emoção não existem heróis, mas
    pessoas que treinam dia a dia sua força. Lembre-se do que comentei: equipe seu eu para ser a
    actriz principal do seu tratamento, trabalhe as causas que alicerçam seu humor depressivo, confronte
    seus pensamentos perturbadores. Assim, você será directora do roteiro da sua vida.
    Anna ficava fascinada com a linguagem de Marco Polo. Ele conseguia falar de fenómenos
    complexos contando histórias, usando uma inspiração criativa e uma linguagem poética.
    - Eu aprecio suas palavras, mas estou cansada. Minha vida tornou-se um peso insuportável.
    Foram muitos anos de sofrimento.
    - Posso fazer-lhe três perguntas? - disse Marco Polo, que já reflectira sobre alguns dos
    comportamentos de Anna.
    - Fique à vontade - ela concordou delicadamente.
    - Você é hipersensível? Quando alguém a ofende, você se machuca muito, estraga seu humor
    naquele dia?
    Admirada com a pergunta, ela respondeu:
    - Não apenas o dia. Uma crítica ou uma rejeição perturbam-me durante uma semana e, às
    vezes, o mês ou o ano inteiro. Sou muito sensível.
    - Você é hiperpreocupada com a opinião dos outros, com o que eles pensam e falam a seu
    respeito?
    - Sim. Tenho medo de não ser aceita. Minha auto-estima é péssima. Qualquer rejeição, ainda
    que com um olhar, me fere. Mas como você sabe disso?
    - Você é hiperpensante, sua mente é muito agitada, não pára de pensar? Sofre por problemas
    que ainda não aconteceram ou rumina frequentes situações angustiantes do passado?
    Impressionada com o senso de observação de Marco Polo, ela respirou e respondeu:
    - Não paro de pensar um minuto, minha mente é inquieta. Sofro muito por antecipação. Sofro
    pelas provas, pelo imprevisível, pelos erros do passado, pelos erros que ainda não cometi. O
    passado me perturba e o amanhã me atormenta. - Seus olhos estavam marejados de lágrimas.
    - Anna, você tem a síndrome tri-hiper.
    - Tri o quê? Nunca ouvi falar dessa síndrome na faculdade.
    - Tive a felicidade de descobrir essa síndrome e a infelicidade de saber que ela atinge milhões
    de pessoas e está na base da maioria dos transtornos emocionais. Analisando inúmeros pacientes,
    observei que muitos têm três importantíssimas características de personalidade que neles estão
    desenvolvidas exageradamente, daí o nome tri-hiper. Quem é hipersensível, hiperpreocupado
    com a imagem social e hiperpensante tem mais propensão para desenvolver depressão, síndrome
    do pânico doenças psicossomáticas. Mas há duas boas notícias: a primeira é que essa síndrome
    pode ser resolvida, a segunda é que ela atinge as melhores pessoas da sociedade, as que são
    emocionalmente ricas e excessivamente doadoras.
    - Emocionalmente ricas e excessivamente doadoras, como assim? -indagou Anna espantada. -
    Eu sempre estudei em meus livros que as pessoas deprimidas eram problemáticas e você me diz
    que elas possuem uma personalidade rica!...
    - É o que penso. Pelo fato de essas três nobres características estarem super-desenvolvidas
    gera-se uma enorme desprotecção emocional. Por isso elas se ofendem facilmente, exigem muito
    de si e gravitam em torno de fatos que não ocorreram.
    Anna ficou extasiada. Desde sua infância frequentava consultórios de psiquiatria e psicologia,
    mas pela primeira vez sentiu orgulho de si mesma. Ela era muito sensível, incapaz de matar um
    inseto. Doava-se para todo mundo, vivia a dor dos outros. Os empregados de sua casa eram
    apaixonados por ela. Entendeu que não era uma pessoa frágil, inferior, desprezível, mas um ser
    humano de valor que não sabia defender-se. Por ser muito inteligente, ela mesma concluiu:
    - Por isso, essas pessoas não se adaptam ao mundo social, competitivo, inumano, insensível.
    Elas possuem um tesouro aberto, que a agressividade das pessoas e os problemas da vida podem
    facilmente assaltar.
    122

  11. #191
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    Marco Polo admirou sua refinada capacidade analítica.
    - Parabéns, Anna! As pessoas que têm a síndrome tri-hiper são ótimas para os outros, mas carrascos de si mesmas. São éticas, singelas, afetivas, mas não têm pele emocional. Excetuando os casos em que alguém nos fere fisicamente, qualquer ofensa, crítica, rejeição ou decepção só pode nos ferir se permitirmos. Como disse em sua classe: doe-se, mas não espere muito o retorno dos outros. Em seguida, Marco Polo começou a explicar que não é necessário que os três pilares dessa síndrome estejam presentes para as pessoas desenvolverem transtornos emocionais. Em alguns casos, basta um pilar. Comentou que a prevenção dessa síndrome, realizada pela educação da emoção, poderia evitar que milhões de pessoas adoecessem. Fitando os dóceis e húmidos olhos de Anna, acrescentou:
    - Não se sinta discriminada nem inferior a ninguém. Você é melhor do que eu em muitos
    aspectos.
    Anna ficou comovida. Sempre se sentira pequena diante das pessoas e, principalmente, dos psiquiatras que a trataram. Em alguns momentos, pensava em desistir da sua profissão, em outros, da própria vida.
    A poesia era uma das poucas coisas que a entusiasmavam. Tentando disfarçar suas lágrimas, indagou:
    - Você leu Goethe?
    - Admiro a inteligência e sensibilidade argutas dele. - E completou, brincando: - Mas ele foi o
    filho preferido da sua mãe.
    - Como assim?- perguntou Anna.
    - Segundo Freud, o brilhantismo intelectual de Goethe começou pela mãe dele. Freud disse
    que os filhos que foram preferidos e valorizados por suas mães se tornam mais optimistas, vencedores, enfrentam com mais coragem os acidentes da vida.
    Marco Polo não percebeu que essas palavras feriram as entranhas de Anna. A relação com sua mãe fora pautada pela dor. Percebendo algo estranho no ar, ele tentou consertar.
    - Mas não concordo com Freud. Ele também foi o preferido de Amalie, sua mãe, mas,
    embora fosse um pensador inteligente, seu humor não foi irrigado com optimismo. Por isso, vivia atormentado com a idéia de morrer antes de Amalie. Minha opinião é que as mães amam todos os seus filhos e não preferem um ao outro, apenas distribuem sua atenção de maneira diferente, por serem diferentes suas preocupações com cada um deles.
    Anna não suportou. Verteu lágrimas. Tentou esconder a face sentando no banco.
    Marco Polo estava confuso. Percebeu que havia algo grave na relação de Anna com a mãe. Não
    queria invadir sua intimidade. Apenas colocou suavemente seu braço direito nos ombros dela e respeitou sua angústia.
    Era um entardecer. Os raios solares penetravam no tecido das flores e revelavam a bela primavera. O ambiente externo contrastava com o mundo de Anna. Depois de alguns momentos de silêncio, ele disse:
    - Desculpe se a feri.
    Ela levantou-se e falou subitamente:
    - Preciso ir.
    Na realidade, ela hesitava entre o afastamento e o desejo de ficar próxima dele.
    - Podemos nos ver amanhã? - perguntou Marco Polo inseguro.
    - Acho que não.
    - Por que não?
    Bloqueando temporariamente as palavras de Marco Polo que a encorajaram a resgatar sua auto-estima e lutar contra a doença, ela voltou-se para o epicentro do seu conflito e disse:
    - Você não vai gostar de me conhecer. Eu sou uma pessoa muito difícil. Nem eu me entendo.
    - Somos iguais! Eu também não me entendo algumas vezes - falou ele com um sorriso.
    Então, numa das raríssimas oportunidades, ela abriu o mapa da sua dramática história e, sob
    solavancos de soluços, bradou em voz relativamente alta:
    - Roubaram minha alegria! Destruíram minha infância sem me pedir licença. Você não
    consegue perceber que sou uma fonte de tristeza? O que você espera de mim?
    O resgate súbito do passado gerou um volume de tensão que obstruiu o fluxo das ideias de Anna.
    Marco Polo mergulhou no silêncio. Esperou que ela se refizesse e continuasse.
    - Eu era filha única e pensava que minha mãe me amava e me valorizava mais do que tudo na
    vida. Mas quando eu tinha oito anos, escutei um som que jamais saiu da minha cabeça. Ouvi o
    estampido de um revólver no quarto dela. Corri para o local e vi a imagem de minha mãe coberta de sangue em cima da cama. Tentei socorrê-la, pegá-la, mas eu era muito pequena. Apenas
    gritava: "Mamãe! Mamãe! Não me deixe!..." Ela morreu fisicamente e eu, emocionalmente.
    Ambas falecemos.
    Raramente alguém sofreu tanto como a pequena Anna. Antonieta, sua mãe, tinha graves crises depressivas, mas, apesar das crises, procurava dar à filha o máximo de atenção e carinho que conseguia. No período entre as crises, brincava com Anna e dizia que ela era a melhor filha do
    mundo. Entretanto, as crises aumentaram e a mãe hipersensível tinha períodos de afastamento.
    Antonieta dizia algumas vezes para os empregados e na frente da pequena Anna que não suportava mais viver. Anna chorava e vivia atormentada.
    Seu pai, Lúcio Fernández, era um rico industrial. Ele nunca compreendeu e apoiou sua esposa.
    O casal tinha frequentes atritos, às vezes na presença de Anna. Lúcio entendia muito de
    matemática financeira e absolutamente nada da aritmética da emoção.
    Diferente de Anna e Antonieta, que eram hipersensíveis, Lúcio era um homem frio, calculista, colérico, que não sabia colocar-se no lugar dos outros. Não amadurecia à medida que seus
    cabelos embranqueciam. Repetia os mesmos erros sempre. Era incapaz de enxergar a angústia de sua esposa. Para ele, a depressão era frescura, uma atitude de quem não tem o que fazer.
    Tinha aversão a psiquiatras. Considerava-os os maiores charlatães da sociedade. Na realidade,
    tinha medo de enxergar o próprio ser. Apenas uma vez entrou num consultório de psiquiatria
    acompanhado de sua esposa. Saiu chamando o psiquiatra de louco.
    Lúcio Fernández era um homem de muitas mulheres. Sua infidelidade, aliada à sua postura agressiva e autocentrada, contribuiu para irrigar a baixa auto-estima de sua esposa e aguçar sua depressão. Não se casou após a morte de Antonieta. O milionário tinha medo de dividir seu dinheiro.
    Anna nutria profunda mágoa por seu pai, não apenas pela sua falta de afecto, mas porque, à
    medida que foi crescendo, começou a entender que ele fizera muito pouco para prevenir o
    suicídio de sua mãe. Um pensamento perturbador sufocava-a: de que seu pai facilitara o suicídio.
    Antonieta tinha se matado com uma arma que estava no criado-mudo ao lado da cama do casal.
    No fundo, Anna sabia que seu pai mantinha uma arma no criado-mudo e outra no carro porque era desconfiado e inseguro. Tinha uma personalidade paranóica.
    - Certa vez, disse ao meu pai que mamãe falava em morrer. Com um ar prepotente, ele
    afirmou categoricamente que eu podia ficar tranquila, pois quem ameaça não faz. Era incapaz de ouvir os clamores de minha mãe por trás do seu humor triste.
    Marco Polo, através da sua fina capacidade de enxergar o que a imagem não mostra e ouvir
    aquilo que os comportamentos visíveis não revelam, fez uma pergunta que levou Anna a penetrar no centro do seu caos emocional.
    - Você tem raiva da sua mãe?
    Anna sentia mágoa do pai, mas a mágoa que nutria por sua mãe era muito maior. No entanto, ela negava este sentimento. A mágoa se alojava clandestinamente nos porões do seu inconsciente e nunca fora superada nas seções de psicoterapia. Seus terapeutas não detectavam este dramático sentimento, seja pela resistência de Anna em falar sobre o suicídio da mãe, seja porque tinham receio de entrar nesse árido terreno e não conseguir controlar sua crise. Afinal de contas, Anna falava em dormir e não acordar mais, em desistir de tudo.
    Além da mágoa oculta pela mãe, ela sentia-se envolvida por uma névoa de culpa. Sua mãe
    sinalizara que estava querendo morrer e ela sentia que não conseguira protegê-la. Nada é tão asfixiante para a emoção de uma frágil criança quanto sentir-se culpada pelos actos dos seus pais.
    Esses conflitos pautaram o desenvolvimento da sua personalidade. Anna tornou-se insegura,
    frágil, com humor cronicamente triste, com medo de enfrentar a vida e assumir seus próprios sentimentos. Era auto-punitiva, tolerava os erros dos outros, mas era implacável com os próprios erros.
    Ela sempre demonstrara compaixão por sua mãe diante dos outros terapeutas. Pela primeira
    vez teve coragem de dizer que sentia raiva dela, e não dó. Na realidade, seus sentimentos se mesclavam.
    - Sim. Às vezes tenho raiva dela. Por que me abandonou? O amor que ela sentia por mim era menor do que o desejo de desistir da vida. Eu fiquei só. Perdi tudo. Perdi o prazer de viver -
    falou inconformada. E acrescentou: - Você não disse em seu debate que os que se suicidam
    deixam um rastro de dor que se perpetua por décadas? Eu sou um exemplo vivo dos
    seus argumentos. Para mim, quem se mata é um grande egoísta. Termina seu problema e começa o dos outros. Você já sentiu tal solidão?
    As lágrimas continuavam a ser vertidas. Anna perdera o que mais amava, não sobraram
    pedaços da sua perda. Não tinha o que recolher. Marco Polo ficou profundamente sensibilizado com sua história. Na infância, ela deveria ter corrido atrás dos pássaros, brincado com suas
    bonecas, transitado sem medo pelas vielas da existência, mas o som do projétil e a imagem da mãe inerte numa cama eram uma peça vil que se repetia sem cessar no palco da sua mente, contagiando toda a estrutura do seu inconsciente.
    Marco Polo sabia que em alguns casos o desenvolvimento da síndrome tri-hiper tinha uma influência genética. Acreditava que pais deprimidos não transmitem geneticamente a depressão para seus filhos. Na realidade, o que transmitem é uma tendência para desenvolver a síndrome tri-hiper, que em alguns casos, se não for corrigida pela educação e pela actuação do eu como autor da própria história, pode facilitar o aparecimento da depressão e de outras doenças.
    Ele acreditava que as causas sociais e psíquicas, como perdas e frustrações, eram muito mais
    importantes no desenvolvimento dessa síndrome do que a genética, e nem sempre precisavam ser intensas. No caso de Anna as causas foram marcantes. Um vendaval destruíra a fase mais importante da sua vida.


  12. #192
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    A partir do suicídio da mãe, ela nunca mais acreditou que as pessoas poderiam amá-la
    verdadeiramente, e por isso tinha enorme dificuldade de se entregar. O medo da perda era um
    fantasma sempre presente. Sentia-se a pessoa mais solitária do mundo. Marco Polo reagiu à sua
    indagação:
    - Nunca senti a solidão por que você passou, mas de uma coisa estou convicto: quando o
    mundo nos abandona, a solidão é suportável, mas quando nós mesmos nos abandonamos, a
    solidão é intolerável. Você se abandonou.
    Anna ficou abalada com essa frase. Esperava que Marco Polo tivesse compaixão dela, que
    ficasse paralisado diante da sua miséria emocional. Embora estivesse profundamente condoído
    por sua dor, ele instigou a inteligência dela, levando-a a concluir que realmente havia se
    abandonado. Deixara de se amar. Sua solidão tornara-se insuportável. Todavia, ela levantou uma
    barreira, como se não conseguisse superar o seu passado:
    - Como apostar na vida e amá-la, se quem me gerou suicidou-se?
    Então chegou o momento para Marco Polo ajudar Anna mais profundamente. O seu conceito
    de suicídio confrontava com o pensamento corrente na psiquiatria e na psicologia.
    Ele levantou suavemente o rosto da moça, penetrou em seus olhos e falou solenemente:
    - Anna, não existe suicídio!...
    Perplexa, ela imediatamente argumentou:
    - O que você me está dizendo? Durante anos, procurei entender por que minha mãe morreu e
    por que as pessoas desistem de viver. E agora você me diz que não existe suicídio! Não brinque
    com meus sentimentos.
    - Estou falando sério. As pessoas deprimidas têm fome e sede de viver - ele afirmou
    contundentemente.
    Então, ela tocou num assunto que era um tabu:
    - Não diga isso. Eu também já tentei tirar minha vida uma vez. Tomei cartelas de
    medicamentos. O que eu fiz? Não quis me matar? - falou, abalada.
    - Não! Você quis matar a sua dor, e não a sua vida. Do mesmo modo, sua mãe não quis
    morrer. Na realidade, seu desejo era destruir o humor triste, a angústia que a sufocava.
    - Nenhum psiquiatra jamais me disse isso! - Anna exclamou.
    - O conceito de suicídio precisa ser corrigido na psiquiatria e na
    sociedade em geral. A consciência do fim da existência é sempre uma
    manifestação da própria existência. Toda ideia de morte é uma homenagem à vida, pois só a vida
    pensa. A ideia de morte não é a atitude omnipotente do ser humano traçando seu destino, mas uma
    atitude desesperada de tentar destruir o drama emocional que ele não conseguiu superar. Assim,
    não existe a ideia pura de suicídio. Toda vez que uma pessoa pensa em se matar, ela não leva em
    consideração a consciência do nada existencial. Seu pensamento é uma reacção, não para eliminar
    sua vida, mas para decepar sua dor. A tentativa de suicídio, portanto, revela não o desejo de
    morrer, mas uma fome desesperada de viver.
    Anna não entendeu plenamente a dimensão psicológica das ideias de Marco Polo, mas o
    pouco que entendeu foi o suficiente para chocá-la, aliviá-la e fazê-la dar um mergulho interior.
    Novamente sua inteligência se manifestou:
    - Quando pensei em tirar minha vida, um sentimento estrangulava meu ser. Sentia-me num
    cubículo sem ar. Uma ideia tentadora passava em minha mente, mostrando que era tão fácil
    acabar com tudo aquilo. Mas, na realidade, eu lutava dentro de mim para romper as algemas
    dessa prisão. Queria ser livre, respirar, amar, não queria morrer.
    Após essa conclusão, Anna mergulhou mais profundamente nos recônditos do seu ser e abriu
    as comportas do seu remoto passado. Como se saísse de um ambiente escuro e entrasse numa
    sala completamente iluminada, recordou imagens que há anos estavam escondidas em suas
    ruínas.
    Lembrou de momentos agradáveis em que sua mãe escondia-se atrás dos sofás e das cortinas,
    brincando de esconde-esconde. Recordou quando sua mãe tocava piano e ela ficava aos seus pés,
    encantada. Lembrou-se de que, por influência da mãe, aprendera a gostar de poesia, e que a
    primeira vez que ouvira falar de Goethe foi da boca da própria mãe. Recordou-se ainda de uma
    frase que nunca mais havia resgatado: "Filha, eu te amo, nunca te abandonarei."
    Pela primeira vez, percebeu que sua mãe não fora egoísta, e sim uma prisioneira da própria
    dor. Ela não quisera se matar, mas eliminar sua miséria emocional. A raiva que sentia pela mãe
    dela se dissipou. O sentimento de abandono ruiu naquele momento. Resgatou o amor que a mãe
    sentia por ela. Então algo sublime aconteceu.
    Anna, aos prantos, exclamou:
    - Mãe, eu te compreendo e perdoo... Mãe, eu te amo! Você foi maravilhosa.
    Em seguida expressou:
    - Obrigada, Marco Polo! Um peso saiu da minha alma.
    Ela o abraçou suave e profundamente. Apertava-o em seus braços. Em seguida, num lance de
    serenidade, comentou:
    - Se as pessoas que pensam em suicídio soubessem o quanto têm fome e sede de viver, não se
    matariam. Mas usariam essa fome e essa sede para combater tenazmente suas perdas, decepções e
    angústias. A ideia de suicídio revela uma fome desesperada de viver e não um desejo de morrer.
    Estas palavras têm de ser gritadas e sublinhadas no mundo inteiro.
    - O pior cárcere do mundo é o cárcere da emoção, mas ninguém é escravo quando resolve ser
    livre. Por enxergar o suicídio por este ângulo, vários de meus pacientes saíram deste cárcere,
    extraíram coragem das suas fragilidades e voltaram a acreditar na vida.
    Raramente duas pessoas falaram de um ponto que estrangula a tranquilidade com tanta
    suavidade. Como o clima estava leve e agradável, Marco Polo resolveu mostrar uma outra face da
    sua personalidade, a face irreverente. Elevando o tom de voz, expressou:
    - Não tenha medo da dor, minha princesa, viva a vida com vibração.
    - Eu sou muito complicada - ela disse descontraída.
    - As mulheres mais complicadas são mais interessantes - ele falou brincando.
    Ela desmanchou-lhe os cabelos e fez-lhe cócegas. Sorrindo, ele emendou:
    - Cuidado! Você é que corre risco ao meu lado.
    - Como assim? - Anna perguntou, surpresa.
    - Tenho sangue de aventureiro, a irreverência de um filósofo e o desprendimento de um
    poeta. Lembre-se: sou Marco Polo, um andarilho nos solos da vida. Sou explorador de mundos e,
    agora, do seu belo mundo.
    - Não estou entendendo!
    Em vez de lhe dar resposta, Marco Polo subiu no banco da praça sem se importar com os
    passantes apressados, declamou uma poesia de braços abertos com uma voz vibrante.
    Rememorou os bons tempos.
    Minha doce donzela!
    Enfrente a tempestade nocturna, como os pássaros.
    Ao amanhecer, mesmo com seus ninhos derrubados,
    Eles cantam sem palco e plateia!
    Para eles, a vida é uma grande festa!
    Minha querida princesa! Não tenha medo da vida,
    Tenha medo de não viver; Não tenha medo de cair,
    Tenha medo de não caminhar. Rasgue seu coração,
    entregue-se, deixe este aventureiro descobri-la!
    Uma pequena multidão parou para ouvir o poeta. Anna ficou vermelha, pois sempre evitara
    qualquer exposição diante dos olhos dos outros. Ao terminar a poesia, Marco Polo desceu e deu-lhe
    um beijo prolongado. Ela, trémula, se entregou. Após beijá-la, várias pessoas aplaudiram.
    Algumas senhoras idosas ficaram eufóricas diante da cena romântica. Uma delas, de mais de
    oitenta anos, clamou com ternura:
    - Agarre este príncipe, minha filha. Está faltando homem no mercado!
    Ela entendeu o recado e desta vez ela mesma tomou a iniciativa. Beijou-o ardentemente.

    128

  13. #193
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    C a p í t u l o 23

    Na semana que se seguiu, Anna encontrou-se mais duas vezes com Marco Polo. Seu amor por
    ele crescia. Dias depois, ela participou de um seminário sobre síndrome do pânico na universidade.
    Não conhecia a grande maioria dos participantes desse seminário.
    Um professor fez uma abordagem de que ela não gostou. Comentou que os portadores da
    síndrome do pânico são emocionalmente frágeis, não têm autocontrole, desconfiam da opinião
    dos seus médicos, giram na órbita da própria insegurança. Por serem frágeis, sob um ataque de
    pânico, o mundo desaba sobre eles.
    O contacto com Marco Polo fez com que Anna tivesse uma percepção mais profunda dos
    transtornos psíquicos. Não concordava com a visão pessimista e determinista do professor. Ele
    fora incapaz de exaltar as belas características desses pacientes e de mostrar o drama emocional
    que eles vivem durante a crise.
    Diante disso, teve a coragem de levantar a mão e questioná-lo. Os poucos amigos que a
    conheciam admiraram sua ousadia. Nunca a tinham visto manifestar-se em classe.
    - Será que esses pacientes não são hiper-sensíveis e, por possuírem uma consciência acima da
    média das limitações da vida e do fim da existência, não ficam propensos aos ataques de pânico?
    Quando esses pacientes desconfiam dos médicos que afirmam que sua saúde está óptima, isto é
    um sinal de fragilidade ou um grito desesperado de alguém que tem sede de viver e quer espantar
    o fantasma da morte?
    Após esse questionamento, Anna ficou aliviada. Queria ao menos ser respeitada em seus
    argumentos. Seu pensamento deixou os presentes reflexivos, mas o professor não suportou ser
    contrariado. Em vez de debater seus argumentos, preferiu sair pela tangente. Foi irónico.
    - Você está aqui para estudar psicologia e não filosofia.
    A plateia divertiu-se. Marco Polo sabia defender-se quando criticado e ironizado. A chacota
    dos outros aguçava seu raciocínio. Anna ainda não tinha tal defesa, não havia reeditado o filme
    do seu inconsciente, ainda era uma pessoa hipersensível e hiper-preocupada com sua imagem
    social. Sempre fizera um esforço enorme para não errar diante de uma pessoa, que dirá diante de
    um público. Agora, na primeira vez em que se manifestava diante de uma plateia, tinha sido
    humilhada.
    Todos esperavam que ela reagisse diante do deboche do professor. Mas sua voz ficou
    embargada, não conseguiu contra-argumentar. Chocada, paralisou-se. As risadas dos presentes
    reverberaram em sua mente. Levantou-se e saiu da classe. O clima ficou ruim. Saiu como uma
    derrotada.
    No outro dia, como era de esperar, não foi à escola. Não saiu de casa e nem da cama. Punia-se
    muito. Não conseguia parar de pensar no vexame público. Relembrava continuamente as cenas,
    teve raiva do professor e mais raiva ainda de si mesma por não ter conseguido reagir. Entregou-se
    a uma nova crise.
    Marco Polo foi procurá-la na faculdade, mas não a encontrou. Ela ficou ausente por vários
    dias. Tentava telefonar, mas Anna estava incomunicável, não queria falar com ninguém. Os
    empregados, por conhecerem suas crises, tinham ordens do seu pai para não importuná-la.
    Marco Polo estava intrigado: "O que está acontecendo? Por que se recusa a falar comigo? Será
    que devo desaparecer de sua vida?"
    Nesse ínterim, escreveu uma carta para Falcão. Contou sobre seu relacionamento com Anna e
    as suas dificuldades.
    Falcão enviou uma carta com pouquíssimas e significativas palavras:
    Querido amigo Marco Polo,
    Se você está amando uma mulher, lute por ela. Mas saiba que as mulheres são
    maravilhosamente incompreensíveis. O dia em que você compreender uma alma
    feminina, desconfie do seu sexo...
    Ao ler a missiva, ele meneou a cabeça com alegria.
    No dia seguinte, Marco Polo reuniu coragem para visitar Anna. Ao chegar na casa dela, ficou
    assombrado com o palacete de três mil metros quadrados de construção colonial. Ela era tão
    simples, meiga despojada. Não imaginava que fosse tão rica. Havia dez suites, salão de festas,
    cinema e inúmeras outras dependências. O palacete ocupava um quarteirão inteiro.
    Os portões eram altos, de ferro fundido, com grades torneadas e lanças espetadas, as janelas
    todas em arco, com vidros verdes jateados. O jardim era imenso. Havia muitas flores para
    esconder uma jovem tão triste.
    Duas arrumadeiras, duas cozinheiras, dois jardineiros e uma faxineira cuidavam da casa, e dois
    motoristas serviam Anna e seu pai. Havia seguranças dentro e fora da casa. A maioria das amigas
    de Anna não sabia, mas a segurança da moça era garantida por um profissional disfarçado nas
    dependências da faculdade.
    Após contratar um segurança, o mordomo, Carlos, foi accionado. Alto, calvo e trajando sempre
    um paletó branco, Carlos comandava a equipe. Seu olhar era sisudo, distante e desconfiado. O
    mordomo parecia um icebergue, duro, frio, impenetrável.
    - Gostaria de falar com a Anna.
    Da escadaria do palacete, Carlos gritou:
    - O senhor tem hora marcada?
    - Não, mas sou amigo dela.
    - Anna só recebe pessoas com hora marcada.
    - Por favor, fale com ela. Provavelmente ela me receberá.
    Relutante, o mordomo saiu. Anunciou a visita ao senhor Lúcio Fernández.
    O pai, que não respeitava as mulheres e considerava todo homem um aproveitador de sua
    filha, mandou dizer que ela tinha saído. Marco Polo desconfiou que o mordomo estava
    mentindo, que sequer a avisara.
    - Senhor, diga-lhe que minha conversa será rápida, falarei apenas alguns minutos.
    - Retire-se, senhor!
    Percebendo a insistência do jovem pela janela, Lúcio abriu a porta central, aproximou-se de
    Carlos e de lá exclamou:
    - Deixe minha filha em paz!
    - Desculpe-me, senhor, mas talvez sua filha precise de mim.
    - Que arrogância! Quem é o senhor para fazer tal afirmação?
    - Sou um amigo.
    - Anna tem colegas e não amigos.
    - Mas eu insisto, sou seu amigo.
    - Qual é seu nome?
    - Marco Polo.
    - Qual sua profissão?
    Marco Polo hesitou em dizer, mas foi honesto:
    - Sou psiquiatra.
    - Psiquiatra!? Era só o que me faltava. Um psiquiatra tentando seduzir minha filha. Ninguém
    o chamou aqui.
    - Estou aqui como amigo e não como psiquiatra - disse Marco Polo irritado.
    - O senhor está sendo anti-ético. Retire-se!
    - A sua filha está num casulo. Precisa tornar-se sociável, libertar-se, ser feliz.
    O prepotente empresário não gostou.
    - Um mísero doutorzinho querendo me dar lição de moral. Saia da minha casa, senão vou
    chamar a polícia! - disse taxativamente o empresário, e entrou sem se despedir.
    - E não apareça mais aqui! - completou o coronel Carlos. Dois seguranças se aproximaram
    ameaçando Marco Polo.
    Parecia que todo mundo ali, à excepção de Anna, vivia num exército.
    O jovem foi embora chateado. Começou a pensar que Anna até que era saudável, vivendo
    num quartel daqueles. Era quase impossível não ser doente naquele ambiente. Começou também
    a ponderar se valia a pena investir nesse romance.
    Ele já tivera outras namoradas. A última era extremamente controladora, ciumenta. Não
    conseguia respirar sem que ela notasse. Anna, ao contrário, vivia alienada, trocava-o por seus
    conflitos. Marco Polo viveu o velho dilema da existência: sua razão pedia para ele se afastar, sua
    emoção pedia para ele aproximar. Antes de desistir, precisava vê-la pela última vez.
    No outro dia voltou à casa de Anna, certificando-se antes por telefone se o pai dela estava
    ausente. Além disso, precisava vencer o coronel Carlos. Lembrou-se do passado. Usou um
    disfarce, não tão ridículo como nos tempos de Falcão, mas não menos bizarro. Cabelos
    espetados, cavanhaque preto, óculos escuros. Parecia um roqueiro amalucado. Carlos apareceu
    após a insistência do segurança.
    Antes que ele abrisse a boca, Marco Polo falou com uma voz aguda e alta:
    - Carlos, como está?
    - Como o senhor sabe meu nome?
    - Como sei? Lúcio me disse. Creio que você me conhece - gritou.
    - Não, senhor! - falou inseguro o mordomo diante da potência da voz do estranho.
    - Nunca viu esta bela imagem nos jornais?
    - Não.
    - Que absurdo! Os mordomos não lêem mais jornais. Chame urgente o Lúcio.
    - O Dr. Lúcio não está, senhor.
    - O quê? Não está? Já não se fazem pais como antigamente. Vamos, preciso fazer a consulta
    urgente.
    - Que consulta, senhor?
    - Consulta da sua filha! Lúcio suplicou que eu viesse aqui. Sou um especialista em transtornos
    intestinais.
    131

  14. #194
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    - Desculpe-me, mas ele não me avisou.
    - E precisa avisar! O grande Lúcio não manda mais nesta casa! Se não abrir essa porta agora,
    vou embora. E se sua filha piorar, o senhor será o responsável.
    Carlos ficou inseguro e Marco Polo emendou:
    - Aliás, o senhor está muito pálido. Olhe só essas manchas no seu rosto. Deixe-me ver de
    perto.
    Apesar de autoritário, Carlos era um hipocondríaco, vivia com mania de doenças. Ficou
    vermelho. Passou a mão no rosto, a cabeça calva começou a suar.
    - O caso parece grave. O senhor deve estar fazendo um sério tratamento, não?
    - Não, senhor, não estou em tratamento. Mas o que o senhor acha que eu tenho? - perguntou
    o mordomo timidamente.
    Marco Polo tirou o estetoscópio, colocou-o sobre a barriga de Carlos e, para brincar um
    pouco, colocou também sobre sua cabeça, dizendo:
    - Hum! Hum! Não se preocupe, porque essa doença não mata. Tome este pequeno remédio
    agora. Após consultar Anna, conversaremos.
    Deu um laxante para o mordomo. Marco Polo foi para o quarto de Anna e o ditador, para o
    "trono" do vaso sanitário.
    O quarto era enorme, mas gélido e escuro. Tinha cerca de sessenta metros quadrados. Anna
    estava deitada, mas acordada. Marco Polo tirou o disfarce, aproximou-se vagarosamente da
    cama, sentou-se ao seu lado. Ao ouvir a voz do rapaz, ela se assustou, mas não se levantou nem
    o cumprimentou. Ele tentou animá-la.
    - Anna, o que está acontecendo com você?
    Ela permaneceu muda.
    - Sou seu amigo. Fale comigo! - Ela colocou o travesseiro sobre a cabeça.
    - Tudo bem, Anna, você tem o direito de não falar comigo. Se esta é a sua escolha, vou
    desaparecer da sua vida.
    Levantou-se e começou a se retirar. Quando ele estava no meio do quarto, ela bradou.
    - Eu não disse que sou complicada?
    Em vez de poupá-la, ele comentou:
    - Anna, o problema não é ser complicada, o problema é complicar a vida.
    - Esqueça-me! É melhor para você.
    Indignado, ele disparou uma frase cortante:
    - O problema não é a doença do doente, mas o doente da doença.
    Ela tirou o travesseiro do rosto e perguntou:
    - O que você quer dizer com isso?
    - O problema é seu eu, sua capacidade de decidir, e não sua doença Você teve motivos para
    ser deprimida. Mas insiste em ser doente.
    - Eu não desejo ser doente!
    - Não deseja conscientemente, mas inconscientemente você deseja ficar na plateia, não tem
    coragem de subir ao palco e dirigir a peça da sua vida. Anna, você é forte e magnífica, saia do coitadismo!
    - Eu não sou coitada!
    Marco Polo mesclava elogios com críticas positivas, pois tinha plena consciência de que não
    era fácil vencer os transtornos psíquicos. Sabia que os conselhos vazios não adiantavam, era
    necessário ser um artesão da psique.
    - Então, por que vive esperando que as pessoas a aprovem ou tenham compaixão de você?
    Fiquei sabendo que brilhou no seminário, mas não suportou ser confrontada.
    Anna permaneceu muda, e ele continuou:
    - Você é inteligente, mas auto-punitiva, não admite falhar, ser zombada ou criticada.
    Schopenhauer disse que não deveríamos basear nossa felicidade pela cabeça dos outros. Você se
    esqueceu de que não deve esperar os aplausos dos outros para ser livre!
    Anna ficou chocada com essas palavras. Não podia fugir delas.
    - Eu sou uma estúpida!
    - Também sou às vezes. Mas lute por sua saúde psíquica! Recorde! Você tem fome de viver!
    Não se entregue.
    - Há algo que me amordaça, que sufoca minha alma. Eu sei que preciso lutar, mas não
    consigo.
    Diante disso, Marco Polo citou um famoso escritor:
    - "Não basta saber, é também preciso aplicar; não basta querer, é preciso também agir."
    - Goethe! - ela reconheceu com alegria.
    - Sim, Goethe. Não basta lê-lo, é preciso aplicar suas ideias.
    Anna ficou desconcertada. Toda vez que tinha crise, seu pai, em vez de encorajá-la a enfrentar
    seus problemas, a incentivava a fugir deles. Pedia para ela não ir à escola quando estava
    aborrecida, aconselhava-a a trocar de amizades quando ela se decepcionava, a mudar de ambiente
    quando se perturbava. Tentava super-protegê-la. Queria compensar a ausência da mãe, mas sua
    protecção era doentia, alimentava a fragilidade da moça, destruía sua auto-estima.
    As palavras de Marco Polo a fizeram perceber que sempre tinha feito a pior escolha: esconder-se.
    Percebendo sua interiorização, ele acrescentou:
    - Dê as costas aos seus problemas, e eles se tornarão predadores e você, a caça. Inverta essa
    relação. Lembre-se da poesia: "Não tenha medo da vida, tenha medo de não viver. Não tenha
    medo de cair, tenha medo de não caminhar..." Você é uma pessoa corajosa, já começou até
    a brigar em classe - falou brincando, e fechou seus argumentos com essas palavras: - Ninguém é
    digno da segurança se não usar as suas fragilidades para alcançá-la.
    Anna levantou-se subitamente. Num sobressalto, disse:
    - Espere-me lá fora.
    Surpreso, ele saiu.
    Ela penteou-se, pintou-se, passou base em suas olheiras, vestiu um belíssimo vestido azul-claro
    com decote em V. Depois de demoradíssima meia hora, saiu. Marco Polo não acreditou no que
    via. Ficou surpreso. Ela estava linda, charmosa, sensual. Curioso, perguntou:
    - Você vai a alguma festa?
    - A vida é uma festa! - ela afirmou alegremente.
    A partir desse momento, Anna deu um grande salto em direcção à sua liberdade. Nunca mais
    foi a mesma. Passou ainda por momentos difíceis, chorou não poucas vezes, deprimiu-se em
    alguns momentos, mas não se submetia mais ao seu cárcere interior. Aprendeu a fazer das suas
    quedas e das suas falhas uma oportunidade para crescer. Resolveu sair de peito aberto para a
    vida.
    Marco Polo tomou-a pelo braço e saíram. Quando estavam para abrir a porta da sala, Carlos
    gritou:
    - Doutor! Doutor!
    Para espanto de Anna, ele rapidamente colocou o cavanhaque postiço e os óculos escuros e
    desajeitou o cabelo.
    - Pois não, Sr. Carlos!
    - Não paro de ter diarreia, doutor! - disse, pálido.
    - Excelente notícia! O senhor está botando para fora todos os seus vermes.
    - Que vermes são esses?
    - Orgulhus lumbricoides. Sua cabeça, ou melhor, sua barriga está cheio de Orgulhus
    lumbricoides.
    Anna morria de rir.
    - É grave, doutor? - perguntou o mordomo esfregando a barriga, querendo novamente ir ao
    banheiro.
    - Não! Tome bastante líquido. Sente-se com bastante humildade no vaso, concentre-se e verá
    que em breve os seus vermes o deixarão.
    E foram embora. Carlos ficou felicíssimo.
    Quando se afastavam da casa, Marco Polo disse:
    - Um dia terei de me retratar com Carlos e pedir-lhe desculpas.
    - Não se preocupe. Os empregados não o aguentam. Quem dera o orgulho do Carlos fosse eliminado.
    A noite estava começando e prometia ser uma das mais encantadoras. Sempre reprimindo
    seus comportamentos, Anna nunca tinha corrido nas ruas e brincado de se esconder em público.
    Marco Polo fez questão de quebrar sua rotina. Queria libertar sua espontaneidade, libertar a
    criança que se escondia dentro dela e que nunca pudera respirar. Os dois corriam um do outro e
    brincavam como adolescentes no meio da multidão. Ela se envolveu no clima e deixou de se
    importar com os olhares dos passantes. Era a sua história, só sua, tinha de vivê-la intensamente.
    Ele estava sem uma máquina fotográfica, mas, imitando uma com as mãos, pedia que ela
    fizesse poses. Clicava sem parar a câmera imaginária. As pessoas trombavam uma nas outras ao contemplá-los, embriagados de alegria. Ela corria para os braços de Marco Polo e ele girava o
    corpo dela. Anna começou a entender que a verdadeira liberdade começa de dentro para fora...
    134

  15. #195
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    C a p í t u l o 24

    A afinidade entre Marco Polo e Lúcio Fernández foi apenas suportável. O milionário evitava
    qualquer aproximação. Torcia para que o namoro não evoluísse. Algumas vezes tomou atitudes
    para que Anna rompesse a relação. Gritou, pressionou, fez chantagens, mas não adiantou. O
    namoro prosseguiu. Todavia, Lúcio Fernández não se deu por vencido.
    O relacionamento entre Marco Polo e Anna, construído pouco a pouco, tornou-se sólido
    demais para ser abalado por manipulações. Foi tecido com alegria, descontracção, diálogos
    prolongados e comportamentos que fugiam do trivial.
    Passados alguns meses, Anna havia reeditado uma parte significativa dos conflitos arquivados
    em seu inconsciente. Paulatinamente deixou de viver a dor dos outros e esperar excessivamente a
    contrapartida do retorno. Tornou-se bem-humorada, estável, protegida, decidida, capaz de lutar
    por seus sonhos. O convívio social já não era uma fonte de medo e frustrações. Assim, teve
    segurança para interromper o uso de antidepressivos.
    Anna se formou em psicologia e começou a estagiar num imenso hospital do coração, cujo
    directorera amigo de seu pai. Ela e outras psicólogas realizavam atendimento aos pacientes
    submetidos a cirurgias cardíacas, principalmente aos candidatos a transplantes.
    Marco Polo frequentemente a surpreendia com um gesto, um elogio ou uma atitude inesperada.
    Às vezes, chegava subitamente com um buquê de flores e o entregava no corredor do hospital.
    Beijava-a, dizia umas palavras e saía. Fazia de um minuto uma eterna afectividade. Para eles,
    pequenas reacções tinham grande impacto.
    Certa ocasião, no começo do estágio, algumas colegas de Anna viram Marco Polo fazer uma
    pequena declaração de amor, tendo numa das mãos um botão de rosa vermelha.
    Ficaram surpresas com a atitude dele. Para elas, esse romantismo havia sido eliminado nos
    tempos modernos. Uma das colegas, envolvida por um sentimento de inveja, comentou
    rispidamente:
    - Seu namorado é um pouco estranho. Não me parece muito normal.
    - Não é possível ser normal quando se ama - Anna rebateu.
    Uma enfermeira mal-resolvida nas relações aflitivas e que sempre se envolvia com namorados
    autoritários e dominadores perguntou:
    - Dar flores no início do dia não é coisa de neurótico?
    - Não sei. Mas sei que ele trata de muitos... - Elas não entenderam.
    - Vocês não conhecem o namorado de Anna? - disse uma psicóloga que o conhecia.
    - Não!
    - Ele é o famoso Marco Polo. Uma das pessoas mais inteligentes que já conheci.
    Caladas, adentraram pelo imenso edifício. Elas não entendiam que a inteligência e o sucesso
    profissional podiam e deviam ser combinados com a sensibilidade e leveza do ser.
    Anna se tornou querida desde as primeiras semanas no hospital do coração. Aprendeu com
    Marco Polo a cumprimentar alegremente os funcionários, em especial os mais simples, a brincar
    com os pacientes e a entrar sem receio no epicentro da insegurança deles. Aprendeu a ser
    vendedora de sonhos e de esperança num ambiente em que a expectativa de morte contagiava as
    pessoas.
    O casal saía com frequência, e cada encontro era especial, mas um deles foi inesquecível. Certa
    noite, Marco Polo manifestou a intenção de dar-lhe um presente marcante. Saiu do perímetro
    urbano e levou-a para o campo. Parou o carro e convidou-a a sair.
    Pegou em suas mãos e foram andando pela estrada. Enquanto caminhavam, chamou a atenção
    de Anna para a harmonia da natureza.
    - Todos os dias as flores exalam perfume, a brisa toca as folhas, as nuvens passeiam obscuras,
    mas não prestamos atenção. Ouça a serenata de grilos! É um magnífico show incessante.
    Vendo a sua maneira simples de encarar a vida, ela perguntou:
    - O que é a felicidade para você?
    Surpreendendo-a, ele a assustou, dizendo:
    - A felicidade não existe, Anna...
    Apreensiva, ela subitamente inquiriu:
    - Você me amedronta! Qual é a esperança para os que vivem na miséria emocional? O que
    posso esperar da vida, se tive tanta riqueza exteriormente e tão pouco dentro de mim?
    Marco Polo completou:
    - A felicidade não existe pronta, não é uma herança genética, não é privilégio de uma casta ou
    camada social. A felicidade é uma eterna construção.
    Respirando aliviada, ela indagou:
    - Como construí-la?
    Como um contador de histórias que passeia pela psicologia, ele fitou seus olhos e discorreu:
    - Reis procuraram aprisionar a felicidade com seu poder, mas ela não se deixou prender.
    Milionários tentaram comprá-la, mas ela não se deixou vender. Famosos tentaram seduzi-la, mas
    ela resistiu ao estrelato. Sorrindo, ela sussurrou aos ouvidos de cada ser humano: "Ei! Procureme
    nas decepções e dificuldades e, principalmente, encontre-me nas coisas anónimas da
    existência." Mas a maioria não ouviu a sua voz, e os que a ouviram deram pouco crédito.
    - Que lindo! Fale mais sobre o que é ser feliz, meu imprevisível poeta.
    - Ser feliz é ser capaz de dizer "eu errei", é ter sensibilidade para falar ”eu preciso de você", é
    ter ousadia para dizer "eu te amo".
    Lembrando de seu pai, ela expressou condoída:
    - Muitos pais morrem sem jamais ter coragem de dizer essas palavras aos filhos. Esquecem das
    coisas anónimas.
    - É verdade. Tropeçamos nas pequenas pedras e não nas grandes montanhas.
    Olhando para ele num clima de terno amor, ela falou de alguns temores reais e não frutos de
    sua doença. Como amava a poesia, também usou a inspiração.
    - Obrigada por você existir. Mas tenho medo de que o nosso amor se evapore como o orvalho
    ao calor do sol.
    - Em alguns momentos, eu a decepcionarei, em outros você me frustrará, mas, se tivermos
    coragem para reconhecer nossos erros, habilidade para sonharmos juntos e capacidade para
    chorarmos e recomeçarmos tudo de novo tantas vezes quantas forem necessárias, então nosso
    amor será imortal.
    - Eu o amo como nunca amei alguém! - ela disse, tentando aproximar-se para beijá-lo. Marco
    Polo subitamente deu um passo para trás e elevou o tom de voz:
    - Espere um pouco, mocinha! Você entrou subtilmente na minha vida, foi ocupando espaços e,
    sem me pedir licença, invadiu meu coração. Portanto... - fez uma pausa prolongada.
    - Fale! Estou ansiosa.
    - Aceita casar-se comigo, princesa? - disse sorridente, abaixando a cabeça num gesto de
    reverência.
    Beijaram-se. Dois mundos, duas histórias se cruzaram. Amoroso, ele cobriu seus olhos, sua testa
    e seu queixo de pequenos beijos.
    Em seguida, quis dar algo forte, único, inesquecível, que marcasse aquele momento e fosse
    capaz de simbolizar tudo o que ele sentia por ela e revelasse o tipo de homem que ela encontraria.
    Um homem incomum tinha de dar um presente incomum.
    A lua estava minguante e o céu límpido. Abrindo os braços, ele perguntou:
    - Anna, olhe para o alto. Observe o teatro incompreensível do universo. O que você vê?
    Curiosa, ela respondeu:
    - Vejo lindas estrelas.
    - Escolha uma estrela.
    Ela sorriu. Havia milhares de estrelas invadindo sua pupila. Anna escolheu uma estrela
    brilhante do lado esquerdo do firmamento.
    - Escolho aquela - disse, apontando.
    - De hoje em diante aquela estrela será sua. Mesmo quando seu céu estiver coberto pelas
    tempestades, aquela estrela estará brilhando dentro de você, mostrando os caminhos que deve
    seguir e revelando o meu amor.
    Anna flutuou. Já ganhara presentes caríssimos, colar de esmeraldas, anéis de diamantes, carros
    último tipo, acções na bolsa de valores, apartamentos, mas jamais se esqueceu de que ganhara uma
    estrela. Percebeu claramente que as coisas mais importantes da vida não podem ser compradas.
    Era riquíssima, mas sempre vivera na miséria.
    Ela guardou no recôndito do seu ser o significado da estrela que Marco Polo lhe deu. Quem
    tem uma estrela em seu interior não precisa da luz do sol para se conduzir.
    Marco Polo tinha a profundidade de um pensador e a sensibilidade de uma criança. Não sabia,
    mas também precisaria de uma estrela interior. Suas ideias teriam alcance mundial. Lutaria pelos
    direitos humanos, tumultuaria ambientes e sociedades, atravessaria vales e planaltos e o céu
    desabaria sobre ele. Para sobreviver, precisaria enxergar com os olhos do coração.
    137

  16. #196
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    Por Defeito

    C a p í t u l o 25

    Anna anunciou ao pai sua intenção de se casar com Marco Polo. Lúcio tentou impedir de todas
    as formas. Fez de tudo para que ela se apaixonasse por alguém de sua classe social e poder
    financeiro, mas não teve êxito. "Imagine, um psiquiatra em minha família, vigiando meus passos.
    Não suportarei", pensava. "Preciso de alguém que multiplique meus bens e não que aponte meus
    problemas", reflectia.
    Tentou mais uma vez seduzi-la:
    - Filha, não é por causa do dinheiro, mas há filhos de banqueiros e de industriais fascinados
    por você. São pessoas do seu ambiente e do seu meio. Você se sentirá menos deslocada. Dê uma
    chance para eles.
    - Já namorei alguns deles e aumentei meu vazio.
    - Que vazio? O que esse rapaz tem de especial?
    - Marco Polo me ama intensamente. Além disso, ele ama o ser humano, é preocupado com a
    humanidade.
    - Não seja ingénua, minha filha! As pessoas só são preocupadas com o próprio bolso.
    - É uma pena que você pense assim, papai. Quem vive para si mesmo só enxerga segundas
    intenções nos outros.
    Ele resmungou, mas, antes que rebatesse, ela perguntou:
    - Você já se apaixonou por alguém?
    Lúcio claudicou. Nunca tivera uma explosão afetiva, nem pela mãe de Anna. Nos últimos anos,
    só desfilava com mulheres bem mais jovens, algumas famosas, mas não amava ninguém. A única
    coisa que movimentava sua emoção era aumentar sua grande fortuna. Titubeando, respondeu:
    - Bom, não sei. Acho que sim.
    - Quem ama, não tropeça no "achismo". O amor é a única certeza da existência, papai. Se
    nunca amou alguém, nem minha mãe, jamais entenderá o que sinto.
    Lúcio saiu desconcertado. Anna realmente estava diferente. Ele perdera o domínio sobre ela.
    Inconformado, dias depois fez mais uma tentativa. Disse que estava comprando uma casa na
    Inglaterra, conseguiria para ela um trabalho num excelente hospital e uma vaga para fazer
    doutorado em Cambridge.
    - Você não precisa terminar seu namoro com Marco Polo – disse com esperteza. - Será bom
    para o próprio futuro de vocês que continue seus estudos e se prepare melhor profissionalmente.
    Ela não aceitou.
    - Pai, a vida inteira esperei que você se preocupasse realmente comigo, que conversasse sobre
    nossas vidas.
    - Eu trabalho para você, minha filha. Tenho feito tudo ao meu alcance para fazê-la feliz. Doulhe
    as melhores roupas de grife. Você viaja duas vezes por ano, de primeira classe, para fora do
    país. O limite do seu cartão de crédito internacional é de 100 mil dólares. E qual é a jovem da sua
    idade que tem um Mercedez conversível na garagem e um motorista à sua disposição?
    - Você me deu muitas coisas, papai, mas esqueceu a mais importante.
    - Qual? - ele perguntou indignado.
    - Esqueceu de me dar a si mesmo. Não conheço seus sonhos, seus temores, suas lágrimas.
    Somos dois estranhos vivendo na mesma casa - falou, começando a chorar.
    Abalado, ele tentou evitar o clima emocional.
    - Filha, você é a rainha desta casa.
    - De que adianta ser uma rainha presa num palácio, vigiada por seguranças e com um pai que
    só vive para o trabalho?
    Lúcio emudeceu, não sabia contrapor-se a essas verdades. Anna, então, tocou num assunto
    que nunca havia tratado com o pai.
    - Pai, nós nunca falamos sobre a mamãe. Quem não dialoga sobre seu passado não o sepulta
    com maturidade, perpetua as suas feridas. A morte da mamãe é um túmulo aberto em nossos
    corações. Você nunca teve coragem de conversar comigo sobre sua doença e as causas que a
    levaram a tirar sua vida.
    Lúcio ficou paralisado, sem reacção. Não conseguia organizar as ideias. Este assunto era um
    tabu. Na casa dos Fernández até os empregados estavam proibidos de comentá-lo. O quarto que
    fora do casal vivia trancado, somente a faxineira e a arrumadeira entravam lá uma vez por
    semana. Lúcio pensou várias vezes em mudar de casa, mas seu palacete era belíssimo, uma
    mansão única, embora triste. Acabou apenas mudando de quarto.
    Como o pai não se manifestava, Anna, lembrando-se da pergunta fatal que Marco Polo lhe
    fizera sobre sua mãe, também fez uma pergunta fatal para seu impenetrável pai. Ansiava ajudá-lo.
    - Você tem sentimento de culpa pela morte da mamãe, papai?
    - Culpa? Eu? Que absurdo! Não me acuse!
    - Não estou acusando, papai, estou perguntando. Estou pedindo para você olhar para seu
    interior sem medo.
    As reacções súbitas e eloquentes de Lúcio indicaram que a pergunta tinha mexido com os
    porões da sua mente. Procurando desesperadamente evitar o contacto com o espelho da sua alma,
    ele olhou para o relógio e disse resolutamente:
    - Tenho um compromisso importante. Preciso ir.
    Percebendo que ele entrara no desconhecido terreno da própria sensibilidade, ela insistiu:
    - Espere! Papai, os grandes homens também choram...
    Os olhos dele lacrimejaram. Um acontecimento raro para quem não se permitia a doce e
    aliviadora experiência do choro. Sofria muito, tinha insónia e períodos de angústia, mas negava a
    dor. Suas lágrimas sempre ficaram submersas sob seus rudes comportamentos.
    Ao perceber que elas tinham saído da clandestinidade e subido ao palco dos seus olhos,
    rapidamente tentou escondê-las. Não admitia que um espectador contemplasse sua fragilidade,
    pois somente a glória podia ser admirada. A pedra de gelo da sua emoção estava derretendo, mas,
    antes que o sentimento irrigasse sua inteligência com afectividade, ele se esquivou.
    - Depois conversaremos sobre os grandes homens... - e saiu apressadamente, sem mostrar a
    face e sem dar chance para a filha continuar o diálogo.
    Lúcio Fernández evitava todas as conversas e situações que o remetessem à interiorização, não
    se permitia crescer. Jamais reconhecera um equívoco, jamais pedira desculpas nem ajuda emocional.
    Era um homem doente que contribuía para formar pessoas doentes.
    Tinha algumas características respeitáveis desde que o assunto fosse números e dinheiro. Era
    empreendedor, arrojado e perspicaz. Sabia investir em novos projectos e farejar por onde
    caminhava a economia mundial, mas não tinha qualquer noção de por onde caminhava sua
    qualidade de vida.
    Lúcio tinha oito empresas, nas quais era sócio maioritário.
    Elas empregavam 11 mil funcionários. Entre suas empresas havia um banco, uma indústria de
    computadores, uma fábrica de suco de laranja e mais recentemente uma indústria farmacêutica.
    Além disso, tinha participação minoritária em dezenas de outras empresas. Gostava de investir
    na Bolsa de Valores, comprar ações das empresas de tecnologia de ponta que se tornariam
    vedetas no mercado globalizado. Na maioria das vezes, acertava.
    Estava listado na revista Fortune como o 83º homem mais rico do planeta. Em seu país era o
    42º da lista. Sua fortuna girava em torno de quatro biliões de dólares. Todo ano, o maior prazer
    de Lúcio era melhorar sua classificação nas duas listas. O poder e o prestígio gerados por essas
    listas tornaram-se sua droga. Pensava nelas obsessivamente durante todo o ano.
    Marco Polo não sabia o quanto seu futuro sogro era rico. Nem Anna tinha essa noção, pois
    era desligada, desapegada. Os dois nunca falaram sobre o dinheiro de Lúcio.
    Por subir nos bancos das praças e fazer poesias, ter uma explosão emocional com as pequenas
    coisas, cuidar dos feridos da alma, romper paradigmas e confrontar preconceitos, Marco Polo
    pressentia que o dinheiro de Lúcio poderia ser um grande problema para ele e Anna. Queria ser
    riquíssimo em seu âmago. Rejeitava ser massificado pelo sistema social.
    Ansiava fazer da sua história uma experiência única, exultante, em que cada dia fosse um novo
    dia. Almejava incluir Anna nesse projecto existencial, mas preocupava-se com as dificuldades que
    ela atravessaria ao seu lado. E tinha razão. Por isso, questionou-a:
    - Anna, o sofrimento humano me perturba. Um dia vou sair do meu consultório e me dedicar
    aos grandes temas sociais. Desde meu primeiro ano de faculdade de medicina este desejo me
    domina. Viver comigo poderá ser muito inseguro. Temo por você. Com seu pai, você não
    correrá riscos.
    - Mas não terei aventura!
    - Com ele, você terá protecção.
    - Mas não terei paz interior!
    - Com ele, você terá o melhor padrão de vida.
    - Mas não terei conforto!
    O rapaz ficou pensativo. E, antes que proferisse outra frase, ela acrescentou:
    - Marco Polo, às vezes acho que o conheço muito pouco, mas o pouco que conheço me dá a
    certeza de que você é a minha escolha. Pressinto que ao seu lado meu amanhã será imprevisível.
    Mas o amanhã não existe - disse sorrindo.
    Beijaram-se. Ao afastar os lábios dos dele, ela inclinou um pouco a cabeça e brincou:
    - Mas, por favor, quebre menos a rotina e arrume menos problemas.
    - Não consigo - ele afirmou com alegria. E não conseguia mesmo.
    Passada uma semana, Anna e Marco Polo procuraram o poderoso Lúcio para marcar a data do
    casamento. Os transtornos foram inevitáveis.
    - Vocês são precipitados! Deveriam esperar mais tempo – retrucou o pai.
    Marco Polo insistiu:
    - Não há o que esperar, nós nos amamos.
    Então, sem delicadeza, Lúcio comentou:
    - Amor! Amor é um interesse disfarçado.
    - Papai, não fale assim! Eu amo Marco Polo!
    Não havendo como impedir o casamento, Lúcio tentou bloquear radicalmente o golpe do
    pretendente. Não queria que Marco Polo tivesse acesso às suas posses.
    - Só aceito que você se case com Anna se for com separação total de bens!
    Anna, indignada, retrucou:
    - Sou eu quem decide isso, papai!
    Marco Polo, intrépido, interferiu, dizendo:
    - Pois eu só me caso com sua filha se levar toda a sua fortuna!
    Anna se espantou. Lúcio levantou-se irado com a petulância dele. Esbracejando, bradou:
    - Está vendo, minha filha? Eu lhe disse que este rapaz era ambicioso! Mostrou a verdadeira
    cara! Caia fora enquanto é tempo!
    Em seguida, olhou para Marco Polo e acrescentou:
    - Jamais você tocará em minha fortuna. Há um batalhão de advogados de olho em você.
    Anna estava chocada com o rumo da conversa. Marco Polo levantou-se e confirmou:
    - Sim! Sou ambicioso. Só me caso se levar toda a sua fortuna, pois para mim sua única fortuna
    é Anna.
    141

  17. #197
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    Por Defeito

    O resto não tem valor. Não quero um tostão do senhor.
    Anna ficou deslumbrada, nunca fora tão valorizada. Seu intratável pai caiu do pináculo do seu
    orgulho.
    O casamento foi marcado para três meses depois. Fariam um casamento civil em público e,
    posteriormente, o religioso, em particular. O religioso seria ecuménico e contaria apenas com
    algumas pessoas, em especial o amigo de Deus - Falcão.
    Os pais de Marco Polo, Rodolfo e Elisabete, moravam em outro estado e estavam felizes com
    o casamento do filho. Rodolfo vivia com dificuldades financeiras. Era um comerciante que
    gostava de ajudar as pessoas, mas não conseguia cobrar dos que lhe deviam. Sociável, afectivo,
    bem-humorado, gostava de ter longas conversas com os amigos.
    Elisabete era descendente de uma família rica. Seus avós foram latifundiários, grandes
    proprietários de terra. Os pais dela viveram de forma nababesca. Tinham os melhores carros, as
    maiores casas, as mais belas roupas. Elisabete vivera uma vida regalada na juventude. Mas seus
    pais, como seus tios, dissiparam a herança. Foi-se o dinheiro, ficaram as jóias e permaneceu a
    pose. Era uma mulher recatada, de gestos comedidos e de poucos amigos. Apesar da sua
    ambição, era uma mulher de fibra, batalhadora.
    Os pais de Marco Polo não tinham recursos para contribuir com a festa. Lúcio Fernández
    tomou a frente. Disse que fazia questão de dar a maior festa para Anna. O jovem casal recusou o
    luxo. Lúcio, então, afirmou que faria um evento simples, capaz de combinar com o estilo de vida
    dos noivos. Mentiu. Sigilosamente contratou o melhor bufê da cidade. Alugou para a festa o salão
    nobre do mais imponente hotel cinco estrelas, do qual era sócio, e mandou preparar uma decoração
    requintada.
    A festa não tinha a cara da noiva, mas do seu pai. Sob o controle de Carlos, o mordomo, e de
    uma dúzia de funcionários das empresas de Lúcio, fizeram secretamente não apenas os
    preparativos do casamento, como também uma enorme lista de convidados. A maioria não tinha
    relacionamento com Anna.
    Lúcio convidou grandes empresários, celebridades, deputados, senadores, o governador do
    estado, ministros, o presidente do país. O bilionário era um homem muito influente.
    Gastou mais de 500 mil dólares no evento, uma quantia irrisória para alguém tão rico. O que
    era para ser uma simples festa tornou-se o maior acontecimento do ano. Colunistas sociais de
    jornais e revistas foram convidados para cobrir o evento. Ocupados com o intenso trabalho,
    Marco Polo e Anna não perceberam o movimento em torno do seu casamento. Carlos e sua
    equipe foram eficientes.
    A magnitude da festa não objectivava apenas satisfazer o ego de Lúcio ou expressar sua
    megalomania usando o poder financeiro para encantar as pessoas. Desejava realmente premiar
    sua filha. A seu modo, ele a amava. Além disso, procurava diminuir a enorme dívida que tinha em
    sua consciência. Nos raros momentos de lucidez, atormentava-se com a ideia de ter abandonado
    as duas mulheres de sua vida: a esposa e a filha.
    Queria compensar Anna pelos erros que cometera e por seu passado deprimente. Como não
    aprendera a falar a linguagem da emoção, falou a única linguagem que conhecia - a do dinheiro.
    Imaginava que uma festa memorável poderia redimi-lo.
    C a p í t u l o 26
    Enfim, o grande dia! Marco Polo chegou no salão uma hora antes de Anna e ficou espantado
    com a presença de tantos estranhos. Assustou-se, pensando que entrara no ambiente errado.
    Havia cinco seguranças trajados a carácter identificando as pessoas e checando a lista.
    Carlos tinha dito aos seguranças que havia uma lista oficial, a de Lúcio, e outra, com o nome de
    algumas outras pessoas: os convidados de Marco Polo e Anna, dos quais deveria exigir-se apenas
    a identificação e o convite. Os seguranças acharam estranho haver duas listas, mas ordens são
    ordens. Marco Polo se identificou. Pelo nome o reconheceram.
    - Parabéns pela grandiosa festa! - disseram os seguranças.
    O rapaz apenas movimentou levemente a cabeça em agradecimento e entrou. Os lustres
    cintilantes, os tapetes persas espalhados pelo chão, as dezenas de buquêt de flores distribuídos em
    múltiplos locais saltavam aos olhos. Havia mais de duzentos e cinquenta mesas, todas ricamente
    decoradas, com taças de cristal francês. Vinhos das melhores safras seriam servidos. As festas de
    Lúcio eram famosas, ele não poupava esforços para agradar os convidados. Mas esta era singular.
    O psiquiatra pensador, poeta, desprendido, destemido, que tinha coração de andarilho, ficou
    embaraçado. Marco Polo não acreditava no que via. O que mais o espantava era a presença dos
    estranhos. Havia mais de setecentos convidados e ele conhecia menos de 10% deles. Tentava
    cumprimentar com a cabeça os presentes, mas eles não respondiam. Não o conheciam, não sabiam
    que era o noivo. Não estavam ali por causa dele.
    Havia mais de sessenta garçons servindo freneticamente os comensais. Uma equipe com trinta
    seguranças vestidos de terno azul-marinho transitava pelo salão.
    Ao encontrar Lúcio, preferiu ser mais amigo do silêncio do que das palavras. Sabia que
    qualquer crítica redundaria em discussão, o que estragaria o momento sublime. Apenas pensou:
    "Realmente este homem não gosta de mim!" Sabia que Anna desconhecia os preparativos do pai.
    Lúcio foi receber pessoalmente alguns convidados especiais. Levou Marco Polo consigo. Ele
    se deixou levar.
    - Senhor governador, primeira-dama. A festa lhes pertence - disse radiante. - Ah, este é o meu
    futuro genro - apresentou sem muita espontaneidade.
    Assim, ambos cumprimentaram cerca de vinte personalidades, entre as quais alguns
    riquíssimos industriais e banqueiros que também constavam da famosa lista das grandes fortunas.
    Havia respeito entre os empresários e um aparente desprezo por essa classificação, mas, no subsolo
    dos seus comportamentos, vários eram seduzidos por ela. A inveja e a disputa corroíam a
    alma de muitos.
    Ocorreu a Marco Polo que a somatória das fortunas dos convidados ao casamento dava uma
    quantia de 150 biliões de dólares, superior à soma do Produto Interno Bruto dos trinta países
    mais pobres do mundo, incluindo os da África Subsariana, cuja população ultrapassava 350
    milhões de habitantes. Porém ninguém estava preocupado com os miseráveis. O que importava
    era a festa.
    Marco Polo, que aprendera a pensar com um mendigo e vivera entre os miseráveis, agora se
    encontrava entre os multimilionários. A festa, que deveria ser um motivo de alegria, prenunciava
    ser uma fonte de preocupação. No entanto, ele sempre discursara afirmando que não há ricos ou
    pobres, famosos ou anónimos, todos são seres humanos com necessidades internas semelhantes.
    Ao lembrar disso, recompôs-se. Um pensamento saltou em sua mente e aquietou sua emoção
    intranquila: "Não é o ambiente que faz meu humor, mas meu humor que faz o ambiente. Serei
    feliz." Preferiu relaxar. Anna merecia.
    O secretário de segurança do estado, o Dr. Cléber, também estava presente. Como era amigo
    pessoal de Lúcio, fez-lhe um favor: mandou que um batalhão de policiais estivesse pela
    redondeza e colocou cinquenta membros de elite da polícia anti-sequestro disfarçados entre os
    convidados. O objectivo era proteger os grandes empresários e políticos importantes de possíveis
    ataques.
    Marco Polo procurou seus amigos, mas teve dificuldade em localizá-los, pois estavam perdidos
    na multidão de estranhos. Sua mãe vibrava eufórica com o luxo da festa. Era tudo o que sonhara
    para o filho. Recordou os áureos tempos da vida abastada.
    Um piano e um conjunto de violinos tocados por profissionais do maior gabarito animavam o
    ambiente. O juiz mostrava-se ansioso para começar o cerimonial. Estava deslumbrado com a
    magnitude da festa, nunca abrira a boca para pessoas tão ilustres. Anna estava terminando de se
    arrumar.
    De repente houve um tumulto na porta do salão. Alguns seguranças barraram umas 15 pessoas
    mal-vestidas, com comportamentos bizarros, fazendo trejeitos com a cabeça e movimentos
    involuntários com os membros superiores. No grupo barrado, alguns não portavam identidade
    nem convite; disseram que os tinham esquecido. Mas mesmo os que os portavam foram
    barrados. Os seguranças imaginaram: "Não é possível um milionário se misturar com esse tipo de
    gente."
    As pessoas barradas começaram a gritar pedindo passagem e produzindo um tumulto na
    entrada do salão, atrapalhando os nobres convidados que chegavam. Alguns deles indagaram dos
    seguranças:
    - O que essa gente está fazendo na festa de Lúcio?
    - Não sabemos, doutor, mas já os estamos expulsando.
    O grupo pressionava para dentro, mas os seguranças, cada vez mais agressivos, os
    empurravam para fora. O chefe da segurança contratado por Lúcio chegou. Informado da
    situação, observou os amotinadores e falou baixinho com os outros seguranças.
    - Essas pessoas certamente são penetras. Perderemos o emprego se as deixarmos entrar. Não
    podemos perturbar as autoridades e a elite financeira. Mandem todos embora, mas, por favor,
    sem escândalo.
    O grupo resistiu, o tumulto aumentou. Lúcio foi informado da confusão e ficou visivelmente
    transtornado. Accionou o secretário de segurança, que por sua vez accionou sua equipe interna,
    imaginando que criminosos estivessem presentes.
    Chegando ao local, o chefe de segurança disse ao Dr. Cléber:
    - Essas pessoas parecem ter saído de um hospício. Dizem que são amigos do dono da festa.
    Como isso é possível?
    Observando-os, o secretário disse baixinho:
    - Cuidado! Podem ser terroristas ou sequestradores disfarçados!
    Em seguida, com um olhar, pediu para os policiais anti-sequestro agirem. Os policiais
    corpulentos pegaram nos frágeis braços de Jaime, de Isaac, de Ali Ramadan, de Vidigal, de
    Romero, de Cláudia, de Sara, de Maria, do idoso e gentil Sr. Bonny, começaram, a revistá-los e
    em seguida a expulsá-los.
    Eles tinham ido à festa porque Marco Polo os fizera sentirem-se seres humanos, estrelas
    únicas no palco da vida, ainda que fosse um palco sem plateia. Não podiam deixar de agradecer a
    um amigo tão sábio e tão caro.

    144

  18. #198
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    Agora eram novamente tratados como lixo social.
    Isaac os trouxera. Isaac era um homem mais rico do que vários convidados da festa. Vestia-se
    de maneira tão simples que parecia não ter uma empresa com novecentos funcionários. Isaac
    alargara os horizontes da visão sobre a existência. Não tinha necessidade de ostentação.
    A doença o abatera, mas não eliminara sua ousadia, sua garra e criatividade. Tornara-se um
    empresário que só via sentido em pisar no solo do capitalismo e conquistar mais espaços
    financeiros se isso fosse contribuir para o bem-estar dos seus funcionários e da sociedade.
    Sempre gostara de empregar legalmente imigrantes chineses, árabes, indianos, latinos. Conhecia
    pela própria experiência a dor da solidão de viver em terra estranha. Depois ter superado sua
    doença mental, começou a empregar também egressos de hospitais psiquiátricos. Realizou uma
    solidária inclusão social. Seus empregados o amavam.
    Como Cláudia não tinha dinheiro para comprar uma roupa nova, escolhera um vestido longo
    vermelho, sobreposto por um blazer preto. As duas peças tinham mais de vinte anos de
    existência e eram o melhor que ela possuía. Além de não combinar, contrastavam com o luxo das
    roupas das demais mulheres da festa.
    Para Cláudia, o importante era sentir-se confortável internamente e demonstrar para Marco
    Polo que, através dele, ela aprendera a resgatar seu sentido de vida e a ser útil para a sociedade.
    Também não tivera recursos para comprar um presente, mas fez da sua presença um presente
    inesquecível.
    O grupo chamava a atenção de todos. Normalmente os pacientes com depressão, síndrome do
    pânico e outras doenças emocionais passam despercebidos aos olhos sociais, mas os amigos de
    Marco Polo eram portadores de transtornos mentais graves e crónicos. Alguns esfregavam
    frequentemente as mãos no rosto e no peito. Outros, como Jaime, traziam sequelas dos longos
    anos de medicação. Faziam movimentos musculares repetidos, parecendo mal de Parkinson. Para
    pessoas preconceituosas, não constituíam uma paisagem agradável.
    Algumas convidadas os olhavam de cima a baixo, estarrecidas. Eles não pareciam pertencer ao
    mundo dos mortais.
    Sara disse delicadamente para uma delas:
    - Eu não mordo, madame! Também sou gente.
    No meio da agitação, a esposa de um importante senador fez um ar de desprezo e espanto
    diante de Cláudia. Esta observou-a, com a sensação de que a conhecia.
    - Você não teve aula de dança comigo na sua infância? Perturbada, a outra exclamou:
    - Professora Cláudia?!
    - Sim. Sou eu.
    - Que bom vê-la! - e saiu apressada.
    Os policiais estavam perdendo a paciência. Como empurrar não adiantava, começaram a
    arrastá-los. Alguns diziam:
    - Saiam, senão serão presos!
    Outros adicionavam:
    - Não perturbem, seus penetras! Esta festa é para gente grande.
    Frágeis pela doença psiquiátrica e pelo uso prolongado de medicação, alguns começaram a
    tropeçar e a chorar.
    Subitamente, Jaime gritou:
    - Marco Polo! Marco Polo! - Todos os seus amigos o acompanharam em coro.
    O barulho ecoou no interior do salão. Marco Polo, que até o momento não sabia da confusão,
    ficou assustado. Reconheceu aquelas vozes. Rapidamente dirigiu-se para a porta de entrada. Ele
    convidara seus amigos e torcia para que viessem, mas sabia que alguns deles procuravam
    isolamento, não gostavam de frequentar ambientes sociais estranhos, pois percebiam os olhares
    discriminatórios. Esquecendo-se dos riscos, foram à festa para mostrar seu gesto de amor.
    De repente, ao ser empurrado com violência, Ali Ramadan caiu. Sua expressão facial de dor e
    suas lágrimas levaram Isaac a se desfazer do segurança que o agarrava para socorrer o amigo. Não
    se tratava de um palestino e um judeu, mas de dois seres humanos se ajudando. Isaac levantou
    cuidadosamente seu amigo e interpelou o policial:
    - Quem você pensa que é, seu bruto?
    Os seguranças e os policiais de elite não gostaram da sua atitude e o empurraram
    violentamente, bem como aos outros. O caos se instalou e ninguém se entendia. Nesse ínterim,
    Marco Polo chegou e exigiu:
    - Parem! Parem!
    Diante do noivo, os seguranças e os policiais se aquietaram. Para o espanto de todos aqueles
    homens e de todos os curiosos que se aproximaram, o noivo exclamou:
    - Cláudia, querida, que bom vê-la! Jaime, você aqui, que prazer! Isaac, Ali, meus queridos
    amigos!
    Ele os abraçava e beijava na face e na testa.
    O Sr. Bonny disse timidamente:
    - Marco Polo, não nos quiseram deixar entrar na festa!
    - Como não, Sr. Bonny? Vocês são os convidados mais esperados desta festa, pelo menos para
    mim e para Anna.
    O secretário de segurança ficou perplexo. Havia muitos anos, quando era apenas delegado,
    tivera a mesma sensação diante de um jovem vestido de mendigo que aparecera na sua delegacia.
    De repente, os olhares de Marco Polo e do secretário se cruzaram. Marco Polo estava
    abraçado a Cláudia, mas soltou sua voz:
    - Grande cérebro! Você aqui!
    Desta vez o secretário ficou estarrecido:
    - É aquele mendigo, mas agora vestido de noivo! Não é possível!
    - Continua sendo delegado?
    - Hoje sou secretário de segurança e amigo do seu sogro - falou todo orgulhoso. E adicionou:
    - Fui longe em minha carreira. E você me deu força. Nunca esqueci de que você me disse que
    meu cérebro era avantajado.
    Marco Polo engoliu em seco. Pensou novamente no poder do elogio, que é capaz de estimular
    a autoconfiança das pessoas. Ao mesmo tempo, reflectiu sobre o poder da rejeição que, mesmo
    em tom de brincadeira, sem intenção de machucar, pode provocar um estrago na personalidade
    dos outros. "Ainda bem que o delegado não descobriu que, brincando, diminuí o número de seus
    neurónios", pensou.
    Marco Polo estava preocupado com a discriminação que seus amigos sofreram na entrada do
    salão. Tal rejeição poderia reduzir a pó a auto-estima deles. Precisava reparar essa injustiça. O
    secretário coçava a cabeça ao vê-los.
    - Parabéns, secretário! Realmente o senhor foi longe em sua carreira.
    - Parabéns para nós! A vida é irónica. Hoje você é o centro da festa e eu sou o centro da
    segurança dela.
    Em seguida, Marco Polo desfez o mal-entendido. Para não deixar dúvidas, proclamou em voz
    bem alta para todos ouvirem, tanto os estranhos como os próprios amigos:
    - Essas pessoas são meus convidados especiais! Estão entre os meus melhores amigos!
    Alguns convidados ficaram chocados. Comentaram entre si que tinham entrado na festa
    errada. Do outro lado, os amigos de Marco Polo ajeitavam orgulhosamente suas roupas, olhando
    os seguranças com ar de grandeza. Ali Ramadan abordou Marco Polo perguntando:
    - Existem extraterrestres?
    Temendo que as alucinações de Ali tivessem voltado, ele repetiu a velha frase:
    - Não sei. Mas sei que criamos monstros dentro de nós.
    - Olhe quantos ETs fora de nós - disse apontando com o queixo para os seguranças.
    Marco Polo sorriu.
    - São estranhos mesmos, mas, no fundo, são boas pessoas, Ali.
    Cláudia bateu no rosto de um segurança e, com a ingenuidade de uma criança, disse-lhe:
    - Bonitão! A festa é nossa!
    Anna conhecia uma boa parte desses amigos de Marco Polo. Apreciava a singeleza, a inocência
    e a criatividade deles. Certamente iria alegrar-se muito ao vê-los ali.
    Antes de entrarem no grande salão, duas famosas actrizes de cinema, amigas de Lúcio,
    chegaram ao local perseguidas por alguns repórteres. Uma delas tropeçou em Sara e caiu. Sara
    também se desequilibrou e foi ajudada por Cláudia. Irritada com as duas, a actriz encarou-as e
    espantou-se com os gestos bizarros que faziam com os braços e cabeça. Chamou o segurança e
    perguntou com alarde:
    - Que povo estranho é este na festa de Lúcio?
    Marco Polo, vendo suas amigas novamente humilhadas, disse à actriz:
    - De todo o lixo produzido pela sociedade, o culto à celebridade é o mais estúpido.
    Abalada com a coragem do desconhecido, a actriz esbracejou:
    - Quem é você para dizer isso? Você não sabe que sou uma famosa artista!
    - Elas também são actrizes do teatro da existência. Já ganharam até um Óscar pelo drama que
    viveram! - falou apontando para Sara e Cláudia.
    - Puxa! Mas eu não as conheço! - comentou admirada.
    - Deveria conhecer. Elas são fascinantes.
    Cláudia e Sara toparam a brincadeira. Disseram para as actrizes:
    - Queridas, depois lhes damos um autógrafo.
    E, tomando-as pelo braço, Marco Polo levou-as para o salão junto com todos os seus amigos.
    Ao entrar pela passarela central, por onde Anna passaria, os convidados ficaram paralisados e
    fizeram um silêncio fúnebre. Os músicos pararam de tocar. Os gestos incomuns e os
    movimentos involuntários daquelas pessoas agrediram os olhos dos ilustres convidados. Não
    estavam acostumados a conviver com pessoas diferentes.
    Cláudia, abraçada por Marco Polo, olhava e fazia caretas para os convidados. Romero estava
    envergonhado, cabisbaixo, mas Vidigal, muito solto, cumprimentava todos os presentes. Jaime
    estava um pouco constrangido, mas logo se libertou ao beijar varias flores que encontrou pelo
    caminho.
    Ali Ramadan entrou pomposo. Com um lenço na mão direita, rodando-o em torno da cabeça,
    dançava música árabe enquanto entrava no salão. Era um palestino feliz. Isaac andava sorridente.
    Não devia nada a ninguém e não exigia nada de ninguém para ter bem-estar. Enfrentar aquela
    pressão não era nada comparado às pressões que já havia suportado.
    Marco Polo observou, um pouco afastado, um senhor que não apenas discriminava seus
    amigos, mas estava assombrado ao vê-lo. Parecia querer engoli-lo com os olhos. Balbuciou entre
    os lábios:
    - Cretino!
    Ao perceber o que o homem dissera, Marco Polo ficou perplexo. Não podia acreditar que um
    convidado o tivesse ofendido em seu próprio casamento. Pensou que era coisa da sua cabeça,
    afinal de contas a noite estava stressante.
    148


  19. #199
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    À medida que o grupo avançava, os convidados se entre-olhavam querendo entender o que
    ocorria. Alguns, em tom de chacota, diziam:
    - Lúcio preparou um show circense para nós.
    Na realidade, Lúcio, ao ver a cena, ficou borbulhando de raiva. Queria estar em qualquer lugar
    do mundo, menos nessa festa. "Que vergonha! O que vão pensar de mim!", dizia para si mesmo
    com um nó na garganta.
    Antes de os amigos de Marco Polo se acomodarem, Lúcio foi chamado, porque a noiva havia
    chegado. Como pai, deveria introduzi-la no salão. Saiu em estado de choque, sem olhar para os
    convidados.
    Alguns psiquiatras também ficaram perplexos. Nunca tinham visto pacientes portadores de
    psicose na festa de um psiquiatra.
    Antes de se sentar, Jaime passou prolongadamente os olhos pela multidão. Viu homens e
    mulheres preocupados, tensos, com posturas erectas, rígidas, dosando comportamentos e sem
    manifestar alegria na fenomenal festa. Admirado com a própria observação, pegou no braço do
    noivo e expressou:
    - Marco Polo. Que povo es... estra... estranho!
    Analisando o comentário do amigo, ele concordou:
    - Realmente são estranhos, Jaime!

    C a p í t u l o 27

    Anna chegou na festa. Tal como Marco Polo, ao ver o esquema de segurança, sentiu-se tensa.
    Quando entrou no salão oval, ficou pasma. Tentando ser discreta, indagou baixinho:
    - Papai, o que representa tudo isso?
    - Você merece, minha filha. Nós merecemos.
    Focalizou de longe seu amado. Ele fez um gesto com as mãos tentando aliviá-la, como se dissesse:
    "Vamos fazer o quê? Relaxe!"
    O conjunto de cordas começou a tocar a marcha nupcial. Parecia produzir um som celestial
    que percorria as artérias do corpo e penetrava no tecido da alma dos convidados.
    O vestido branco de seda, com poucas rendas, caía sobre o corpo de Anna, delineando-o de
    maneira sensual. O vestido era simples, mas ela estava deslumbrante. Por ser tão bela
    interiormente, era Anna quem dava brilho às suas roupas, e não suas roupas a ela.
    Os cabelos cacheados com mexas douradas repousavam sobre seus ombros como ondas
    sobre a praia. Não tinha grinalda, apenas carregava um pequeno buquê de lírios brancos na mão
    direita. Era a flor de que mais gostava, a que nascia nos pântanos, tal como ela.
    Ao vê-la, os amigos do Hospital Atlântico começaram a aplaudir e assobiar, expressando
    júbilo. Ninguém os acompanhou, apenas Marco Polo.
    O salão media oitenta metros. Enquanto Anna e o pai andavam lentamente, as pessoas,
    emocionadas, os cumprimentavam com gestos e olhares. Lúcio sentiu-se um rei. Esqueceu por
    alguns momentos o tumulto inicial. Agradecia com a cabeça os cumprimentos. Enquanto
    caminhava, resgatava imagens do passado de Anna. A sua pequena filha crescera e tornara-se
    uma pessoa encantadora.
    Ao se aproximarem de Marco Polo, o protocolo foi quebrado mais uma vez. Jaime e Cláudia,
    que conheciam Anna, não contendo a alegria, levantaram-se e foram ao seu encontro.
    Lúcio amarrou a cara. Só não os ofendeu porque o momento exigia discrição. Vários
    convidados também condenaram a atitude deles. Diziam entre si:
    - Que povo brega e sem cultura.
    Anna, humilde, os abraçou sem o menor constrangimento e os beijou, borrando levemente a
    sua maquilhagem. Uma das jovens mais ricas do mundo se enriquecera com bens de que muitos
    dos presentes eram carentes: a naturalidade e a simplicidade. Seus gestos foram um brinde para
    os olhos de Marco Polo.
    Felicíssima, Anna ainda acrescentou:
    - Cláudia, você está magnífica! Jaime, você está belíssimo!
    Ali Ramadan gritou em voz alta:
    - Que flor! Que flor! Que Alá a proteja! Isaac, do mesmo modo,
    bradou:
    - Que o Deus de Israel seja o seu cajado e a sua força!
    Lúcio, envergonhado, apenas movimentava as pupilas para ver as reacções dos convidados.
    Suando frio, entregou a filha ao noivo. Procurou ficar um pouco afastado deles. Não queria ser
    fotografado ao lado daquela gente bizarra, não queria ser alvo de chacota nas colunas sociais.
    Enquanto o juiz iniciava a cerimonia, uma pessoa aproximou-se furtivamente de Lúcio e deu-lhe
    uma péssima notícia, que quase o fez desmaiar. Era o homem que balbuciara "cretino" para
    Marco Polo.
    - Sabe quem foi o psiquiatra que denunciou os efeitos do Venthax? -disse, como um predador
    diante da vítima.
    - O crápula que me fez perder cem milhões de dólares na bolsa de valores no mês passado? -
    inquiriu Lúcio.
    - Exactamente.
    - Não me diga que o estúpido do meu genro teve a coragem de convidá-lo? Quem é o vilão?
    - É o seu próprio genro - disse o psiquiatra. E, com sarcasmo, adicionou: - Quem tem genro
    como o seu não precisa de inimigo.
    - O que você me está dizendo, Dr. Wilson?! - bradou, profundamente abalado.
    Lúcio, seis meses antes do debate de Marco Polo com o Dr. Paulo no congresso de psiquiatria,
    havia comprado 60% das acções da indústria farmacêutica que sintetizara o Venthax. Lúcio já era
    o dono da empresa quando o Dr. Paulo foi subornado. A empresa prometia ser uma mina de
    ouro se houvesse uma aceitação maciça da nova droga pela classe médica.
    Marco Polo começara a usá-la logo após o congresso e percebeu importantes efeitos colaterais
    em seus pacientes. Como foi desafiado pelo Dr. Paulo Mello, resolveu fazer uma pesquisa mais
    séria sobre esses efeitos. O resultado foi colocado num dos primeiros artigos que tinha publicado.
    O artigo saíra há um mês numa revista científica e rapidamente ganhou destaque na imprensa
    mundial, em especial nos jornais e TVs. Lúcio havia amaldiçoado o artigo, mas jamais passara por
    sua cabeça que Marco Polo fosse o autor. Lúcio repetia obsessivamente: "Todo remédio tem
    efeito colateral. Estão me perseguindo!" As acções do laboratório caíram 15% e continuavam em
    queda. Foi um desastre económico.
    Diante dos fatos relatados pelo Dr. Wilson, Lúcio mudou de cor, começou a ficar taquicárdico,
    ofegante, suar frio, parecendo estar diante da pior situação de perigo. O perigo era Marco Polo. A
    falta de simpatia por ele se converteu em ódio mortal.
    Imediatamente mandou um segurança chamar o secretário de segurança. Ofegante, disse-lhe:
    - Precisamos interromper este casamento agora!
    - Você está louco, Lúcio?
    - Não, mas vou ficar.
    - O que está acontecendo?
    - Acabei de descobrir que meu futuro genro é o meu pior inimigo.
    - Lúcio, você está brincando, ele é uma boa pessoa - disse o secretário, transtornado.
    - Boa pessoa! Esse homem me fez perder cem milhões de dólares em um mês!
    O secretário desmontou. Não estava acreditando. Jamais presenciara um evento tão
    perturbador. A festa, que já estava confusa, ganhou um clima de guerra. Enquanto isso o juiz
    dava continuidade ao ritual.
    - O que seu genro fez? Ele o roubou?
    - Quase isso. Ele acabou com a imagem de uma das minhas grandes empresas, o laboratório
    Montex. Vou perder uma posição no ranking! - disse inconformado.
    - Ranking?
    - Deixa pra lá.
    O Dr. Wilson esclareceu para o secretário:
    - O jovem psiquiatra denunciou na imprensa os efeitos colaterais de um dos nossos mais
    importantes medicamentos.
    - Ele sabia que a indústria farmacêutica era de seu sogro? - perguntou o secretário.
    Sem convicção, o Dr. Wilson afirmou:
    - Claro que sim!
    Ao saber disso, a falta de ar de Lúcio aumentou e ele começou a ter vertigem. Os convidados
    mais próximos ficaram comovidos ao ver a cena. Pensaram que ele estava emocionado em casar
    sua única filha. "Deve estar sentindo solidão pela partida da Anna e a alegria de vê-la mulher",
    imaginaram. Pensaram que ele estivesse recordando a pequena filha correndo e brincando e,
    agora, assumindo os desafios da vida.
    Um deputado federal sensível aproximou-se, tentando consolá-lo:
    - Eu o compreendo, Lúcio. Já casei uma filha. Fique tranquilo, agora você ganhou um filho.
    Ao ouvir isso, Lúcio sentiu um tremor súbito. Queria engolir o deputado, gritar com ele. Os
    dois amigos o seguraram. O deputado não percebeu o que estava ocorrendo. Movido de
    compaixão, voltou ao seu lugar.
    Em seguida, Lúcio voltou à carga:
    - Um filho! Estou perdido! Termine esse casamento antes de começar! Anna entenderá
    quando eu desmascará-lo!
    - Calma, Lúcio! - disse o secretário.
    - Calma! Você teve calma quando precisou de 50 mil dólares? Este sujeito pode me arruinar!
    Lúcio Fernández, como vários de seus amigos, não estava preparado para ser um bilionário. Ele
    gravitava na órbita do dinheiro, e não o dinheiro em sua órbita. Antes de enriquecer, era mais solto,
    sereno, sociável, despreocupado. Depois que se tornou um multimilionário, passou a ser
    controlador, autoritário, ansioso, desconfiado. Precisava de muito para sentir pouco, e esmagou,
    assim, seu prazer de viver. Os empregados de seu palácio eram mais felizes do que ele. O dinheiro o
    empobrecera.
    Além disso, Lúcio tinha uma personalidade paranóica. Não chegava a ser uma psicose
    paranóica, pois não rompia com a realidade, mas ele vivia atormentado com ideias de estar sendo
    perseguido ou lesado. Vivia com medo de sequestros. Tinha três carros blindados e andava com
    uma escolta de quatro seguranças. Não bastasse isso, não confiava nem em seus amigos. Achava
    que todo mundo se aproximava dele por interesse. Mas, de todos os seus fantasmas psíquicos, o de
    que sua filha caísse nas garras de um aproveitador era o maior deles. Agora, aos seus olhos, seu
    maior pesadelo se materializava.
    O secretário ficou acuado porque Lúcio revelara que ele tinha precisado do seu dinheiro na
    frente do Dr. Wilson. Queria atender o dramático apelo que lhe fora feito, mas, como a situação
    era delicadíssima, ainda teve fôlego para returquir:
    - Como interromper este casamento? Já pensou no escândalo? Olhe para o governador. Há
    mais de vinte deputados federais, dez senadores e três ministros presentes. São raros os
    empresários deste país que reúnem pessoas tão poderosas num mesmo lugar.
    Então Lúcio caiu em si. Embora muitos políticos dependessem do dinheiro dele para se eleger,
    o escândalo poderia gerar consequências imprevisíveis.
    Então, de relance, olhou para os amigos de Marco Polo e viu uma paisagem que o incomodou.
    151

  20. #200
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    Por Defeito

    - Olhem para esses miseráveis. Eles não precisam representar. São o que são. Maldito escândalo!
    Precisamos de um álibi!

    C a p í t u l o 28

    O cerimonial do casamento iniciou-se. O juiz elevou o timbre da sua voz e pronunciou as
    famosas palavras:
    - Se há alguém no recinto que tem alguma coisa contra este casamento, fale agora ou cale-se
    para sempre.
    Lúcio gelou. Queria gritar, mas não podia. Após um momento de silêncio, uma pessoa bradou
    na entrada do salão.
    - O noivo abandonou a sua criança!
    Os presentes fizeram um silêncio mortal. Alguns começaram a passar mal. O juiz emudeceu.
    O acusador, ainda distante, insistiu:
    - Por que você abandonou a sua criança?
    Elisabete sentiu falta de ar e pensou: "Jesus Cristo! Nunca aconteceu isso em nossa família." Os
    políticos e empresários ficaram espantados. O secretário de estado falou em tom baixo:
    - A festa do ano promete ser o escândalo do século. As mulheres exclamavam:
    - Que vergonha! Como alguém pode abandonar um filho?
    Todos começaram a condenar Marco Polo. Lúcio, num sobressalto, levantou-se, pegou no
    braço do secretário e disse:
    - Esse é o nosso álibi! Esse cara nunca me enganou! Chame os seguranças. Retire Anna
    imediatamente do local!
    - Calma, Lúcio! Espere!
    - Esperar o quê?
    - Isto pode gerar uma agitação incontrolável. A integridade física das autoridades poderá ser
    colocada em risco! - disse tremulo.
    O homem estranho começou a se aproximar e a bradar:
    - Você deixou a criança chorando, sem respirar! Alguns convidados
    comentavam:
    - Assassino! Esse sujeito não vale nada!
    Anna sentia um nó na garganta. Marco Polo tentava ansiosamente elevar os olhos para ver
    quem o denunciava. Seus amigos do Hospital Atlântico aquietaram até mesmo seus movimentos
    repetitivos. Quase não respiravam. A plateia, atónita, queria alcançar o acusador com os olhos. O
    salão tornou-se pequeno para tanta indignação. O burburinho era intenso.
    O secretário resolveu agir. Accionou vinte carros de polícia. Pediu que ficassem de prontidão
    ao redor do hotel. Também colocou os cinquenta policiais disfarçados a postos. Combinou que
    ao levantar a mão direita e abaixá-la subitamente estaria dando o sinal para entrarem em acção.
    Iria retirar Anna, proteger Lúcio, as autoridades e os empresários mais importantes. Quando
    levantou a mão para dar o comando final, outra voz bradou vibrante no salão.
    Era a voz de Marco Polo:
    - Eu assumo minha culpa. Abandonei minha criança. O activismo profissional e as
    preocupações com a existência roubaram meu tempo. Mas prometo-lhe que não a abandonarei
    mais.
    As senhoras idosas começaram a dizer umas para as outras:
    - Que pai desnaturado! Como pôde trocar o trabalho pela sua criança? Isso é desculpa!
    - Alimente-a com a sabedoria, nutra-a com a simplicidade, irrigue-a com a liberdade! Não
    deixe sua criança morrer. Eduque-a. - O estranho falou com voz mais alta.
    Lúcio expressou:
    - Além de meu inimigo, é um péssimo pai. O escândalo já está causado. Vamos, acabe com
    isso! - disse ao secretário, empurrando-o para que tomasse uma atitude.
    O suor escorria como gotas de chuva pela face do secretário. Sabia que a confusão poderia ser
    tal que algumas pessoas correriam o risco de ser pisoteadas. Quando ia dar o comando pela
    segunda vez, viu Marco Polo pegando Anna pela mão e indo ao encontro do denunciante.
    Respirou fundo e pediu para que os cem olhos fixados nele esperassem.
    - Sim! Eu a educarei. - E, olhando para a sua noiva, exclamou: - Pedirei para Anna me ajudar
    a cuidar dela.
    Alguns, perplexos com a sua ousadia, diziam:
    - Irresponsável! Fez o filho e agora quer que outra mulher o assuma.
    Lúcio foi mais longe.
    - Canalha! Quer introduzir um bastardo na minha família. Tem de ser agora, secretário!
    O secretário ergueu pela terceira vez suas mãos. Não podia desagradar quem tanto o
    favorecera. Quando ia abaixá-la e dar início à agitação, outra voz ocupou o ambiente. Para a
    perplexidade dos presentes, em especial de Lúcio, uma jovem que sempre fora frágil, tímida,
    insegura e que não se expressava em público entrou em cena. Anna exclamou:
    - Cuidarei da criança de Marco Polo como se fosse meu filho. – E olhando para os presentes,
    acrescentou: - E quem não deixar sua criança interior viver perderá sua espontaneidade, destruirá
    sua simplicidade, sufocará sua criatividade. Será infeliz diante de Deus e diante dos
    homens. Transformar-se-á num miserável, ainda que viva em palácios. Será estéril em sua
    inteligência, ainda que seja um intelectual.
    Os deputados, os senadores, ministros, banqueiros, industriais e suas esposas quase tiveram
    um ataque de pânico colativo. Ofegantes, passaram as mãos no rosto, coçaram as cabeças,
    entre-olharam-se e ficaram profundamente abalados.
    O denunciante se aproximou. Marco Polo proclamou:
    - Falcão, meu amigo! Só faltava você nesta festa!
    Ele e Anna o abraçaram afectuosamente. E o beijaram.
    A plateia saiu do assombro e aos poucos foi se deslumbrando.
    O irreverente Falcão não poderia aparecer de outro modo. Ele nunca se preocupara com a
    maquiagem social. Neste sublime momento da vida de seu querido amigo, não se importou com
    formalidades nem se preocupou com o que os outros poderiam pensar das suas reacções. Queria
    dar publicamente o melhor presente que um ser humano pode dar: o seu coração.
    Seu jovem amigo estava se tornando famoso e saturado de actividade. Isso alegrava Falcão e, ao
    mesmo tempo, o preocupava. Sabia que, se Marco Polo, bem como qualquer pessoa que atinge o
    sucesso, não tomasse cuidado, poderia destruir no âmago do seu ser a criança curiosa,
    aventureira, ousada que ama, que cria, que sonha e que se encanta com a vida. Sabia que o único
    lugar em que não era admissível envelhecer era no território da emoção.
    Muitos convidados já haviam destruído sua criança interior e viviam num asilo emocional. A
    existência havia perdido o sabor. Viviam porque estavam respirando. Não se questionavam, não
    se interiorizavam e não percebiam que a vida e a morte eram fenómenos indecifráveis no teatro
    da existência. Tornaram-se plateia neste insondável teatro. Movimentavam-se muito, mas não
    saíam do lugar. Eram deuses ricos, famosos, mas falidos.
    Anna já havia estado com Falcão algumas vezes. Concordava e aprendia com as ideias dele e de
    Marco Polo. Eles a contagiaram com sua borbulhante alegria, sua coragem para explorar o novo
    e pensar diferente. Um ajudava o outro. Queria ser como eles, raciocinar como adulto e sentir
    como criança.
    Falcão estava presente porque também queria agradecer a Marco Polo por ter rompido seus
    paradigmas e ajudado a resgatar seu filho. Marco Polo foi discípulo e mestre, filho e pai,
    indicando que os pequenos podem aprender com os grandes e os grandes podem permitir-se
    aprender com os pequenos. Não há hierarquia no terreno da sabedoria.
    Após ver sua filha e Marco Polo beijarem o estranho homem, Lúcio não se aguentou. Sentou-se
    e só conseguia dizer:
    - Isso é uma miragem! O que está acontecendo?
    - Não tenho a menor ideia! - disse o secretário limpando o suor do rosto com um lenço.
    Alguns convidados, agora mais tranquilos, abriram o leque do pensamento e exclamaram:
    - Que peça teatral fabulosa. Nunca vimos isso. Lúcio é um génio!
    Outros, sob estado de choque, procuravam alívio nas altas doses de uísque e vodka. Outros
    ainda, envoltos numa cortina de medo, temiam que saísse tiro no local.
    Apesar das reacções distintas, a maioria do público, sob intenso impacto, se aglomerou ao redor
    dos três personagens, fazendo uma espécie de roda. Alguns subiram nas cadeiras e mesas para
    ver o espetáculo.
    O juiz do cerimonial piscava os olhos sem parar, num tique nervoso. Confuso, perguntou ao
    pianista:
    - O casamento de milionários é sempre assim?
    Após abraçar Marco Polo e Anna, Falcão recordou os velhos tempos das praças. Como se
    estivesse em cima de um banco, num ambiente completamente livre, proclamou para ambos:
    - Todo amor é belo em seu nascedouro, mas poucos resistem ao calor do sol. Que o amor de
    vocês suporte os testes da existência!
    Rodopiando Anna pela mão esquerda, Marco Polo bradou:
    - Velejarei pelos mares da ansiedade, escalarei as montanhas dos medos e percorrerei os vales
    das decepções para não deixar o amor morrer! Farei tudo ao meu alcance para transformar esta
    bela mulher em princesa da minha história!
    As senhoras que queriam crucificar Marco Polo mudaram de opinião.
    - Que rapaz romântico! Que príncipe! É de um desses que minha filha precisa.
    Em seguida, Falcão se afastou um pouco de Marco Polo e começou a cantar com sua voz
    estridente a música que se tornara seu estandarte de vida, What a Wonderful World. Com as
    mãos, encenava a melodia e apontava para as flores. Marco Polo o acompanhou. O piano e os
    violinos entraram em acção. Foi fenomenal.
    Enquanto cantavam, colocaram Anna no meio deles. No início da música, pediram licença em
    seus pensamentos a Louis Armstrong e mudaram completamente a letra, inventando algumas
    frases dirigidas à noiva. Para os dois pensadores, Anna simbolizava todas as pessoas que
    passaram pelo caos na infância, por irreparáveis perdas, mas, apesar disso, acreditaram que valeria
    a pena viver a vida. Sua superação os encorajava.
    - A vida não a poupou, você suportou tormentas, mas sobreviveu - cantou Marco Polo.
    - Obrigado por você existir. Com você, a vida fica mais doce - cantou Falcão.
    - E eu penso comigo... Como você é maravilhosa - cantaram os dois juntos.
    - Você tropeçou, feriu-se, mas não desistiu dos seus sonhos.
    - Você brilha para nós, você brilha para o mundo.
    - E eu penso comigo... Como você é maravilhosa.
    A música penetrou no tecido mais íntimo da psique de Anna, tornou-se uma actividade sublime
    do saber, alçou voo da sua emoção, provocou-lhe um êxtase e a fez chorar. A princesa que vivera
    numa masmorra se libertou.
    155


  21. #201
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    Por Defeito Dois ultimos post do livro

    Enquanto chorava, um filme passava na sua mente, constituído de
    belas imagens, da imagem de sua mãe abraçando-a, tocando piano para ela, o primeiro encontro
    com Marco Polo, a conquista, a estrela que ele lhe deu.
    Raramente uma criança atravessou os desertos percorridos por Anna e raramente alguém
    encontrou um oásis tão agradável. Vários convidados também desataram a chorar.
    Após o canto em homenagem a Anna, Cláudia entrou em cena. Gritou para os músicos:
    - Valsa! - E tirou Falcão para dançar.
    Sorrindo, fez um gesto com as mãos abertas querendo dizer "Vamos nessa!". Os noivos
    também começaram a dançar, livres e alegres.
    Os demais amigos de Marco Polo também entraram na dança e começaram a revolucionar a
    festa. Posteriormente, Cláudia tirou outra pessoa para dançar. Falcão, entendendo o seu recado,
    também convidou outra senhora, a esposa de um banqueiro que jamais havia dançado com o
    marido. Jaime chamou para dançar uma senhora de meia-idade que era solteira.
    Marco Polo pôs-se a dançar com Dora. Anna tirou um amigo idoso de seu pai, de quem
    gostava muito. Os músicos ficaram eufóricos, mas o juiz do cerimonial quase teve um ataque
    cardíaco. Gritava:
    -Ainda não terminei o casamento! - mas ninguém o ouvia.
    Isaac não sabia dançar valsa. Ali Ramadan havia aprendido com Cláudia. Vendo o amigo
    deslocado, o próprio Ali tentou ensiná-lo. Sem receio de aprender, Isaac deu com o amigo os
    primeiros passos de dança. Foi a primeira vez na história que se teve notícia de que um palestino
    e um judeu dançaram juntos uma mesma valsa.
    De repente, apareceu o Dr. George na pista. Marco Polo alegrou-se intensamente ao ver seu
    ex-professor de anatomia. Depois que o "vendaval" Marco Polo passara por sua vida, ele tinha
    revisto seus valores e sua rigidez.
    Sua esposa o suportara com heroísmo, mas valeu a pena. O Dr. George aprendeu o caminho
    da afectividade. Tornou-se um homem dócil, gentil, sociável, que resgatou sua criança interior.
    Aprendeu a brincar com seus dois filhos. Na festa de aniversário deles vestia-se de palhaço para
    diverti-los.
    Fez também uma reviravolta na sala de anatomia. Sua primeira aula deixou de ser sobre
    técnicas de dissecação de vasos sanguíneos e músculos e passou a abordar a crise existencial e os
    sonhos dos futuros médicos. O mestre aprendeu a amar o debate de idéias e não a submissão.
    Mudou tanto que pedia para os alunos investigarem a história dos cadáveres que iriam estudar. Se
    não a encontrassem, deveriam imaginar uma história com sonhos, alegrias, perdas, desafios, para
    depois escrevê-la e afixá-la em cada mesa de anatomia em sinal de respeito às pessoas que ali
    estavam.
    O Dr. George montou uma associação chamada Um Ser Humano, Uma Fascinante História.
    Esta associação objectivava ensinar alunos de outras faculdades a descobrirem o valor da vida e
    saberem que para tornar-se um grande médico é necessário ser um explorador, um Marco Polo
    que descobre grandes histórias por trás dos anónimos.
    Em seguida, apareceu discretamente na pista o Dr. Flávio, o especialista em emergência. Ele
    agora era chefe do sector em seu hospital. Após Marco Polo cruzar a sua vida, entendeu que
    diante da dor e da morte não há gigantes nem heróis. Tornou-se preocupadíssimo com os conflitos
    que se escondem atrás das cefaléias, das dores musculares, das dores no peito, das
    taquicardias, das crises hipertensivas.
    O Dr. Flávio, movido pela sensibilidade, montou a associação Ser Humano Integral. Esta
    associação, constituída de médicos, psicólogos e psiquiatras, visava consciencializar, através de
    folhetos e palestras, os profissionais de saúde das salas de emergência de todos os hospitais do
    país para dialogarem com seus pacientes.
    Desejava treiná-los a ouvir com o coração e entenderem que tratavam de doentes e não de
    doenças, de seres humanos e não de órgãos. O sucesso deste treinamento diminuiu as
    internações, solucionou doenças e preveniu inúmeros suicídios.
    Sua esposa, grávida de seis meses, fez questão de ir ao casamento de Marco Polo. Queria
    agradecê-lo pelas mudanças em seu marido, embora Marco Polo soubesse que quem mudara de
    fato as suas rotas tinha sido o próprio Dr. Flávio. O progresso emocional do marido fez com que
    ela se sentisse a futura mamãe mais feliz do mundo.
    Eis que apareceu o Dr. Alexandre. Quando Marco Polo o viu dançando com sua esposa,
    diminuiu o ritmo e o cumprimentou afectivamente. O nobre professor entendera que, se um dos
    maiores gênios da humanidade, Einstein, foi vítima e também agente do preconceito, ninguém
    estaria livre deste mal.
    Fez então algumas pesquisas e detectou que muita gente ainda pensava que quem ia a um
    psiquiatra era louco. Com a ajuda de Marco Polo, montou uma associação denominada
    Preconceito Nunca Mais para diminuir o estigma social dos pacientes psiquiátricos e para elevar a
    auto-estima deles. Começou a mostrar que no fundo todo ser humano possui alguma doença
    psíquica, e a doença do preconceito é a pior delas.
    Apareceu por trás do casal de noivos, de um jeito suave, quase imperceptível, um homem bem resolvido,
    sereno, equilibrado, sábio, um artista da psiquiatria. Era o Dr. Antony. Ele e a esposa,
    com quem estava casado há mais de quarenta anos, dançavam como um casal de adolescentes.
    Os noivos pensaram: "Queremos envelhecer como eles", pois a maneira com que se olhavam
    revelava que eles tinham transformado a fase de menor força muscular na fase de maior força da
    emoção e da cumplicidade do amor.
    Depois que Marco Polo debatera naquele famoso congresso sobre a ditadura da hipótese da
    serotonina, sobre o confronto entre a psiquiatria e a psicologia e expusera sua complexa tese de
    que a psique humana coabita, coexiste e co-interfere com o cérebro, o Dr. Antony e vários
    professores ilustres de psiquiatria perderam noites de sono.
    Chamaram o jovem psiquiatra para montar uma sociedade científica destinada a estudar a
    última fronteira da ciência: a natureza da psique ou alma do Homo sapiens. Marco Polo, o Dr.
    Antony e seus amigos faziam reuniões do mais alto nível académico. Participar delas era como
    uma carícia na inteligência. Além disso, começaram a debater a possibilidade de a psiquiatria se
    tornar uma especialidade da psicologia e não apenas da medicina.
    De repente, saiu do lado esquerdo da multidão uma pessoa apressada. Pedia licença com
    insistência. Caminhava eufórico em direcção à pista de dança. Era o Dr. Mário. Ao vê-lo, Marco
    Polo parou de dançar. Abraçou prolongadamente ele e sua esposa.
    O Dr. Mário, numa atitude inusitada, beijou-lhe o rosto. Em seguida, o director do Hospital
    Atlântico tomou sua esposa nos braços e no centro da pista começou a mostrar seus dotes.
    Quando conheceu Marco Polo ele estava no terceiro casamento e em via de separação, mas,
    depois que o "furacão" Marco Polo passou pela sua história, as muralhas ruíram. Saiu do seu
    trono, deixou de ser um psiquiatra em casa, humanizou-se, tornou-se um cavalheiro.
    Seus três filhos, gerados nos dois primeiros casamentos, estavam fazendo psicoterapia. O Dr.
    Mário era especialista em criticá-los, apontar seus erros e ser um manual de regras, mas, após
    beber da fonte da espontaneidade e se tornar um dançarino na vida, começou a abraçá-los, beijá-los,
    cativá-los, ouvi-los.

  22. #202
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    Por Defeito Dois ultimos posts do livro

    Aprendeu a pedir desculpas, reconhecer suas falhas e ter coragem de dizer que os amava. Seus
    filhos ficaram simplesmente perplexos com ele. Descobriram afinal que tinham um pai-psiquiatra
    e não um psiquiatra-pai. Rapidamente evoluíram no tratamento. Deixaram, assim, de ser futuros
    hóspedes de um hospital psiquiátrico.
    O Dr. Mário deu um salto tão grande na compreensão da existência que começou a ministrar
    inúmeras conferências nacionais e internacionais, desestimulando a hospitalização na psiquiatria.
    Entendeu que a internação psiquiátrica causava rombos no inconsciente. Nos casos em que ela
    seria inevitável, os hospitais deveriam envolver os pacientes com dança, teatro, artes plásticas,
    levando-os a sentirem-se úteis. Contou com a ajuda de Dora e de outros psiquiatras. Cláudia era
    uma das mais ativas, e Isaac tornou-se o maior patrocinador desse protejo.
    Isaac e Ali Ramadan também se tornaram sonhadores. Tinham longas conversas com Marco
    Polo para saber como poderiam fazer para ajudar o povo palestino e judeu a superarem seus
    conflitos. Gemiam emocionalmente a cada ataque terrorista dos palestinos e a cada retaliação de
    Israel. Choravam não mais por suas doenças, mas pelos seus povos. "O hospital em que
    estávamos internados era um ambiente menos sofrível e perturbador do que alguns terrenos do
    Oriente Médio", pensavam.
    Sob a orientação de Marco Polo, entenderam que, infelizmente, a violência na Palestina matava
    fisicamente alguns e emocionalmente, milhões. Não havia vencedores nesse conflito, todos eram
    vítimas. Acreditavam que - se palestinos e judeus se convencessem de que não eram duas raças
    ou duas culturas em conflito, mas seres humanos da mesma espécie, com necessidades psíquicas
    semelhantes - grande parte das resistências e desconfianças mútuas seria debelada. Os três amigos
    batalhariam pela consciencialização e propagação desta idéia.
    A excepção de Isaac, a somatória dos recursos financeiros dos reaccionários amigos de Marco
    Polo que montaram programas para ajudar a sociedade era irrisória. O saldo era quase negativo.
    Alguns tinham carros financiados, outros, casas penhoradas, e ainda outros, dívidas nos bancos.
    Mas, apesar disso, fariam uma revolução social incomparavelmente maior do que a dos
    multimilionáriosna festa de Lúcio, cujo "PIB emocional" era um dos mais baixos deste belo
    planeta azul.
    Dois meses antes do seu casamento, Marco Polo falara para Anna e Falcão sobre algo que
    queimava em seu coração. O princípio da co-responsabilidade inevitável continuava controlando-o.
    Queria montar uma instituição chamada Ser Humano Sem Fronteiras para tratar dos conflitos
    sociais, dos confrontos raciais, da crise da educação, das misérias físicas e psíquicas.
    Além disso, queria fazer um movimento mundial para pressionar as indústrias farmacêuticas de
    medicamentos psicotrópicos para investir parte de seus lucros na prevenção de doenças
    psíquicas. Sofreria graves consequências por essa ousadia.
    Marco Polo achava que a solução para os graves conflitos humanos passava pela juventude e
    não pelos adultos. Todavia, entristecia-se em saber o que o capitalismo selvagem estava fazendo
    com o ser humano, em especial com as crianças de todas as sociedades modernas.
    Afligia-se ao tomar conhecimento de que na Inglaterra 78% das crianças a partir de dez anos
    tinham como passatempo predilecto ir às compras. Era o que demonstrava o Conselho Nacional
    do Consumo do país. Elas cresciam com uma ansiedade e insatisfação cronicas, porque não
    aprendiam a libertar sua criatividade e extrair prazer dos pequenos estímulos do ambiente. Na
    grande maioria dos países, a situação dos jovens era semelhante.
    Falcão e Marco Polo perturbavam-se com a fome física e emocional do terceiro milénio. A
    cada cinco segundos morria uma criança de fome no mundo, e a cada segundo assassinava-se a
    infância de uma criança pelo consumismo. Poucos se importavam contra esses dois gravíssimos
    crimes contra a humanidade.
    Os dois amigos rebeldes lutariam com todas as suas forças, até sua última gota de sangue, para
    que milhões de jovens de todas as raças, de todas as religiões, de todas as culturas, deixassem de
    ser servos de um sistema social que entorpece a mente, rouba-lhes a identidade e os transforma
    em meros clientes. Queriam que eles se engajassem no protejo Ser Humano Sem Fronteiras, se
    apaixonassem pela humanidade, criassem projectos mundiais para transformá-la.
    Para eles, os jovens deveriam actuar no palco da vida como actores principais e não morrer na
    plateia, subjugados por uma vida individualista, ilusória, auto-destrutiva, dependente, encarcerada
    pela rotina e amordaçada pelos padrões doentios de beleza.
    Marco Polo tinha falhas, precipitações, momentos de ansiedade, mas conviver com ele era um
    convite para andar em solos nunca antes percorridos. Faria da sua história uma grande odisseia,
    tão excitante como a de Marco Polo no século XIII. Iria envolver-se em grandiosas confusões,
    abalaria alguns pilares da sociedade, sofreria perseguições implacáveis. Mas não mudaria seu jeito
    de ser, nem mesmo deixaria de abraçar árvores e falar com as flores.
    O relacionamento com Anna arrebatou ainda mais sua coragem. Jamais se viu um casal tão
    louco por aventuras. O tumulto na festa do seu casamento era um reflexo da vida que teriam. A
    desordem era tão grande que havia risco de o casamento não se realizar.
    Marco Polo alegrou-se em ver seus amigos reunidos sem receio da vida. Aprendera com todos
    eles. Para delírio de Lúcio Fernández, não apenas os amigos de Marco Polo quebraram o
    protocolo. Alguns casais, incluindo empresários, deputados, senadores e até um ministro, deixaram
    de ser espectadores e entraram na pista de dança.
    A maioria das autoridades, dos empresários e das celebridades, no entanto, ficou irritadíssima
    com Lúcio, pois tinham vindo fazer contactos políticos e sociais, mas encontraram um bando de
    lunáticos. Amarraram a cara, curtiram o velho mau humor.
    Havia outros psiquiatras presentes. Alguns acharam que estava havendo um delírio colectivo.
    Outros se soltaram, não fizeram exigências para se relaxar, deram oportunidade ao prazer.
    Lúcio começou a ter crises histéricas. Esfregava as mãos repetidamente no rosto, rangia os
    dentes, seus lábios tremiam. Tornou-se um sério candidato ao Hospital Atlântico. Olhou para o
    secretário, seu guardião, e repetiu:
    - Rapte minha filha, leve-a embora deste local ou vai haver um segundo suicídio na família!
    - Você está maluco, Lúcio!
    - Quinhentos mil dólares pelo serviço! - disse sem titubear.
    - Quanto?
    O secretário vacilou. Nisso um casal o atropelou, enquanto dançava. O assunto ficou
    momentaneamente truncado.
    Nunca mais houve um episódio chocante como aquele. O juiz do cerimonial, de meia-idade, já
    fizera o casamento de muitas pessoas, mas por insegurança nunca se casara. Durante o
    conturbado casamento ainda não concretizado, pensou, perplexo: "É melhor não se arriscar."
    Foi um evento irreverente, de uma jovem que se encantou com um vendedor de sonhos que
    contagiou pessoas mutiladas que reconstituíram suas vidas e que, apesar de todas as suas
    limitações, aprenderam a dançar a valsa da vida com a mente livre, sem medo de ser o que são e
    sem medo do amanhã.
    Não foi um final feliz, foi uma vírgula feliz, pois esta história, assim como a vida, não tem um
    ponto final, é um eterno recomeço. A felicidade teria de continuar a ser reconstruída, pois ainda
    chorariam, atravessariam perdas, desafios, ansiedades e incompreensões.
    A certa altura, Marco Polo, Falcão, Anna, o Dr. Mário, o Dr. Antony e outros amigos fizeram
    uma roda no meio do salão e começaram a girar com emoção. Giraram, giraram e giraram.
    Enquanto giravam, observavam atentamente o rosto dos espectadores e percebiam que, para a
    maioria das pessoas, a sociedade moderna se tornava cada vez mais um grande hospital
    psiquiátrico ou uma sociedade de mendigos que não abandonaram seus lares, mas abandonaram
    a si mesmos. De pessoas que, às vezes, têm mesa farta, mas mendigam o pão do prazer, da
    tranquilidadee da sabedoria.
    Para outros, no entanto, o mundo se tornava uma escola, ou um circo, ou um terreno de
    aventuras, ou uma pista de dança, ou uma mescla de tudo isso. Marco Polo e seus amigos não
    sabiam onde as pessoas, incluindo eles, se localizariam no futuro da humanidade.
    Só sabiam que essa localização dependeria da coragem de cada um em caminhar nas trajectórias
    do seu próprio ser, abrir as janelas da sua inteligência, repensar sua história e fazer livremente
    suas escolhas.
    Quando deixaram de girar, gritaram em coro para eles mesmos e para a plateia: "Bem-vindos
    ao futuro!..."

    Fim

  23. #203
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    Por Defeito

    Podem-se sugestões de leitura.
    Estou a pensar postar os Lusíadas!...
    Que acham?

    Fico á espera.

  24. #204
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    José Saramago
    Caim
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  25. #205
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    Por Defeito Caim

    A Pilar, como se dissesse água.
    Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala.
    (Hebreus, 11, 4) LIVRO DOS DISPARATES
    Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu- se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama.
    Set, o filho terceiro da família, só virá ao mundo cento e trinta anos depois, não porque a gravidez materna precisasse de tanto tempo para rematar a fabricação de um novo descendente, mas porque as gónadas do pai e da mãe, os testículos e o útero respectivamente, haviam tardado mais de um século a amadurecer e a desenvolver suficiente potência generativa. Há que dizer aos apressados que o fiat foi uma vez e nunca mais, que um homem e uma mulher não são máquinas de encher chouriços, as hormonas são coisa muito complicada, não se produzem assim do pé para a mão, não se encontram nas farmácias nem nos supermercados, há que dar tempo ao tempo. Antes de set tinham vindo ao mundo, com escassa diferença de tempo entre eles, primeiro Caim e depois Abel. O que não pode ser deixado sem imediata referência é o profundo aborrecimento que foram tantos anos sem vizinhos, sem distracções, sem uma criança gatinhando entre a cozinha e o salão, sem outras visitas que as do senhor, e mesmo
    essas pouquíssimas e breves, espaçadas por longos períodos de ausência, dez, quinze, vinte, cinquenta anos, imaginamos que pouco haverá faltado para que os solitários ocupantes do paraíso terrestre se vissem a si mesmos como uns pobres órfãos abandonados na floresta do universo, ainda que não tivessem sido capazes de explicar o que fosse isso de órfãos e abandonos. É verdade que dia sim, dia não, e este não com altíssima frequência também sim, adão dizia a eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa. Por fora, salvo alguns pozinhos que vão escorrendo aqui e ali de minúsculos orifícios, o atentado mal se percebe, mas lá por dentro a procissão é outra, não tardará muito que venha por aí abaixo o que tão firme havia parecido. Em situações como esta, há quem defenda que o nascimento de um filho pode ter efeitos reanimadores, senão da libido, que é obra de químicas muito mais complexas que aprender a mudar uma fralda, ao menos dos sentimentos, o que, reconheça- se, já não é pequeno ganho. Quanto ao senhor e às suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se adão e eva haviam tido problemas com a instalação doméstica, a segunda para saber se tinham beneficiado alguma coisa da experiência da vida campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraísos existentes no espaço celeste. De facto, só viria a aparecer muito mais tarde, em data de que não ficou registo, para expulsar o infeliz casal do jardim do éden pelo crime nefando de terem comido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Este episódio, que deu origem à primeira definição de um até aí ignorado pecado original, nunca ficou bem explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer dificuldade em compreender que estar informado sempre será preferível a desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar. Em segundo lugar, brada aos céus a imprevidência do senhor, que se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado. E, em terceiro lugar, não foi por terem desobedecido à ordem de deus que adão e eva descobriram que estavam nus. Nuzinhos, em pelota estreme, já eles andavam quando iam para a cama, e se o senhor nunca havia reparado em tão evidente falta de pudor, a culpa era da sua cegueira de progenitor, a tal, pelos vistos incurável, que nos impede de ver que os nossos filhos, no fim de contas, são tão bons ou tão maus como os demais.
    Ponto de ordem à mesa. Antes de prosseguirmos com esta instrutiva e definitiva história de Caim a que, com nunca visto atrevimento, metemos ombros, talvez seja aconselhável, para que o leitor não se veja confundido por segunda vez com anacrónicos pesos e medidas, introduzir algum critério na cronologia dos acontecimentos. Assim faremos, pois, começando por esclarecer alguma maliciosa dúvida por aí levantada sobre se adão ainda seria competente para fazer um filho aos cento e trinta anos de idade. À primeira vista, não, se nos ativermos apenas aos índices de fertilidade dos tempos modernos, mas esses cento e trinta anos, naquela infância do mundo, pouco mais teriam representado que uma simples e vigorosa adolescência que até o mais precoce dos casanovas desejaria para si. Além disso, convém lembrar que adão viveu até aos novecentos e trinta anos, pouco lhe faltando, portanto, para morrer afogado no dilúvio universal, pois finou-se em dias da vida de lamec, o pai de noé, futuro construtor da arca. Logo, teve tempo e vagar para fazer os filhos que fez e muitos mais se estivesse para aí virado. Como já dissemos, o segundo, o que viria depois de Caim, foi Abel, um moço aloirado, de boa figura, que, depois de ter sido objecto das melhores provas de
    estima do senhor, acabou da pior forma. Ao terceiro, como também ficou dito, chamaram-lhe set, mas esse não entrará na narrativa que vamos compondo passo a passo com melindres de historiador, por isso aqui o deixamos, só um nome e nada mais. Há quem afirme que foi na cabeça dele que nasceu a ideia de criar uma religião, mas desses delicados assuntos já nos ocupámos avonde no passado, com recriminável ligeireza na opinião de alguns peritos, e em termos que muito provavelmente só virão a prejudicar-nos nas alegações do juízo final quando, quer por excesso quer por defeito, todas as almas forem condenadas. Agora somente nos interessa a família de que o papá adão é cabeça, e que má cabeça foi ela, pois não vemos como chamar-lhe doutra maneira, já que bastou trazer-lhe a mulher o proibido fruto do conhecimento do bem e do mal para que o inconsequente primeiro dos patriarcas, depois de se fazer rogado, em verdade mais por comprazer consigo mesmo que por real convicção, se tivesse engasgado com ele, deixando-nos a nós, homens, para sempre marcados por esse irritante pedaço de maçã que não sobe nem desce. Também não falta quem diga que se adão não chegou a engolir de todo o fruto fatal foi porque o senhor lhes apareceu de repente a querer saber o que se tinha passado ali. Já agora, e antes que se nos esqueça de vez ou o prosseguimento do relato venha a tornar inadequada, por tardia, a referência, revelaremos a visita sigilosa, meio clandestina, que o senhor fez ao jardim do éden numa cálida noite de verão. Como de costume, adão e eva dormiam nus, um ao lado do outro, sem tocar-se, imagem edificante mas enganadora da mais perfeita das inocências. Não despertaram eles e o senhor não os despertou. O que ali o tinha levado fora o propósito de emendar uma imperfeição de fabrico que, finalmente o percebera, desfeava seriamente as suas criaturas, e que era, imagine-se, a falta de um umbigo.

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  26. #206
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    Por Defeito

    A superfície esbranquiçada da pele dos seus bebés, que o suave sol do paraíso não conseguira tostar, mostrava-se demasiado nua, demasiado oferecida, de certo modo obscena, se a palavra já existisse então. Sem detença, não fossem eles acordar, deus estendeu o braço e, levemente, premiu com a ponta do dedo indicador o ventre de adão, logo fez um rápido movimento de rotação e o umbigo apareceu. A mesma operação, praticada a seguir em eva, deu resultados similares, ainda que com a importante diferença de o umbigo dela ter saído bastante melhorado no que toca a desenho, contornos e delicadeza de pregas. Foi esta a última vez que o senhor olhou uma obra sua e achou que estava bem.
    Cinquenta anos e um dia depois desta afortunada intervenção cirúrgica com a qual se iniciaria uma nova era na estética do corpo humano sob o lema consensual de que tudo nele é melhorável, deu-se a catástrofe. Anunciado por um estrondo de trovão, o senhor fez-se presente. Vinha trajado de maneira diferente da habitual, segundo aquilo que seria, talvez, a nova moda imperial do céu, com uma coroa tripla na cabeça e empunhando o ceptro como um cacete. Eu sou o senhor, gritou, eu sou aquele que é. O jardim do éden caiu em silêncio mortal, não se ouvia nem o zumbido de uma vespa, nem o ladrar de um cão, nem um pio de ave, nem um bramido de elefante. Apenas uma bandada de estorninhos que se havia acomodado numa oliveira frondosa que vinha dos tempos da fundação do jardim levantou voo num só impulso, e eram centenas, para não dizer milhares, que quase obscureceram o céu. Quem desobedeceu às minhas ordens, quem foi pelo fruto da minha árvore, perguntou deus, dirigindo directamente a adão um olhar coruscante, palavra desusada mas expressiva como as que mais o forem. Desesperado, o pobre homem tentou, sem resultado, tragar o bocado de maçã que o delatava, mas a voz não lhe saiu, nem para trás nem para diante. Responde, tornou a voz colérica do senhor, ao mesmo tempo que brandia ameaçadoramente o ceptro. Fazendo das tripas coração, consciente do feio que era pôr as culpas em outrem, adão disse, A mulher que tu me deste para viver comigo é que me deu do fruto dessa árvore e eu comi. Revolveu-se o senhor contra a mulher e perguntou, Que fizeste tu, desgraçada, e
    ela respondeu, A serpente enganou-me e eu comi, Falsa, mentirosa, não há serpentes no paraíso, Senhor, eu não disse que haja serpentes no paraíso, mas digo sim que tive um sonho em que me apareceu uma serpente, e ela disse-me, Com que então o senhor proibiu-vos de comerem do fruto de todas as árvores do jardim, e eu respondi que não era verdade, que só não podíamos comer do fruto da árvore que está no meio do paraíso e que morreríamos se tocássemos nele, As serpentes não falam, quando muito silvam, disse o senhor, A do meu sonho falou, E que mais disse ela, pode-se saber, perguntou o senhor, esforçando-se por imprimir às palavras um tom escarninho nada de acordo com a dignidade celestial da indumentária, A serpente disse que não teríamos que morrer, Ah, sim, a ironia do senhor era cada vez mais evidente, pelos vistos, essa serpente julga saber mais do que eu, Foi o que eu sonhei, senhor, que não querias que comêssemos do fruto porque abriríamos os olhos e ficaríamos a conhecer o mal e o bem como tu os conheces, senhor, E que fizeste, mulher perdida, mulher leviana, quando despertaste de tão bonito sonho, Fui à árvore, comi do fruto e levei-o a adão, que comeu também, Ficou-me aqui, disse adão, tocando na garganta, Muito bem, disse o senhor, já que assim o quiseram, assim o vão ter, a partir de agora acabou-se-lhes a boa vida, tu, eva, não só sofrerás todos os incómodos da gravidez, incluindo os enjoos, como parirás com dores, e não obstante sentirás atracção pelo teu homem, e ele mandará em ti, Pobre eva, começas mal, triste destino vai ser o teu, disse eva, Devias tê-lo pensado antes, e quanto à tua pessoa, adão, a terra ficou amaldiçoada por tua causa, e será com grande sacrifício que dela conseguirás tirar alimento durante toda a tua vida, só produzirá espinhos e cardos, e tu terás de comer a erva que cresce no campo, só à custa de muitas bagas de suor conseguirás arranjar o necessário para comer, até que um dia te venhas a transformar de novo em terra, pois dela foste formado, na verdade, mísero adão, tu és pó e ao pó um dia tornarás. Dito isto, o senhor fez aparecer umas quantas peles de animais para tapar a nudez de adão e eva, os quais piscaram os olhos um ao outro em sinal de cumplicidade, pois desde o primeiro dia souberam que estavam nus e disso bem se haviam aproveitado. Disse então o senhor, Tendo conhecido o bem e o mal, o homem tornou-se semelhante a um deus, agora só me faltaria que fosses colher também do fruto da árvore da vida para dele comeres e viveres para sempre, não faltaria mais, dois deuses num universo, por isso te expulso a ti e a tua mulher deste jardim do éden, a cuja porta colocarei de guarda um querubim armado com uma espada de fogo, o qual não deixará entrar ninguém, e agora vão- se embora, saiam daqui, não vos quero ver nunca mais na minha frente. Carregando sobre os ombros as fedorentas peles, bamboleando-se sobre as pernas trôpegas, adão e eva pareciam dois orangotangos que pela primeira vez se tivessem posto de pé. Fora do jardim do éden a terra era árida, inóspita, o senhor não tinha exagerado quando ameaçou adão com espinhos e cardos. Tal como também havia dito, acabara-se a boa vida.
    A sua primeira morada foi uma estreita caverna, em verdade mais cavidade que caverna, de tecto baixo, descoberta num afloramento rochoso ao norte do jardim do éden quando, desesperados, vagueavam à procura de um abrigo. Ali puderam, finalmente, defender-se da queimação brutal de um sol que em nada se parecia com aquela invariável benignidade de temperatura a que estavam habituados, constante de noite e de dia, e em qualquer época do ano. Abandonaram as grossas peles que os sufocavam de calor e mau cheiro, e regressaram à primeira nudez, mas, para proteger de agressões exteriores as partes delicadas do corpo, as que andam só mais ou menos resguardadas entre as pernas, inventaram, utilizando as peles mais finas e de pêlo mais curto, aquilo a que mais tarde virá a chamar-se saia, idêntica na forma tanto para as mulheres como para os homens. Nos
    primeiros dias, sem terem ao menos uma côdea para mastigar, passaram fome. O jardim do éden era ubérrimo em frutos, aliás não se encontrava lá outra coisa de proveito, até aqueles animais que, por natureza, deveriam alimentar-se de carne sangrenta, pois para carnívoros vieram ao mundo, haviam sido, por imposição divina, submetidos à mesma melancólica e insatisfatória dieta. O que não se sabia era donde tinham vindo as peles que o senhor fizera aparecer com um simples estalar de dedos, como um prestidigitador. De animais eram, e grandes, mas vá lá saber-se quem os teria matado e esfolado, e onde. Casualmente, havia água por ali perto, porém não era mais que um regato turvo, em nada parecido com o rio caudaloso que nascia no jardim do éden e depois se dividia em quatro braços, um que ia regar uma região onde se dizia que o ouro abundava e outro que rodeava a terra de cuche. Os dois restantes, por mais extraordinário que pareça aos leitores de hoje, foram logo baptizados com os nomes de tigre e eufrates. Perante o humilde riacho que laboriosamente ia abrindo caminho entre os espinhos e os cardos do deserto, o mais provável foi ter sido o tal rio caudaloso uma ilusão de óptica fabricada pelo próprio senhor para tornar mais aprazível a vida no paraíso terrenal. Tudo pode acontecer. Tudo pode acontecer, sim, até a insólita ideia de eva de ir pedir ao querubim que lhe permitisse entrar no jardim do éden e colher alguma fruta que lhes aguentasse a fome por uns dias mais. Céptico, como qualquer homem, quanto aos resultados de uma diligência nascida em cabeça feminina, adão disse-lhe que fosse ela sozinha e que se preparasse para sofrer uma decepção, Está lá aquele querubim de sentinela à porta com a sua espada de fogo, não é um anjo qualquer, de segunda ou terceira categoria, sem peso nem autoridade, mas um querubim dos autênticos, como quererás tu que ele vá desobedecer às ordens que o senhor lhe deu, esta foi a sensata pergunta, Não sei, e não vou saber enquanto não o intentar, E se não conseguires, Se não conseguir, não terei perdido mais que os passos para lá e para cá, e as palavras que lhe disser, respondeu ela, Pois sim, mas iremos ter problemas se o querubim nos for denunciar ao senhor, Mais problemas que estes que temos agora, sem modo de ganhar a vida, sem comida para levar à boca, sem um tecto seguro nem roupas dignas desse nome, não vejo que problemas nos possam advir mais, o senhor já nos castigou expulsando-nos do jardim do éden, pior do que isto não imagino o que poderá ser, Sobre o que o senhor possa ou não possa, não sabemos nada, Se é assim, teremos de o forçar a explicar-se, e a primeira coisa que deverá dizer-nos é a razão por que nos fez e com que fim, Estás louca, Melhor louca que medrosa, Não me faltes ao respeito, gritou adão, enfurecido, eu não tenho medo, não sou medroso, Eu também não, portanto estamos quites, não há mais que discutir, Sim, mas não te esqueças de que quem manda aqui sou eu, Sim, foi o que o senhor disse, concordou eva, e fez cara de quem não havia dito nada. Quando o sol perdeu alguma da força, meteu-se ao caminho com a sua saia bem posta e uma pele das mais leves por cima dos ombros. Ia, como alguém dirá, decentezinha, embora não pudesse evitar que os seios, soltos, sem amparo, se movessem ao ritmo dos passos.
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  27. #207
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    Não podia impedi-los, nem em tal pensou, não havia por ali ninguém a quem eles pudessem atrair, nesse tempo as tetas serviam para mamar e pouco mais. Estava surpreendida consigo mesma, com a liberdade com que tinha respondido ao marido, sem temor, sem ter de escolher as palavras, dizendo simplesmente o que, na sua opinião, o caso justificava. Era como se dentro de si habitasse uma outra mulher, com nula dependência do senhor ou de um esposo por ele designado, uma fêmea que decidira, finalmente, fazer uso total da língua e da linguagem que o dito senhor, por assim dizer, lhe havia metido pela boca abaixo. Atravessou o riacho gozando a frescura da água que parecia difundir-se-lhe por dentro das veias ao mesmo tempo que experimentava algo no espírito que talvez fosse a felicidade, pelo menos parecia-se muito com a palavra. O estômago deu-lhe um estorcegão, não era hora
    para desfrutar de sentimentos positivos. Saiu da água, foi colher umas bagas ácidas que, ainda que não alimentassem, iludiam por algum tempo, pouco, a necessidade de comer. O jardim do éden já está perto, vêem-se distintamente as copas das árvores mais altas. Eva caminha mais lentamente que antes, e não é porque se sinta cansada. Adão, se aqui estivesse, de certeza se riria dela, Tão valente, tão valente, e afinal vais aí cheia de medo. Sim, tinha medo, medo de falhar, medo de não ter palavras suficientes para convencer o guarda, chegou mesmo a dizer em voz baixa, tal era o seu desânimo, Se eu fosse homem seria mais fácil. Aí está o querubim, a espada de fogo brilha com uma luz maligna na sua mão direita. Eva cobriu melhor o peito e avançou. Que queres, perguntou o anjo, Tenho fome, respondeu a mulher, Não há aqui nada que possas comer, Tenho fome, insistiu ela, Tu e o teu marido fostes expulsos do jardim do éden pelo senhor e a sentença não tem apelo, retira-te, Matas-me se eu quiser entrar, perguntou eva, Para isso me pôs o senhor de guarda, Não respondeste à minha pergunta, A ordem que tenho é essa, Matar-me, Sim, Portanto, obedecerás à ordem. O querubim não respondeu. Moveu o braço em cuja mão a espada de fogo silvava como uma serpente. Foi a sua resposta. Eva deu um passo em frente. Detém-te, disse o querubim, Terás de matar-me, não me deterei, e deu outro passo, ficarás aqui a guardar um pomar de fruta apodrecida que a ninguém apetecerá, o pomar de deus, o pomar do senhor, acrescentou. Que queres, perguntou outra vez o querubim, que pareceu não perceber que a reiteração iria ser interpretada como um sinal de fraqueza, Repito, tenho fome, Pensei que já estaríeis longe, E aonde iríamos nós, perguntou eva, estamos no meio de um deserto que não conhecemos e onde não se vê um caminho, um deserto onde durante estes dias não passou uma alma viva, dormimos num buraco, comemos ervas, como o senhor prometeu, e temos diarreias, Diarreias, que é isso, perguntou o querubim, Também se lhes pode chamar caganeiras, o vocabulario que o senhor nos ensinou dá para tudo, ter diarreia, ou caganeira, se gostares mais desta palavra, significa que não consegues reter a ***** que levas dentro de ti, Não sei o que isso é, Vantagem de ser anjo, disse eva, e sorriu. O querubim gostou de ver aquele sorriso. No céu também se sorria muito, mas sempre seráficamente e com uma ligeira expressão de contrariedade, como quem pede desculpa por estar contente, se àquilo se podia chamar contentamento. Eva tinha vencido a batalha dialéctica, agora só faltava a da comida. Disse o querubim, Vou trazer-te alguns frutos, mas tu não o digas a ninguém, A minha boca não se abrirá, em todo o caso o meu marido vai ter de saber, Volta com ele amanhã, temos que conversar. Eva retirou a pele de cima dos ombros e disse, Usa isto para trazeres a fruta. Estava nua da cintura para cima. A espada silvou com mais força como se tivesse recebido um súbito afluxo de energia, a mesma energia que levou o querubim a dar um passo em frente, a mesma que o fez erguer a mão esquerda e tocar no seio da mulher. Nada mais sucedeu, nada mais podia suceder, os anjos, enquanto o sejam, estão proibidos de qualquer comércio carnal, só os anjos que caíram são livres de juntar-se a quem queiram e a quem os queira. Eva sorriu, pôs a mão sobre a mão do querubim e premiu-a suavemente contra o seio. O seu corpo estava coberto de sujidade, as unhas negras como se as tivesse usado para cavar a terra, o cabelo como um ninho de enguias entrelaçadas, mas era uma mulher, a única. O anjo havia entrado no jardim, demorou-se lá o tempo necessário para escolher os frutos mais nutrientes, outros ricos em água, e voltou ajoujado sob uma boa carga. Aqui tens, disse, e eva perguntou, Como te chamam, e ele respondeu, O meu nome é azael, Obrigada pela fruta, azael, Não podia deixar morrer de fome aqueles que o senhor criou, O senhor to agradecerá, mas o melhor é que não lhe fales disto. O querubim pareceu não ter ouvido, ou não ouviu mesmo, ocupado como estava a ajudar eva a pôr a recheada pele às costas, enquanto
    dizia, Amanhã voltas com adão, falaremos de algumas coisas que vos convém conhecer, Aqui estaremos, respondeu ela.
    No dia seguinte, adão acompanhou a mulher ao jardim do éden. Por ideia dela lavaram-se o melhor que puderam no riacho e o melhor que puderam foi pouquíssimo, para não dizer nada, porque água sem sabão que lhe dê uma ajuda não passa de uma pobre ilusão de limpeza. Sentaram-se no chão e logo ali se viu que o querubim azael não era pessoa para perder tempo, Não sois os únicos seres humanos que existem na terra, começou, Que não somos os únicos, exclamou adão, estupefacto, Não me faças repetir o que já está dito, Quem foi que criou esses seres, onde estão, Em toda a parte, Foi o senhor que os criou como nos criou a nós, perguntou eva, Não posso responder, e se insistem com a pergunta a nossa conversação acaba agora mesmo, cada um ao que lhe competia, eu à guarda do jardim do éden, vós à vossa gruta e à vossa fome, Nesse caso, em pouco tempo morreremos, disse adão, a mim ninguém me ensinou a trabalhar, não posso cavar nem lavrar a terra porque me faltam a enxada e o arado, e se os tivesse seria preciso aprender a manejá-los e não haveria quem mo ensinasse neste deserto, afinal melhor estaríamos com o pó que éramos antes, sem vontade nem desejo, Falaste como um livro aberto, disse o querubim, e adão ficou contente por ter falado como um livro aberto, ele que nunca havia feito estudos. Depois eva perguntou, Se já existiam outros seres humanos, para que foi então que nos criou o senhor, Já deveis saber que os desígnios do senhor são inescrutáveis, mas, se bem entendi alguma meia palavra, tratou-se de um experimento, Um experimento, nós, exclamou adão, um experimento, para quê, Do que não conheço de ciência certa não ousaria falar, o senhor lá terá as suas razões para guardar silêncio sobre o assunto, Nós não somos um assunto, somos duas pessoas que não sabem como poderão viver, disse eva, Ainda não terminei, disse o querubim, Fala então, e que da tua boca saia uma boa notícia, ao menos uma que seja, Ouçam, não demasiado afastado daqui passa um caminho frequentado de vez em quando por caravanas que vão aos mercados ou que deles regressam, a minha ideia é que deveriam acender uma fogueira que produzisse fumo, muito fumo, de modo a poder ser visto de longe, Não temos com que acendê-la, interrompeu eva, Tu não tens, mas eu, sim, O quê, Esta espada de fogo, para alguma coisa servirá finalmente, basta chegar-lhe a ponta em brasa aos cardos secos e à palha e tereis aí uma fogueira capaz de ser vista desde a lua, quanto mais de uma caravana que passa à distância, com o que deverão ter cuidado é em não deixar que o fogo alastre, uma coisa é uma fogueira, outra um deserto inteiro a arder, acabaria por pegar ao jardim do éden, e eu ficaria sem emprego, E se as pessoas não aparecerem, perguntou eva, Ai aparecem, aparecem, podes ficar tranquila, respondeu azael, os seres humanos são curiosos por natureza, esses irão querer saber quem ateou aquela fogueira e com que intenção o fez, E depois, perguntou adão, Depois é convosco, aí já não posso nada, arranjem maneira de se juntarem à caravana, peçam que os contratem só pela comida, estou convencido de que quatro braços por um prato de lentilhas será bom negócio para todos, tanto para a parte contratante como para a parte contratada, quando isso acontecer não se esqueçam de apagar a fogueira, assim saberei que já se foram, será a tua oportunidade de aprenderes o que não sabes, adão. O plano era excelente, há querubins no mundo que são uma autêntica providência, enquanto o senhor, pelo menos neste experimento, não se preocupou nada com o futuro das suas criaturas, azael, o guarda angélico encarregado de as manter afastadas do jardim do éden, acolheu-as cristãmente, garantiu-lhes a comida e, sobretudo, habilitou-as para a vida com algumas preciosas ideias práticas, um verdadeiro caminho de salvação do corpo, e portanto da alma. O casal desfez- se em mostras de gratidão, eva chegou mesmo a derramar algumas lágrimas quando se abraçou a azael, demonstração afectiva nada do agrado do marido, que mais adiante não conseguiu reprimir a pergunta
    que andava a saltar-lhe na boca, Deste-lhe alguma coisa em troca, Que coisa e a quem, isto disse eva, sabendo muito bem a que se referia o esposo, A quem havia de ser, a ele, a azael, disse adão omitindo por cautela a primeira parte da questão, É um querubim, um anjo, respondeu eva, e mais não achou necessário dizer.
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  28. #208
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    Crê-se que foi neste dia que começou a guerra dos sexos. A caravana tardou três semanas a aparecer. Claro que não veio toda ela à caverna em que adão e eva viviam, só uma guarda avançada de três homens que não tinham autoridade para negociar contratos de trabalho, mas que se apiedaram daqueles desvalidos e lhes deram lugar nos lombos dos burros em que vinham montados. O chefe da caravana decidiria que fazer com eles. Apesar desta dúvida, como quem fecha uma porta à despedida, adão apagou a fogueira. Quando o último fumo se dissipou na atmosfera, o querubim disse, Já lá vão, boa viagem.
    A vida não lhes correu mal. Foram aceites na caravana apesar da sua evidente inabilidade laboral e não tiveram de dar demasiadas explicações sobre quem eram e de onde tinham vindo. Que se tinham perdido, disseram, e, em última instância, realmente assim era. Tirando o facto de serem filhos do senhor, obra directamente saída das suas divinas mãos, circunstância esta que ninguém ali estava em condições de conhecer, não se notavam especiais diferenças fisionómicas entre eles e os seus providenciais hospedeiros, dir-se-ia até que pertenciam todos à mesma raça, cabelos pretos, pele morena, olhos escuros, sobrancelhas acentuadas. Quando Abelnascer, todos os vizinhos irão estranhar a rosada brancura com que veio ao mundo, como se fosse filho de um anjo, ou de um arcanjo, ou de um querubim, salvo seja. O prato de lentilhas nunca faltou e não tardou muito para que adão e eva começassem a cobrar uma soldada, coisa pequena, quase simbólica, mas que já representava um começo de vida. Não só adão, mas também eva, que não nascera para duquesa, foram sendo iniciados a pouco e pouco nos mistérios do trabalho das mãos, em operações tão simples como a de fazer um nó corredio numa corda ou tão complexas como manejar uma agulha sem picar demasiado os dedos. Quando a caravana chegou à povoação donde havia saído semanas antes para fazer comércio emprestaram-lhes uma tenda e umas esteiras onde dormissem, e foi graças a essa e outras temporadas de estabilidade de vida que adão pôde, enfim, aprender a cavar e a lavrar a terra, a lançar sementes ao rego, até chegar à sublime arte da poda, essa que nenhum senhor, nenhum deus havia sido capaz de inventar. Começou por trabalhar com ferramentas que lhe emprestavam, depois foi juntando os seus próprios aprestos e ao cabo de uns poucos anos já era considerado pelos vizinhos como um bom agricultor. Os tempos do jardim do éden e da caverna no deserto, os espinhos e os cardos, o riacho de águas turvas, foram-se esfumando na memória até aparecerem algumas vezes como gratuitos inventos não vividos, nem sequer sonhados, mas intuídos como algo que teria sido outra vida, outro ser, outro diferente destino. É certo que nas recordações de eva havia um lugar reservado para azael, o querubim que tinha infringido as ordens do senhor para salvar de morte certa as suas obras, mas esse era um segredo seu, a ninguém confiado. E houve o dia em que adão pôde comprar um pedaço de terra, chamar-lhe sua e levantar, encostada a uma colina, uma casa de toscos adobes, aí onde já poderiam nascer os seus três filhos, Caim, Abele set, todos eles, no momento próprio das suas vidas, gatinhando entre a cozinha e o salão. E também entre a cozinha e o campo, porque os dois mais velhos, quando já cresciditos, com a ingénua astúcia da sua pouca idade, usavam de todos os pretextos válidos e menos válidos para que o pai os levasse consigo, montados no burro da família, para o seu local de trabalho. Cedo se viu que as vocações dos dois pequenos não coincidiam. Enquanto Abelpreferia a companhia das ovelhas e dos cordeiros, as alegrias de Caim iam todas para as enxadas, as forquilhas e as gadanhas, um, fadado para abrir caminho na pecuária, outro, para singrar na agricultura. Há que reconhecer que a distribuição da mão-de—obra doméstica
    era absolutamente satisfatória, uma vez que cobria por inteiro os dois mais importantes sectores da economia da época. Era voz unânime, entre os vizinhos, que aquela família tinha futuro. E ia tê-lo, como em pouco tempo se haveria de ver, com a sempre indispensável ajuda do senhor, que para isso está. Desde a mais tenra infância Caim e Abelhaviam sido os melhores amigos, a um ponto tal que nem irmãos pareciam, aonde ia um, o outro ia também, e tudo faziam de comum acordo. O senhor os quis, o senhor os juntou, assim diziam na aldeia as mães ciumentas, e parecia certo. Até que um dia o futuro entendeu que já era hora de se apresentar. Abel tinha o seu gado, Caim o seu agro, e, como mandavam a tradição e a obrigação religiosa, ofereceram ao senhor as primícias do seu trabalho, queimando Abela delicada carne de um cordeiro e Caim os produtos da terra, umas quantas espigas e sementes. Sucedeu então algo até hoje inexplicado. O fumo da carne oferecida por Abelsubiu a direito até desaparecer no espaço infinito, sinal de que o senhor aceitava o sacrifício e nele se comprazia, mas o fumo dos vegetais de Caim, cultivados com um amor pelo menos igual, não foi longe, dispersou-se logo ali, a pouca altura do solo, o que significava que o senhor o rejeitava sem qualquer contemplação. Inquieto, perplexo, Caim propôs a Abelque trocassem de lugar, podia ser que houvesse ali uma corrente de ar que fosse a causa do distúrbio, e assim fizeram, mas o resultado foi o mesmo. Estava claro, o senhor desdenhava Caim. Foi então que o verdadeiro carácter de Abelveio ao de cima. Em lugar de se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele, e, como se isto ainda fosse pouco, desatou a enaltecer a sua própria pessoa, proclamando-se, perante o atónito e desconcertado Caim, como um favorito do senhor, como um eleito de deus. O infeliz Caim não teve outro remédio que engolir a afronta e voltar ao trabalho. A cena repetiu-se, invariável, durante uma semana, sempre um fumo que subia, sempre um fumo que podia tocar-se com a mão e logo se desfazia no ar. E sempre a falta de piedade de Abel, os dichotes de Abel, o desprezo de Abel. Um dia Caim pediu ao irmão que o acompanhasse a um vale próximo onde era voz corrente que se acoitava uma raposa e ali, com as suas próprias mãos, o matou a golpes de uma queixada de jumento que havia escondido antes num silvado, portanto com aleivosa pre-meditacão. Foi nesse exacto momento, isto é, atrasada em relação aos acontecimentos, que a voz do senhor soou, e não só soou ela como apareceu ele. Tanto tempo sem dar notícias, e agora aqui estava, vestido como quando expulsou do jardim do éden os infelizes pais destes dois. Tem na cabeça a coroa tripla, a mão direita empunha o ceptro, um balandrau de rico tecido cobre- o da cabeça aos pés. Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e Caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha, Quis pôr-te à prova, E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou o dono soberano de todas as coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a Abelquando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um momento fosses realmente misericordioso, que aceitasses a minha oferenda com humildade, só porque não deverias atrever-te a recusá-la, os deuses, e tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado, Esse discurso é sedicioso, É possível que o seja, mas garanto-te que, se eu fosse deus, todos os dias diria Abençoados sejam os que escolheram a sedição porque deles será o reino da terra, Sacrilégio, Será, mas em todo o caso nunca maior que o teu, que permitiste que Abelmorresse, Tu é que o mataste, Sim, é verdade, eu fui o braço executor, mas a sentença foi ditada por ti, O sangue que aí está não o fiz verter eu, Caim podia ter escolhido entre o mal e o bem, se escolheu o mal pagará por isso, Tão ladrão é o que vai
    à vinha como aquele que fica a vigiar o guarda, disse Caim, E esse sangue reclama vingança, insistiu deus, Se é assim, vingar-te-ás ao mesmo tempo de uma morte real e de outra que não chegou a haver, Explica-te, Não gostarás do que vais ouvir, Que isso não te importe, fala, E simples, matei Abelporque não podia matar-te a ti, pela intenção estás morto, Compreendo o que queres dizer, mas a morte está vedada aos deuses, Sim, embora devessem carregar com todos os crimes cometidos em seu nome ou por sua causa, Deus está inocente, tudo seria igual se não existisse, Mas eu, porque matei, poderei ser morto por qualquer pessoa que me encontre, Não será assim, farei um acordo contigo, Um acordo com o réprobo, perguntou Caim, mal acreditando no que acabara de ouvir, Diremos que é um acordo de responsabilidade partilhada pela morte de Abel, Reconheces então a tua parte de culpa, Reconheço, mas não o digas a ninguém, será um segredo entre deus e Caim, Não é certo, devo estar a sonhar, Com os deuses isso acontece muitas vezes, Por serem, como se diz, inescrutáveis os vossos desígnios, perguntou Caim, Essas palavras não as disse nenhum deus que eu conheça, nunca nos passaria pela cabeça dizer que os nossos desígnios são inescrutáveis, isso foi coisa inventada por homens que presumem de ser tu cá, tu lá com a divindade, Então não serei castigado pelo meu crime, perguntou Caim, A minha porção de culpa não absolve a tua, terás o teu castigo, Qual, Andarás errante e perdido pelo mundo, Sendo assim, qualquer pessoa me poderá matar, Não, porque porei um sinal na tua testa, ninguém te fará mal, mas, em pago da minha benevolência, procura tu não fazer mal a ninguém, disse o senhor, tocando com o dedo indicador a testa de Caim,
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  29. #209
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    onde apareceu uma pequena mancha negra, Este é o sinal da tua condenação, acrescentou o senhor, mas é também o sinal de que estarás toda a vida sob a minha protecção e sob a minha censura, vigiar-te-ei onde quer que estejas, Aceito, disse Caim, Não terias outro remédio, Quando principia o meu castigo, Agora mesmo, Poderei despedir-me dos meus pais, perguntou Caim, Isso é contigo, em assuntos de família não me meto, mas com certeza vão querer saber onde está Abel, e suponho que não lhes irás dizer que o mataste, Não, Não, quê, Não me despedirei dos meus pais, Então, parte. Não havia mais nada a dizer. O senhor desapareceu antes que Caim tivesse dado o primeiro passo. A cara de Abelestava coberta de moscas, havia moscas nos seus olhos abertos, moscas na comissura dos lábios, moscas nas feridas que tinha sofrido nas mãos quando as levantara para proteger-se dos golpes. Pobre Abel, a quem deus tinha enganado. O senhor havia feito uma péssima escolha para a inauguração do jardim do éden, no jogo da roleta posto a correr todos tinham perdido, no tiro ao alvo de cegos ninguém havia acertado. A eva e adão ainda restava a possibilidade de gerarem um filho para compensar a perda do assassinado, mas bem triste há-de ser a gente sem outra finalidade na vida que a de fazer filhos sem saber porquê nem para quê. Para continuar a espécie, dizem aqueles que crêem num objectivo final, numa razão última, embora não tenham nenhuma ideia sobre quais sejam e que nunca se perguntaram em nome de quê terá a espécie de continuar como se fosse ela a única e derradeira esperança do universo. Ao matar Abelpor não poder matar o senhor, Caim deu já a sua resposta. Não se augure nada bom da vida futura deste homem.
    E, contudo, esse homem acossado que aí vai, perseguido pelos seus próprios passos, esse maldito, esse fratricida, teve bons princípios como poucos. Que o diga sua mãe que tantas vezes o foi encontrar, sentado no chão húmido do horto, a olhar para uma pequena árvore recém-plantada, à espera de vê-la crescer. Tinha quatro ou cinco anos e queria ver crescer as árvores. Então, ela, pelos vistos ainda mais imaginosa que o filho, explicou-lhe que as árvores são muito tímidas, só crescem quando não estamos a olhar para elas, E que lhes dá vergonha, disse-lhe um dia. Por alguns instantes Caim permaneceu calado, a pensar, mas logo respondeu, Então não olhes, mãe, de mim não
    têm vergonha, estão habituadas. Prevendo já o que viria depois, a mãe apartou o olhar e imediatamente a voz do filho soou triunfal, Agora mesmo cresceu, agora mesmo cresceu, eu bem te tinha dito que não olhasses. Nessa noite, quando adão voltou do trabalho, eva, rindo, contou-lhe o que se tinha passado e o marido respondeu, Esse rapaz vai longe. Talvez fosse, sim, se o senhor não se tivesse atravessado no seu caminho. Ainda assim, longe bastante já ele ia, embora não no sentido que o pai lhe havia vaticinado. Arrastando os pés de cansaço, avançava por um descampado sem um arruinado casebre à vista ou outro sinal de vida, uma solidão desgarradora que o céu raso aumentava ainda mais pela ameaça de uma chuvada iminente. Não teria onde recolher-se, a não ser debaixo de alguma árvore entre as poucas que, lentamente, à medida que caminhava, iam assomando a copa acima do horizonte próximo. As ramagens, em geral escassamente povoadas de folhas, não garantiam protecção digna desse nome. Foi então, ao caírem as primeiras gotas, que Caim deu por que tinha a túnica suja de sangue. Pensou que talvez a mancha desaparecesse com a chuva, mas logo percebeu que não, melhor seria disfarçá-la com terra, ninguém seria capaz de suspeitar o que estaria debaixo, tanto mais que gente com túnicas sujas, enodoadas, era o que menos faltava por estes sítios. Começou a chover com força, em pouco tempo a túnica ficou empapada, da mancha de sangue não se percebia o menor vestígio, além disso sempre poderia dizer, se fosse perguntado, que se tratava de sangue de cordeiro. Sim, disse Caim em voz alta, mas Abelnão era nenhum cordeiro, era o meu irmão, e eu matei-o. Nesse momento não se lembrou de que havia dito ao senhor que ambos eram culpados do crime, mas a memória não tardou a ajudá-lo, por isso acrescentou, Se o senhor, que, segundo se diz, tudo sabe e tudo pode, tivesse feito sumir dali a queixada de burro, eu não teria matado Abel, e agora podíamos estar os dois à porta da casa a ver a chuva cair, e Abelreconheceria que realmente o senhor havia feito mal em não aceitar o único que eu tinha para lhe oferecer, as sementes e as espigas nascidas do meu afã e do meu suor, e ele ainda estaria vivo e nós seríamos tão amigos como sempre o tínhamos sido. Chorar o leite derramado não é tão inútil quanto se diz, é de alguma maneira instrutivo porque nos mostra a verdadeira dimensão da frivolidade de certos procedimentos humanos, porquanto se o leite se derramou, derramado está e só há que limpá-lo, e se Abelfoi morto de morte malvada é porque alguém lhe tirou a vida. Reflectir enquanto a chuva nos vem caindo em cima não é certamente a coisa mais cómoda do mundo, e foi talvez por isso que de um momento para o outro deixou de chover, para que Caim pudesse pensar à vontade, seguir livremente o curso do seu pensamento até ver aonde ele o levaria. Não o chegaremos a saber nunca, nem nós, nem ele, o súbito aparecimento, como se saísse do nada, do que restava de um casebre distraiu-o das suas cogitações e dos seus pesares. Havia sinais de cultivo da terra na parte de trás da casa, mas era evidente que os habitantes a tinham abandonado havia muito tempo, em todo o caso talvez não tanto se tivermos em conta a fragilidade intrínseca, a precária coesão dos materiais destas humildes moradas, que necessitam constantes reparações para não se irem abaixo em uma só estação. Se lhes falta uma mão cuidadosa, a casa dificilmente suportará a acção corrosiva das intempéries, em particular a chuva que empapa os adobes e o vento que a vai raspando como se estivesse forrado de lixa grossa. Algumas das paredes interiores haviam caído, o tecto desabara na sua maior parte, apenas sobrevivia um recanto relativamente protegido onde o exausto caminhante se deixou cair. Mal se podia ter nas pernas, não só pelo muito que tinha andado mas também porque a fome começava a apertá-lo. O dia estava quase a chegar ao fim, em pouco tempo seria noite. Vou ficar aqui, disse Caim em voz alta, conforme era seu costume, como se precisasse de tranquilizar-se a si mesmo, ele a quem ninguém ameaça neste momento, provavelmente nem o próprio senhor sabe onde ele se
    encontra. Apesar de o tempo não estar demasiado frio, a túnica molhada, pegada à pele, causava-lhe arripios. Pensou que despindo-a mataria dois coelhos de uma cajadada, primeiro porque se acabariam os frios, e também porque a túnica, sendo feita de pano mais fino que grosso, em pouco tempo secaria. Assim fez e imediatamente se sentiu melhor. E verdade que não lhe pareceu bem ver-se nu como tinha vindo ao mundo, mas estava sozinho, sem testemunhas, sem ninguém que lhe pudesse tocar. Este pensamento provocou nele um novo arripio, não o mesmo, não aquele que havia resultado directamente do contacto da túnica molhada, mas uma espécie de estremecimento na região do sexo, um ligeiro entumecimento que não tardou a desaparecer, como se se tivesse envergonhado de si mesmo. Caim sabia o que aquilo era, mas, apesar da sua juventude, não lhe prestava grande atenção ou simplesmente tinha medo de que dali lhe viesse mais mal que bem. Enroscou-se no seu canto, juntando os joelhos com o peito, e assim adormeceu. O frio da madrugada fê-lo acordar. Estendeu a mão para apalpar a túnica, sentiu que ainda havia nela um resto de humidade, mas, apesar disso, decidiu-se a vesti-la, acabaria de secar no corpo. Não teve sonhos nem pesadelos, dormiu como se supõe que deverá dormir uma pedra, sem consciência, sem responsabilidade, sem culpa, porém, ao acordar, à primeira luz da manhã, as suas palavras foram, Matei o meu irmão. Se os tempos fossem outros, talvez tivesse chorado, talvez se tivesse desesperado, talvez tivesse dado punhadas no peito e na cabeça, mas sendo as coisas o que são, praticamente o mundo só agora foi inaugurado, faltam-nos ainda muitas palavras para que comecemos a tentar dizer quem somos e nem sempre daremos com as que melhor o expliquem, contentou-se com repetir as que havia dito até que deixaram de significar e não foram mais que uma série de sons inconexos, uns balbuceios sem sentido. Foi então que percebeu que afinal havia sonhado, não um sonho precisamente, mas uma imagem, a sua, regressando a casa e encontrando o irmão no vão da porta, à sua espera. Assim o recordará durante toda a vida como se tivesse feito as pazes com o seu crime e não houvesse mais remorso que sofrer.
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    Por Defeito

    Saiu da barraca e aspirou profundamente o ar frio. O sol ainda não havia nascido, mas o céu já se iluminava de delicados tons coloridos, o suficiente para que a árida e monótona paisagem que tinha diante dos olhos, a esta primeira luz da manhã, aparecesse transfigurada, uma espécie de jardim do éden sem proibições. Caim não tinha qualquer motivo para orientar os seus passos numa direcção precisa, mas instintivamente buscou os sinais que deixara antes de se ter desviado para o casebre em que passara a noite. Era simples, afinal bastaria caminhar ao encontro do sol, para aquele lado, onde ele não tardaria a levantar- se. Aparentemente apaziguado pelas horas de sono, o estômago moderara as contracções, e seria bom que se mantivesse nessa disposição porque esperança de comida próxima não havia nenhuma, e se é certo que de vez em quando aparecia uma ou outra figueira, frutos não tinham, que não era tempo deles. Com um resto de energia que não imaginava possuir ainda, reiniciou a caminhada. O sol apareceu, hoje não choverá, é mesmo possível que venha a fazer calor. Ao cabo de não muito tempo, começou a sentir-se outra vez cansado. Tinha de encontrar algo de comer, ou então acabaria prostrado neste deserto, em poucos dias reduzido à ossamenta, que disso se encarregariam as aves carnívoras ou alguma matilha de cães asselvajados que até agora ainda não se tinham manifestado. Estava porém escrito que a vida de Caim não se acabaria aqui, sobretudo porque não teria valido a pena que o senhor tivesse perdido tanto tempo a amaldiçoá-lo se era para vir morrer neste páramo. O aviso veio de baixo, dos fatigados pés que haviam tardado a perceber que o chão que pisavam era já outro, despido de vegetação, sem ervas ou cardos que embaraçassem o andar, enfim, para tudo deixar dito em poucas palavras, Caim, sem saber como nem quando, tinha achado um caminho. Alegrou-se o pobre errante, pois é
    norma conhecida que uma via de trânsito, estrada, vereda ou carreiro, acabará por conduzir, mais cedo ou mais tarde, perto ou longe, a um lugar povoado onde talvez seja possível encontrar trabalho, tecto e um naco de pão que mate esta fome. Animado pelo súbito descobrimento, fazendo, como é costume dizer-se, das tripas coração, buscou forças onde já as não havia e acelerou o passo, sempre à espera de ver aparecer uma casa com sinais de vida, um homem montado num burro ou uma mulher com um cântaro à cabeça. Ainda teve de andar muito. O velho que finalmente lhe apareceu pela frente ia a pé e levava duas ovelhas atadas por um baraço. Caim saudou-o com as palavras mais cordiais do seu vocabulário, mas o homem não retribuiu, Que marca é essa que tens na testa, perguntou. Apanhado de surpresa, Caim perguntou por sua vez, Qual marca, Essa, disse o homem, levando a mão à sua própria testa, É um sinal de nascença, respondeu Caim, Não deves ser boa gente, Quem to disse, como o sabes, respondeu Caim imprudentemente, Como diz o refrão antigo, o diabo que te assinalou, algum defeito te encontrou, Não sou melhor nem pior que os demais, procuro trabalho, disse Caim tratando de levar a conversa ao terreno que lhe convinha, Trabalho é o que por aqui não falta, que sabes tu fazer, perguntou o velho, Sou agricultor, Já temos agricultores em quantidade suficiente, por esse lado não irás conseguir nada, além disso vens sozinho, sem família, Perdi a minha, Perdeste-a como, Perdi-a simplesmente, e não há mais que contar, Sendo assim, deixo-te, não gosto da tua cara nem desse sinal que tens na testa. Já se afastava, mas Caim ainda o reteve, Não vás, diz-me ao menos como chamam a estes sítios, Chamam-lhes terra de nod, E nod que quer dizer, Significa terra da fuga ou terra dos errantes, diz-me tu, já que aqui chegaste, de quê andas fugido e porquê és um errante, Não conto a minha vida ao primeiro que encontre no caminho com duas ovelhas atadas por um baraço, além disso não te conheço, não te devo respeito e não tenho por que responder às tuas perguntas, Voltaremos a ver—nos, Quem sabe, talvez não encontre trabalho aqui e tenha de buscar outro destino, Se és capaz de moldear um adobe e levantar uma parede, este é o teu destino, Aonde devo ir, perguntou Caim, Segue por esta rua a direito, ao fundo há uma praça, aí terás a resposta, Adeus, velho, Adeus, oxalá não chegues tu a sê-lo, Por baixo das palavras que dizes percebo que há outras que calas, Sim, por exemplo, essa tua marca não é de nascença, não a fizeste a ti próprio, nada do que disseste aqui é verdadeiro, Pode ser que a minha verdade seja para ti mentira, Pode ser, sim, a dúvida é o privilégio de quem viveu muito, será por isso que não conseguiste convencer-me a aceitar como certezas o que para mim mais se parece a falsidades, Quem és tu, perguntou Caim, Cuidado, rapaz, se me perguntas quem sou estarás a reconhecer o meu direito a querer saber quem és, Nada me obrigará a dizê-lo, Vais entrar nesta cidade, vais ficar aqui, mais cedo ou mais tarde tudo se saberá, Só quando tenha de ser e não por mim, Diz-me, ao menos, como te chamas, Abel é o meu nome, disse Caim.
    Enquanto o falso Abelvai andando em direcção à praça onde, no dizer do velho, se encontrará com o seu destino, atendamos à pertinentíssima observação de alguns leitores vigilantes, dos sempre atentos, que consideram que o diálogo que acabámos de registar como acontecido não seria historicamente nem culturalmente possível, que um lavrador de poucas e já nenhumas terras, e um velho de quem não se conhecem ofício nem benefício, nunca poderiam pensar e falar assim. Têm razão esses leitores, porém, a questão não estará tanto em dispor ou não dispor de ideias e vocabulário suficiente para as expressar, mas sim na nossa própria capacidade de admitir, que mais não seja por simples empatia humana e generosidade intelectual, que um camponês das primeiras eras do mundo e um velho com duas ovelhas atadas a um baraço, apenas com o seu limitado saber e uma linguagem que ainda estaria a dar os primeiros passos, fossem impelidos pela necessidade a provar maneiras de expressar premonições e intuições
    aparentemente fora do seu alcance. Que eles não disseram aquelas palavras, é mais do que óbvio, mas as dúvidas, as suspeitas, as perplexidades, os avanços e recuos da argumentação, estiveram lá. O que fizemos foi simplesmente passar ao português corrente o duplo e para nós irresolúvel mistério da linguagem e do pensamento daquele tempo. Se o resultado é coerente agora, também o seria na altura porque, ao final, almocreves somos e pela estrada andamos. Todos, tanto os sábios como os ignorantes.
    Aí está a praça. Em verdade, ter chamado a isto uma cidade foi um exagero. Umas quantas casas térreas mal alinhadas, umas quantas crianças brincando não se sabe a quê, uns adultos que se movem como sonâmbulos, uns burros que parecem ir aonde querem e não aonde os conduzem, qualquer cidade que se preze desse nome nunca se reconhecerá na cena primitiva que temos diante dos olhos, faltam aqui os automóveis e os autocarros, os sinais de tráfego, os semáforos, as passagens subterrâneas, os anúncios nas frontarias ou nos telhados das casas, numa palavra, a modernidade, a vida moderna. Enfim, tudo se andará, o progresso, tal como virá a reconhecer-se mais tarde, é inevitável, fatal como a morte. É a vida. Ao fundo vê-se um edifício em construção, uma espécie de palácio rústico de dois pisos, nada que se pareça a mafra, a Versalhes ou a buckingham, em que se afadigam dezenas de pedreiros e ajudas, estes carregando adobes às costas, aqueles assentando-os em fieiras regulares. Caim nada entende de trabalhos de alta ou baixa alvenaria, mas, se o seu destino o está esperando aqui, por muito amargo que possa vir a ser, e isso sempre se sabe quando já é demasiado tarde para mudar, não lhe resta outro remédio senão enfrentá-lo. Como um homem. Disfarçando o melhor que podia a ansiedade e a fome que lhe faziam tremer as pernas, avançou para o estaleiro. Se por natural desconhecimento os operários o confundiram com um daqueles ociosos que em todas as épocas da humanidade se detiveram para ver trabalhar os outros, logo perceberam que quem ali estava era mais uma vítima da crise, um triste desempregado à busca de uma tábua de salvação. Quase sem que Caim tivesse necessidade de dizer ao que ia, apontaram-lhe o olheiro que vigiava o grupo, Fala com ele, disseram. Caim foi, subiu ao poiso do observador e, depois das saudações usuais, disse que andava à procura de trabalho. O olheiro perguntou, Que sabes tu fazer, e Caim respondeu, Desta arte, nada, sou lavrador, mas imagino que mais dois braços alguma serventia poderão ter, Dois braços, não, uma vez que não sabes nada do ofício de alvenel, mas dois pés, talvez, Dois pés, estranhou Caim, sem compreender, Sim, dois pés, para pisar o barro, Ah, Espera aqui, vou falar com o capataz. Retirava-se já, mas ainda voltou a cabeça para perguntar, Como te chamas, Abel, respondeu Caim. O olheiro não se demorou muito, Podes começar a trabalhar já, eu levo-te à pisa do barro, Quanto vou ganhar, perguntou Caim, Os pisadores ganham todos por igual, Sim, mas quanto irei eu ganhar, Isso não é da minha conta, em todo o caso, se queres um bom conselho, não perguntes já, não está bem visto, primeiro terás de mostrar o que vales, e ainda te digo mais, não deverias perguntar nada, espera que te paguem, Se pensas que é o melhor, assim farei, mas não me parece justo,
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